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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A noite da caçadora escondida

De volta a Portugal com um dos melhores álbuns de rock do ano, ANNA CALVI defendeu bem as canções de "Hunter" no Capitólio, em Lisboa, no passado sábado. Mas se a música foi sedutora, as (limitadas) condições de visibilidade do palco cortaram parte do encanto.

 

Anna Calvi Capitólio

 

No segundo e último concerto nacional da digressão europeia em torno de "Hunter" - depois de ter actuado no Hard Club, no Porto, na noite de sexta-feira -, ANNA CALVI foi recebida por uma sala composta e pronta a descobrir, ao vivo, a faceta mais crua e visceral da britânica, que diz ter neste terceiro álbum o seu conjunto de canções mais directo e auto-biográfico - e dominado, como nunca antes, por letras ligadas às questões de género e sexualidade.

Mas se a cantautora nunca deixou de ser pelo menos competente ao longo de pouco mais de uma hora - tal como a sua banda de dois elementos, nas percussões e teclados -, foi quase sempre mais fácil ouvi-la do que vê-la durante boa parte do tempo. Exceptuando as duas ou três canções em que se aproximou do público, através do microfone mais à frente do palco, contemplar CALVI e os músicos sem ter espectadores a limitarem a vista terá sido uma tarefa difícil para muitos, tirando talvez para quem se encontrava nas primeiras filas - consequência de um espectáculo cujo público estava de pé e com a artista quase à mesma altura.

A situação foi especialmente frustrante nos momentos em que a cantora se baixou e deitou no palco, tornando impossível acompanhar o que se passava para quem não estava perto dela, tendo em conta que a actuação não contou com ecrãs que permitissem ver o que ali ia decorrendo.

 

hunter

 

Ainda assim, e isso foi uma prova de carisma e talento, a voz de "Suzanne & I" manteve o público interessado e aparentemente rendido. Não que o efeito tenha sido imediato: "Indies or Paradise", "As a Man" ou "Hunter", todos temas do novo álbum, marcaram um arranque tão correcto como contido, sem especiais desvios face ao que se ouve no disco e aquém da carga mais efervescente que vinca a nova faceta de CALVI (confirmar nas fotos promocionais e videoclips mais recentes).

Mas a partir da recta final de "Don't Beat The Girl Out Of My Boy", preenchida com uivos sucessivos entre um dos maiores episódios de euforia instrumental, a britânica foi ganhando outra segurança e tomando o pulso do palco e do público. Mulher de vermelho num cenário escarlate, com aura imponente e sempre acompanhada da guitarra, acabaria por se tornar cúmplice dos espectadores sem perder a pose nem precisar de os atiçar com mimos - dirigiu-se a eles apenas para breves cumprimentos, agradecimentos e apresentação da banda.

Canções como "I'll Be Your Man" ou "Desire", duas das obrigatórias do álbum de estreia homónimo (editado em 2011), ficaram entre os momentos flamejantes de um alinhamento que também oscilou entre os sussurros aveludados de "No More Words", outra repescada da estreia, ou da recente "Smimming Pool" - com o quase silêncio a mostrar-se tão potente como a distorção atormentada.

 

Anna Calvi Capitólio 2

 

Por outro lado, "Alpha" e sobretudo a irresistível "Wish" resultaram quase festivas, ao condimentarem um rock simultaneamente agreste e elegante com um embalo dançável. E foi decididamente uma ANNA CALVI mais solta a que dominou o último terço da actuação, aproximando-se do desvario e quebra de barreiras que percorre "Hunter" com uma postura ainda teatral, mas menos metida consigo próprio do que no arranque.

Ainda mais expansivo, o encore serviu "Ghost Rider", versão dos Suicide incluída no EP "Strange Weather" (2014), final ansioso e enigmático de um espectáculo que teria sido mais memorável noutra sala ou, eventualmente, num Capitólio só com lugares sentados. Em todo o caso, a relação da britânica com o público português não parece ter sido beliscada e um concerto destes dá alguma razão, mais uma vez, aos elogios fervorosos de Brian Eno enquanto se vai afastando, tal como o novo disco, de territórios próximos da em tempos (muito) comparada PJ Harvey. ANNA CALVI está a encontrar o seu lugar, espera-se que num próximo regresso possamos vê-lo tão bem como o ouvimos...

 

3/5

 

 

Artigo originalmente publicado no SAPO Mag. Fotos: Carlos Sousa Vieira

 

Sem este disco, muitas adolescências não teriam sido o que foram

Without You I'm Nothing

 

Depois de uma estreia que não passou despercebida, o segundo álbum dos PLACEBO consolidou o culto em torno da banda de Brian Molko com algumas das suas canções-chave e um reforço da introspecção. Editado em 1998, "WITHOUT YOU I'M NOTHING" faz 20 anos este mês e continua a ser dos melhores testemunhos rock do seu tempo.

