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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma questão de fé

Estudo de personagem sensível e inteligente, a propor um mergulho nos abismos da dependência, "NÃO DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO" é o novo filme de Cédric Kahn e um dos mais conseguidos do realizador francês. Mas o seu maior trunfo talvez até seja Anthony Bajon, na pele do protagonista, com uma das interpretações de 2018 a não deixar passar.

 

Não Deixeis Cair em Tentação

 

De "O Tédio" (1998) a "Uma Vida Melhor" (2011), passando por "Arrependimentos" (2009), Cédric Kahn tem tido um dos percursos mais prolíficos do cinema francês dos últimos anos, mesmo que nem sempre dos mais celebrados. "NÃO DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO" não deverá mudar muito o seu caminho discreto q.b., até porque não tem despertado especiais atenções, mas é dos seus filmes mais consistentes, em boa parte pela forma como o actor principal o defende.

 

Anthony Bajon, com uma experiência relativamente curta na interpretação (iniciada há três anos), conta aqui com a primeira grande montra do seu talento, depois de papéis nos também recentes "Rodin", de Jacques Doillon, "Maryline", de Guillaume Gallienne, ou "Nos années folles", de André Téchiné.

 

Na pele de um toxicodependente de 22 anos acabado de chegar a um centro de reabilitação católico, no interior de França, o actor é o centro narrativo e emocional de um drama cujo argumento passa por alguns cenários reconhecíveis, mas que consegue elevar-se, em parte, pela sua entrega imune a estereótipos - devidamente premiada na mais recente edição do Festival de Berlim. 

 

Não Deixeis Cair em Tentação 2

 

Tão frágil como irascível, com uma timidez que não esconde uma raiva que vai sendo progressivamente domada, Bajon é essencial para que "NÃO DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO" nunca deixe de ser credível. E Kahn sabe tirar partido das suas expressões faciais e linguagem corporal num herdeiro digno da melhor tradição realista francesa. Até porque se o protagonista é um achado, o realizador não se contenta com um mero filme-veículo e propõe uma alternativa séria e ambígua a muitas histórias de superação, de crises de identidade e de fé que se resolvem com soluções demasiado fáceis.

 

Este, por outro lado, é um drama que nunca estanca de vez a ansiedade do protagonista nem lança um debate simplista, numa lógica de prós e contras, sobre uma vida amparada pela religião. O modo como o refúgio na oração substitui a dependência de drogas ou do álcool, tanto da personagem principal como de muitas secundárias, está até bem longe de ser uma questão pacífica, mas felizmente Kahn nunca cai no panfleto evangelizador nem no protesto gratuito. No meio é que está a virtude (e talvez um milagre entre montanhas e neve?) e "NÃO DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO" fica como um caso meritório de cinema "do meio", que não quer (re)inventar nada mas que também não cede ao óbvio, mantendo-se acessível sem ser raso - à semelhança, de resto, da filmografia do seu autor.

 

Com um verismo consolidado pela direcção de fotografia de Yves Cape (colaborador habitual de Bruno Dumont ou Leos Carax), intensa e envolvente sem nunca se tornar ostensiva, e pelo acerto de todo o elenco (mesmo que algumas personagens parecessem ter mais para dar), o resultado talvez alcançasse outros voos com um final menos anti-climático, a uns degraus da inquietação de momentos anteriores. Mas uma sintonia tão rara entre realizador e actor principal é logo motivo mais do que suficiente para justificar a ida às salas...

 

3,5/5

 

 

Cinquenta sombras mais negras

SRSQ

 

Kennedy Wenning já se tinha feito ouvir num disco este ano: "Amends", o segundo e último dos Them Are Us Too, que conheceram um final tão abrupto como trágico quando Cash Askew, metade da dupla norte-americana, morreu num incêndio num armazém em Okland, no final de 2016.

