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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Alice do outro lado do espelho

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Começou por cantar em frente ao espelho, durante uma infância com uma banda sonora entre os Rolling Stones que o pai ouvia e as canções de Vanessa Paradis que foi descobrindo. E aos poucos, Alice Vanor foi alargando horizontes até começar a criar o seu próprio universo: o de ALICE ET MOI, dominado por uma pop sedutora e luxuriante, sempre com o francês como idioma.

 

Depois de terminar a formação universitária em jornalismo, a parisiense decidiu arriscar num percurso musical a tempo inteiro em 2017, ao editar o EP de estreia "Filme Moi" numa colaboração com Jean-Baptiste Beurier - determinante para desenvolver a moldura electrónica da sua música. Não foi uma má aposta, ao gerar um fenómeno de culto que a destaca entre as promessas da nova pop local, com canções que tanto lembram a desenvoltura dos Yelle como a sofisticação dos Class Actress.

 

"Frénésie", EP editado este ano, alarga o espectro sonoro ao propor pontes com o hip-hop, o R&B ou o dub, sem perder a base sintética. E tem entre os melhores cartões de visita o single mais recente, "JE SUIS ALL ABOUT YOU", ideal para acompanhar cenários de ressaca como o do videoclip - cuja combinação de charme e decadência parece dever qualquer coisa ao cinema de Xavier Dolan ou Sofia Coppola:

 

 

Música de carrinhos de choque (para deitar o parque de diversões abaixo)

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Quase 20 anos depois do disco de estreia ("Love", 2002), os KAP BAMBINO não parecem querer abdicar do estatuto de arruaceiros sónicos. "Erase", o primeiro single de "Dust, Fierce, Forever", continuava a dar provas de uma dupla explosiva como poucas e a nova amostra do quinto álbum vem reforçar essa impressão.

 

"FOREVER" é mais um portento entre o electro e o trance, com a voz a disputar a euforia com os sintetizadores, novamente apontado às pistas de dança. Ou às pistas de carrinhos de choque, tendo em conta que o videoclip acompanha a vocalista num parque de diversões em realidade virtual. Um rastilho aliciante para um disco a ouvir a partir de 12 de Abril e ao longo da digressão dos franceses nos próximos meses (por enquanto, sem datas nacionais confirmadas):

 

 

Um lugar para viver

Até onde pode ir a especulação imobiliária? O cenário de "ROSIE - UMA FAMÍLIA SEM TETO" não será o mais optimista, mas o filme do irlandês Paddy Breathnach é sempre verosímil (e muitas vezes comovente) enquanto dá conta dos dramas de um casal da classe média baixa. 

 

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Não falta sentido de oportunidade ao novo filme de Paddy Breathnach, cuja obra raramente tem chegado às salas nacionais e costuma saltitar entre géneros. Em "ROSIE - UMA FAMÍLIA SEM TECTO", o irlandês aventura-se na escola do realismo britânico para um estudo de personagens que deriva, em grande parte, das tendências do mercado da habitação em várias metrópoles europeias nos últimos anos.

 

A acção decorre em Dublin, mas não seria impensável que pudesse ter Lisboa como palco. Seguindo 36 horas na vida da protagonista, do marido e dos seus quatro filhos, o filme leva o espectador a acompanhar a forma obstinada como esta família tenta encontrar uma nova casa, depois de ter sido forçada a abandonar a anterior pelo senhorio (após um aumento de renda incomportável).

 

Ancorado numa interpretação memorável de Sarah Greene, muito bem secundada por um elenco infantil com espaço para mostrar o que vale, "ROSIE - UMA FAMÍLIA SEM TETO" desenha um quotidiano tão conturbado como credível, em reajuste permanente, no qual a partilha e a solidariedade ajudam a manter uma luz ao fundo do túnel. Mas talvez já nem a esperança dure muito mais à medida que a situação precária vai acumulando imprevistos e obstáculos.

 

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Felizmente, Breathnach evita que o drama familiar se torne numa via sacra, mantendo um respeito e carinho óbvios pelas suas personagens, que nunca são reduzidas a símbolos. O miserabilismo de alguns olhares do realismo social não mora aqui, embora o retrato tenha, às vezes, outras limitações: o argumento (de Roddy Doyle, que escreveu "Os Commitments" e "A Carrinha") acaba por se revelar demasiado plano, sem um fulgor narrativo à altura da entrega dos actores, e a realização abusa, em algumas sequências, do recurso à câmara à mão para sublinhar (desnecessariamente) um sentido de urgência já bem palpável.

