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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma noite de climão sem hora para acabar

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Editado em 2017, "Letrux em Noite de Climão" marcou a estreia a solo de Letícia Novaes depois do final dos Letuce, banda que a cantora, escritora e actriz formou com o ex-marido, Lucas Vasconcellos. E marcou também o baptismo do seu nome artístico, LETRUX, que de então para cá tem sido celebrado como uma das promessas da música independente brasileira.

 

O título do álbum já era todo um programa e deu logo conta da atmosfera que percorre o alinhamento, com crónicas de noites bem vividas e bebidas nas quais a artista carioca dá voz a várias personagens em francês, espanhol, inglês e português, temperadas por um humor entre o irónico e o desbragado (que tanto lembra as provocações de Peaches como as dos conterrâneos Tetine) ou acessos mais melancólicos em torno das relações amorosas.

 

Entretanto, o tom festivo de boa parte de "Letrux em Noite de Climão" tem passado para os palcos e, diz quem viu, canções como "Que Estrago", "Amoruim", "Vai Render" ou "Flerte Revival" despertam um efeito ainda mais bamboleante e surreal ao vivo, graças a uma voz e presença capaz de as defender e com um espectáculo à altura.

 

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Depois de percorrer várias cidades brasileiras, essa folia vai finalmente chegar a Portugal este ano, na abertura da terceira edição do MIL - Lisbon International Music Network. LETRUX foi escolhida, juntamente com Lula Pena, para o arranque do festival a 21 de Março, no B’Leza, numa noite que além de climão será de Bacaneza (nome da festa que encerra o programa do dia de estreia).

 

Anunciado esta semana, o concerto não é a única novidade dos últimos dias. "NINGUÉM PERGUNTOU POR VOCÊ", um dos convites à dança mais eficazes do álbum, é agora a nova aposta oficial. Entre a combinação de guitarra e sintetizadores, com influências disco sound, o apelo físico da música complementa uma letra "que fala sobre liberdade de pensamento, pérola sagrada humana que até isso querem controlar nos sombrios tempos que correm", assinala LETRUX nas redes sociais. "Viva a imaginação, viva o amor, o tesão, platónico ou não, realizado ou não, viva o pensamento que você está tendo agora", acrescenta.

 

Esse sentido de liberdade sai reforçado no videoclip, protagonizado pelas actrizes Bruna Linzmeyer e Camila Pitanga, entregues a manobras de sedução numa discoteca - aparentemente a altas horas de uma noite (de climão, como não?) que promete não terminar tão cedo:

 

 

Um regresso e uma reflexão (agora com orquestra)

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Apesar de ter sido uma das revelações mais aplaudidas de 2007, com o álbum de estreia "We Can Create" (nomeado para o Mercury Prize), MAPS foi mantendo um percurso relativamente discreto nos anos que se seguiram.

 

"Turning the Mind" (2009) e "Vicissitude" (2013), os discos sucessores, confirmaram o interesse de James Chapman, mentor deste projecto de um homem só, por canções de electrónica planante devedora da dream pop e de algum shoegaze, mas desde então pouco se tinha sabido do britânico. Até agora, já que o quarto álbum não só está confirmado como tem título, "Colours. Reflect. Time. Loss.", está prometido para 10 de Maio e chega, como os anteriores, pela Mute Records.

 

Também já se sabe que o registo vai ser o mais colaborativo do cantor, compositor e produtor, tendo como convidados o The Echo Collective, que agrega músicos com formação clássica, além de vários vocalistas e percussionistas. E a maior inspiração foi o período de recolhimento em Northamptonshire, no interior de Inglaterra, do qual Chapman é originário e onde foi preparando as novas canções ao longo dos últimos três anos - estreando-se como violinista em algumas delas.

 

"JUST REFLECTING" é um dos temas influenciados por esse quotidiano bucólico e o primeiro inédito de MAPS desde 2013. Mas embora tenha traços de uma viragem orquestral, não é assim tão diferente do que está para trás, ao voltar a contrastar a grandiosidade da melodia e dos arranjos com a voz sussurrada do seu autor. O efeito, mesmo sem ser tão refrescante ou encantatório como algumas canções anteriores, continua bonito e a deixar curiosidade em relação ao próximo passo:

 

 

Eles gostam é do Verão

É uma das melhores estreias do início de 2019 e provavelmente a mais prazenteira. Ambientada em dias (e noites) de Verão intermináveis, "MEKTOUB, MEU AMOR: CANTO PRIMEIRO" propõe um virar de página no percurso de Abdellatif Kechiche e apresenta o retrato mais luminoso e sensorial do franco-tunisino.

 

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Depois do jogo de lágrimas de "A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2" (2013), a luz ao fundo do túnel? O sexto filme de Abdellatif Kechiche até oferece mais do que isso, na verdade: luz a céu aberto, com direito a longas tardes de praia num regresso a férias da adolescência que parecem durar para sempre. Talvez por isso "MEKTOUB, MEU AMOR: CANTO PRIMEIRO" insista em prolongar-se por três horas, duração talvez desnecessária (sobretudo nas sequências da recta final, já na discoteca) mas nem por isso a quebrar uma experiência vibrante, com um realizador perfeitamente à vontade no cenário e tom no que adopta aqui.

 

O cenário nem é, aliás, novidade na obra de Kechiche. A acção regressa a Sète, a pequena localidade do sul de França que já tinha acolhido "O Segredo de um Cuscuz" (2007), esse mergulho ambicioso na comunidade franco-tunisina (a do próprio cineasta), que nos momentos mais conseguidos atingia um embate emocional do qual o novo filme nunca chega a aproximar-se. E também não tenta, nem sequer precisa muito. A praia de "MEKTOUB, MEU AMOR: CANTO PRIMEIRO" é claramente outra e, em compensação, nunca ameaça escorregar para o miserabilismo, mantendo-se imune a lugares comuns de algum realismo social enquanto opta pela faceta mais lúdica da entrada na idade adulta.