 

Entre as primeiras partes da digressão dos U2 ou o convite de David Bowie para a parceria num tema (o que deu nome ao segundo disco), os PLACEBO deram um passo de gigante entre 1996 e 1998, datas de edição dos álbuns que inauguraram o seu percurso. E reforçaram o lugar entre os nomes que acabariam por dizer muito a uma imensa minoria (predominantemente adolescente) na recta final dessa década.

 

Mas apesar de ter sido bem sucedido, e tão bem acolhido por boa parte da crítica como dos fãs, "WITHOUT YOU I'M NOTHING" não deixou de ser um difícil segundo álbum. A relação atribulada da banda de Brian Molko, Stefan Olsdal e Steve Hewitt com o produtor Steve Osbourne terá levado a que o vocalista ainda hoje não coloque o disco entre os seus favoritos, tendo até lamentado o excesso de temas mais lentos face ao registo de estreia. Já grande parte dos seus admiradores tende a discordar e o álbum é muitas vezes apontado como o testemunho essencial do percurso dos PLACEBO - mesmo que o seguinte, "Black Market Music" (2000), tenha proposto outro grande passo em frente antes de sucessores algo irregulares.

 

Placebo 1998

 

A força de "WITHOUT YOU I'M NOTHING" nasceu, aliás, da conjugação da urgência dos primeiros dias do trio - mantida em "You Don't Care About Us", "Brick Shithouse" ou "Scared of Girls" - com uma vertente contemplativa e  vulnerável, mais devedora de alguns ambientes góticos e new wave do que de escolas do rock alternativo dos anos 90 - "Ask for Answers", "My Sweet Prince" ou "Burger Queen" mostraram em pleno uns PLACEBO que o primeiro álbum sugeria timidamente em desvios na linha de "Hang On to Your IQ".

 

A unir estes extremos sonoros manteve-se a escrita de Brian Molko, novamente a passar pela solidão e inquietação com alusões directas às drogas ou ao sexo - e a relações homossexuais, tendo ele composto parte das canções pouco depois do seu coming out. A sua androginia vocal e visual confirmaram-se como parte da identidade do grupo e reforçaram um lugar próprio face a outras bandas de finais dos anos 90, sem parentes óbvios no cenário pós-grunge e pós-britpop.

 

Para os mais cépticos, uma sequência incrível como a de "Allergic (To Thoughts of Mother Earth)"/ "The Crawl"/ "Every You Every Me" tratou de assegurar que a música contava, ainda assim, mais do que a imagem (por muito impacto que um videoclip como o de "Pure Morning" tenha tido). E 20 anos depois, continua a estar aqui um dos episódios mais fascinantes da história dos PLACEBO.

 

 

 

À descoberta do segundo álbum

20181011 Foto Promo Final KRS Joana Linda

 

Os KEEP RAZORS SHARP começaram o ano a prometer um segundo álbum e revelaram logo em Janeiro o (muito aconselhável) primeiro single, "Always and Forever". Só que desde aí não surgiram mais novidades do sucessor da estreia homónima de 2014.

 

Mas "OVERCOME", assim se chama o disco, chega mesmo em 2018 e nem é preciso esperar muito mais: vai poder ser ouvido a partir desta sexta-feira, 19 de Outubro. E agora até já se pode escutar o segundo single, a faixa-título, canção muito menos explosiva do que a antecessora embora não menos aliciante - e a comprovar que a melancolia também assenta bem ao grupo de Afonso (Sean Riley & The Slowriders), Rai (The Poppers), Bráulio (ex-Capitão Fantasma) e Bibi (Pernas de Alicate).

 

KRS

 

O videoclip, realizado por Joana Linda, acompanha o quarteto "entre os mortos e os vivos, o passado e o futuro", no World of Discoveries, museu interactivo e parque temático do Porto, com um ambiente meditativo e surreal q.b.. E entretanto também já é conhecida a capa do disco que, depois do lançamento, chega aos palcos na próxima semana, a 25 de Outubro, no festival Jameson Urban Routes, no Musicbox, em Lisboa - numa noite repartida com os brasileiros Boogarins. Agora, sim, temos regresso e em várias frentes:

 

 

O regresso do navegante da lua

THE SOFT MOON já não é uma novidade em palcos nacionais, mas o regresso mais recente de Luis Vasquez trouxe as novas canções de "Criminal" ao RCA Club, em Lisboa, na passada sexta-feira. E comprovou que está aqui uma força (sempre negra) a ter em conta - sobretudo ao vivo.