 

Mas se "ROSIE - UMA FAMÍLIA SEM TETO" não será candidato a marco do género em que se move, vai além da nota de intenções do filme-tema ao conseguir um relato sóbrio e íntimo, atento aos gestos e olhares, e que não se fica pela mera denúncia (ainda que não deixe de expor a situação dramática e exasperante de muitas famílias desalojadas de Dublin). E é um sucessor recomendável e igualmente atento do Ken Loach de "Eu, Daniel Blake" (que colocava o foco no desemprego) ou dos Dardenne de "Dois Dias, Uma Noite" (com o qual partilha uma estrutura narrativa de tentativas e erros e é, também como esse, centrado numa protagonista com uma tarefa hercúlea). Um pequeno filme a descobrir entre a avalanche de estreias indiferentes das últimas semanas.

 

3/5

 

 

O ritual do habitual ainda vai tendo surpresas

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Os RITUAL HOWLS não foram a primeira banda dos últimos anos a cruzar territórios pós-punk, industriais ou darkwave, nem sequer a mais inventiva nessa mistura. Mas o trio de Detroit tem sido dos mais prolíficos e coesos desde o EP de estreia, editado em 2012, ao qual sucederam mais quatro, num percurso que também já inclui três álbuns.

 

O quarto longa-duração, "Rendered Armor", chega esta sexta-feira e parece seguir os passos de "Their Body", EP de 2017, a julgar pelas canções reveladas nas últimas semanas. A voz de barítono de Paul Bancell não abdica de um negrume que continua a avivar memórias dos Joy Division ou dos Bauhaus, mas também da escola tão ou mais turva de Mark Lanegan, e o novelo instrumental continua a partir de referências igualmente familiares sem que o resultado seja anacrónico - como nomes mais recentes e comparáveis, dos Preoccupations a The Soft Moon, têm mostrado à sua maneira.

 

O imaginário de um certo interior norte-americano, com descendência de bandas sonoras de westerns, entre a atmosfera de baixo e sintetizadores carregados, leva a que alguns também descrevam esta música como uns Calexico góticos. À semelhança de outros, é um rótulo redutor, embora talvez possa funcionar como porta de entrada para esta discografia. De qualquer forma, nada como ouvir "Thought Talk", "Alone Together" (videoclip abaixo)e a mais recente "Devoured Decency" para tirar as dúvidas e abrir caminho para o novo álbum.

 

 

Miragens de um futuro com sombras do passado

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Ao longo de dois álbuns, os AUTOMELODI mostraram-se não só adeptos da synth-pop e da cold wave como se juntaram à lista dos que resgataram, com maior conhecimento de causa, algumas dessas heranças dos anos 80. Nem o álbum homónimo, de 2010, nem "Surlendemains Acides", editado em 2013, tentaram disfarçar muito quer a descendência da fase inicial dos Depeche Mode ou Human League quer a aproximação ao legado dos Indochine ou Étienne Daho (com o francês enquanto idioma dominante das letras).

 

O terceiro capítulo do projecto de Xavier Paradis, que agora também conta com o guitarrista Dillon Steele, promete aprimorar essa linguagem enquanto reforça o electrónico com o eléctrico, conforme avança a editora canadiana Holodeck Records. De "Mirages au futur verre-brisé", agendado para 6 de Maio, já tinham sido divulgadas as óptimas "La Poussière" e "Toujours de jamais (hors-temps)", que confirmaram essa intenção em canções tão dançáveis como soturnas, ao nível do melhor da dupla de Montreal.

 

"LES MÉTROS DISPARUS", o novo single, mantém o entusiasmo em torno do regresso entre um ritmo metronómico e uma atmosfera enigmática. E conta com uma convidada especial, Liz Wendelbo, vocalista dos Xeno & Oaklander, outro nome que tem sabido retomar a vertente mais sintética e densa da pop de há três décadas - e que também está de volta com um novo álbum, "Hypnos", editado há poucos dias.

 

As digressões das duas bandas vão, aliás, cruzar-se em algumas datas - como a de 25 de Maio, noite na qual partilham um palco em Paris. Por agora, vale a pena espreitar o encontro no novo videoclip dos AUTOMELODI, realizado por Kaspar’89 e cuja inspiração vai da estética VHS a realidades distópicas... sem esquecer, lá está, o lado mais surreal dos anos 80:

 

 

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