 

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O argumento, inspirado no livro "La Blessure, la Vraie", de François Bégaudeau (que também foi referência para "A Turma", de Laurent Cantet), não é particularmente denso mas Kechiche é mais uma vez muito bom a desenhar um microcosmos palpável, assim como a criar personagens e a deixar o espectador intrigado com as relações entre elas (dos graus de parentesco ao novelo acidentado de cumplicidades amorosas).

 

O protagonista, um estudante universitário com interesse pela fotografia e escrita de argumentos, parece em parte uma extensão do realizador, até porque é o olhar dele que conduz o filme. E é também a presença mais recatada de uma galeria que tem nas personagens femininas as mais estonteantes: sobretudo a de Ophélie Bau, figura voluptuosa e objecto de desejo tanto do protagonista como da câmara, através da qual Kechiche sublinha a sua ode à juventude e à beleza do corpo feminino.

 

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A insistência com que "MEKTOUB, MEU AMOR: CANTO PRIMEIRO" segue as actrizes de forma despudorada q.b. não tem deixado de gerar algumas acusações de misoginia, ainda que seja bem menos gratuita e ostensiva do que as sequências mais controversas de "A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2". E acaba por fazer sentido num olhar tão despretensioso e envolvente sobre as regras da atracção, ambientado num Verão quase idílico de 1994 - iluminado pela espontaneidade e curiosidade, pela união familiar, pela música e dança, por refeições sem tempo e horas, pelo sexo.

 

Apesar do optimismo face a títulos anteriores de Kechiche, o filme também vai dando conta, sobretudo nos últimos minutos, da ressaca emocional que se segue a uma rotina hedonista e ao (des)apego amoroso, entre a solidão do protagonista (mais um observador do que um participante) e as inquietações de algumas das suas companheiras de festa. Uma viragem que talvez se consolide na continuação, já garantida, e um terceiro capítulo também não está colocado de parte. Mas independentemente do que se seguir, "MEKTOUB, MEU AMOR: CANTO PRIMEIRO" vale por si - e vem juntar-se aos filmes mas valiosos do seu autor.

 

3,5/5

 

 

Há novas canções para o sol de Inverno

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Chama-se "Sémaphore", é o segundo álbum dos REQUIN CHAGRIN e também a primeira aposta da KMS Disques, a editora de Nicola Sirkis, vocalista dos Indochine. E vem confirmar as boas pistas do disco de estreia homónimo, editado em 2015 e um dos mais elogiados do indie rock francês dos últimos anos.

 

Projecto de Marion Brunetto, que começou como baterista antes de tentar criar canções para voz e guitarra, a aventura a solo acabou por adoptar um formato de banda (com mais três elementos) e o novo álbum retoma o cruzamento de dream pop, surf music e alguns acessos new wave. O resultado mantém também o francês como único idioma e tem uma produção tão directa e arejada como a estreia. Talvez até seja um alinhamento mais luminoso, sem deixar cair a melancolia, em parte pela produção de Adrien Pallot, colaborador de outros fenómenos de culto do novo pop-rock francês (dos FAUVE aos La Femme).

 

Entre as influências assumidas contam-se os Pixies ou as mais esquecidas Electrelane, mas também conterrâneos como os "padrinhos" Indochine (para quem a banda já fez primeiras partes de concertos) ou Étienne Daho. A nostalgia de verões da adolescência também tem algum peso em canções de sabor estival - embora não necessariamente hedonista -, e o mesmo pode dizer-se de algum cinema. O de Xavier Dolan, Gus Van Sant ou Larry Clark, por exemplo, parece ter eco no videoclip de "SÉMAPHORE", realizado pela vocalista com Simon Noizat, que vem dar mais luz e fulgor a um dos melhores momentos do disco - e é ideal para um primeiro mergulho nesta música fora de estação:

 

 

Um mambo de tipo electrónico

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Três anos depois de "Wanga", os THROES + THE SHINE começam a abrir caminho para o quarto álbum, "Enza", prometido para este semestre. E se no disco anterior Igor Domingues, Marco Castro e Mob Dedaldino já faziam viragens ao rockuduro, fusão (de rock e kuduro) que deu que falar nos primeiros dias da banda, no que aí vem parecem reforçar a aproximação à electrónica - sem deixarem cair o apelo físico da sua música.

 

É para esses lados, pelo menos, que aponta o primeiro single, "BALANÇA", que mesmo sem ser das canções mais explosivas do trio portuense faz jus ao nome com um embalo contagiante, entre ritmos que cruzam o tribal e o urbano e palavras de ordem a vincar uma linguagem reconhecível.

 

Além desta amostra inicial, sabe-se que "Enza" vai contar com colaborações de Mike El Nite, Selma Uamusse, Cachupa Psicadélica e dos mexicanos Sotomayor, tendo ainda o holandês Jori Collington a ajudar na produção. Já para o videoclip de "BALANÇA", o grupo chamou André Carrilho, que filmou uma actuação cruzada com ilustrações de Mantraste por Rui Clara Gomes, numa criação de Sebastião Faro (GOD The Creation Director). Mas mais do que ouvir o disco, o vídeo faz querer conhecer as novas canções em palco, ou não fosse esse um território que os THROES + THE SHINE têm sido capazes de incendiar como poucos:

 

 

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