 

The Soft Moon RCA Club

 

Com quatro álbuns e um EP no currículo, THE SOFT MOON tem-se mostrado, desde inícios da década, como um dos nomes mais consistentes na exploração de cruzamentos entre territórios pós-punk, industriais e góticos, com passagens pela EBM ou coldwave. Não será uma combinação inédita, nem a mais original, mas Luiz Vasquez, o mentor do projecto, parece ter um conhecimento enciclopédico dos domínios que percorre e consegue desbravar recantos inesperados, apesar das muitas influências óbvias e assumidas - dos Joy Division aos NEU!, passando pelos The Cure, Nitzer Ebb ou Nine Inch Nails, a lista é longa e sempre de tons turvos.

 

Se o norte-americano ainda não terá editado um registo ao nível dos mais marcantes das suas referências, nem por isso tem deixado de ser um cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista a gerar culto e entusiasmo. E embora os discos não tenham proposto grandes viragens sonoras, há uma aproximação ao formato canção - em especial nos mais recentes, "Deeper" (2015) e "Criminal" (2018) - que contrasta com a penumbra atmosférica dos primeiros dias ao encontrar refrães fortes no meio do desespero.

 

The Soft Moon RCA Club 2

 

O regresso mais recente a Lisboa permitiu atestar isso mesmo, entre momentos tendencialmente instrumentais e outros onde a voz se insurgiu e tentou controlar os acontecimentos. Apresentando-se no formato banda, ao lado de dois músicos que, tal como ele, foram alternando instrumentos - guitarra, baixo, teclas, programações, vários tipos de percussão - , Vasquez não gastou muitas mais palavras além das que deixou nas canções, ficando-se por uma breve saudação, despedida e agradecimentos. Mas também ninguém terá sentido grande falta delas ao longo de um concerto que, apesar de ter durado pouco mais de uma hora, conseguiu agregar quase duas dezenas de temas a um ritmo imparável - e nem deixou a sensação de ter sabido a pouco, tirando talvez no encore de apenas duas canções.

 

Com o alinhamento que revisitou todos os discos, "Criminal" acabou por ser o mais predominante e tão bem acolhido como os anteriores por uma sala repleta. Da revolta à la Trent Reznor de "Burn" à igualmente inquieta "The Pain" ou à mais contida "Give Something", com a voz a aventurar-se por tons agudos, as canções soaram ainda mais urgentes do que no álbum - e o mesmo poderá dizer-se dos temas dos registos mais antigos.

 

"Far", hino propulsivo tão enérgico como angustiado, é bem capaz de ter sido o grande momento da noite, ainda que o patamar se tenha mantido quase sempre elevado. "Deeper", "Wrong" e "Want" - no arranque, a meio e no final, respectivamente - viram Vasquez trocar a guitarra pelos bongos, em acessos tribais que tornaram o cenário mais apocalíptico. Já "Insides" ou "Parallels" mergulharam numa faceta hipnótica que não comprometeu a intensidade.

 

The Soft Moon - Criminal

 

O trabalho de iluminação foi acompanhando as temperaturas das canções, entre tons negros, azulados ou escarlate, sem que se sentisse a falta de mais elementos cénicos: bastou a névoa que sublinhou o efeito dramático e a entrega evidente da banda. Vasquez, especialmente irrequieto, manteve um entusiasmo comparável ao dos fãs das primeiras filas, dançando, saltando e contorcendo-se, com a linguagem corporal a falar mais do que a verbal. Regresso garantido? Depois de uma actuação tão incisiva e ocasionalmente esmagadora, não há grandes dúvidas.

 

A abrir a noite, os WHISPERING SONS foram uma aposta mais do que competente. Também influenciados pelo pós-punk, os belgas destacaram-se não tanto pelas canções mas pela construção de ambientes, com mais espaço para surpresas do que a voz de Fenne Kuppens, ainda um pouco encostada a alguns ícones sombrios q.b. dos anos 80. O grupo define a sua música como nervosa e desesperada, características  dominantes do álbum de estreia, "Image", apresentado numa actuação envolvente e atmosférica, com pontes para algum shoegaze de boa linhagem, até mesmo na atitude dos elementos da banda - todos metidos consigo mesmos. A excepção foi o vocalista, que se dirigiu frequentemente ao público e terá conquistado grande parte dele enquanto deixou aqui um cartão de visita apelativo.

 

4/5

 

 

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