 

Se o processo de luto acabou por inspirar inevitavelmente as derradeiras canções do duo, o cenário repete-se no álbum de estreia a solo de SRSQ, projecto paralelo de Wenning que ganha agora outro peso. A morte da ex-colega e amiga é o motor de uma nova colecção de canções pintadas de negro e comandadas por uma voz já habituada a ambientes com heranças new wave e góticas, que aqui volta a mostrar-se confortável entre outros ecos de uns certos anos 80.

 

Ao longo de boa parte do alinhamento, "Unreality" traz à memória, como já acontecia nos discos dos Them Are Us Too, os tempos áureos da 4AD e em especial dos Cocteau Twins, um dos pilares da editora. Mas o álbum é mais intrigante quanto mais se vai afastando dessa influência assumida, sobretudo na recta final e na entrada em cena de "PERMISSION".

 

Com um arranque no qual a voz surge processada e em territórios próximos do canto gregoriano, a canção vai ganhando dinamismo rítmico e apelo dançável sem abdicar da estranheza, a meio caminho entre a darkwave a a synthpop, sugerindo um virar de página mais versátil nos próximos passos do projecto. O videoclip é fiel a este híbrido atormentado e eufórico, com a própria Wenning a passar por uma noite que não fica a dever nada à do Halloween - mas que ainda assim não parece intimidá-la muito:

 

 

À grande e à francesa

Daisy Mortem 2018

 

Vampiro Maracas e Cindy Bluray descrevem os DAISY MORTEM como uma banda entre a Eurovisão e o apocalipse, mas no novo single a dupla francesa não está especialmente festivaleira. "ARÊTES" é, pelo contrário, um dos maiores vendavais sonoros do projecto que tem pegado em estilhaços electro ou punk para ir semeando (e às vezes celebrando) o caos.

 

Foi assim nos EPs "Better!Better!Better!" (2016) e "La vie c'est mort" (2018) e promete continuar a ser no primeiro álbum, "Fait-Divers", ainda sem data de lançamento revelada. Confirmada está, no entanto, a próxima digressão do duo de Bordéus, que entre Novembro e inícios de Dezembro vai passar por França, Espanha e Portugal - Porto (local a anunciar), Lisboa (Aposentadoria) e Coimbra (Salão Brazil) vão receber o grupo nos dias 8, 9 e 10 do próximo mês, respectivamente.

 

Com actuações conhecidas por elevarem a distorção e crueza palpáveis nos discos, Maracas e Bluray antecipam alguma dessa atmosfera no novo videoclip - tal como a canção, mais apocalíptico do que eurovisivo - e o nível de fúria aumenta consideravelmente nas remisturas de Signor Benedick the Moor e Vorace. Por estes lados, o french touch é mesmo tudo menos suave:

 

 

Foto: Quillec Eva

 

O mundo de Sofie

Sophie Winterson

 

Entre os teclados e as guitarras, a dream pop e a new wave, SOFIE WINTERSON tem vindo a consolidar uma discografia de canções tão elegantes como soturnas, através do álbum de estreia "Wires" (2014) e dos EPs e singles editados a partir daí.

 

O próximo passo dá-se já a 2 de Novembro, com o lançamento do segundo longa-duração, "Sophia Electric", gravado entre Los Angeles, Lisboa, Haarlem e Amesterdão, esta última a cidade-natal da cantautora. Nos últimos meses, "Remember", "Lost Souls""Military Man" foram abrindo caminho para o disco, numa linha de continuidade face aos primeiros temas, mas a melhor amostra até é capaz de ser a mais recente, "HALF ASLEEP".

 

Canção curta e etérea, reforça o travo onírico da música da holandesa (com a letra a acompanhar a sonoridade) enquanto olha para a dinâmica de uma relação amorosa e da forma como é percepcionada. É dos temas mais intimistas de WINTERSON, o que talvez explique um videoclip muito lá de casa, assinado pela fotógrafa Laura Kampman, a contrastar com abordagens mais elaboradas de vídeos de singles anteriores (como o de "Dreams"). Não que fosse preciso qualquer espalhafato visual quando está aqui um belo exemplo de indie pop envolvente e convidativa, a deixar uma nova porta de entrada para um dos álbuns a aguardar este Outono:

 

 

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