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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Não há nada mais penoso do que uma boa história mal contada

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Nota: texto com spoilers de "A Guerra dos Tronos" (T8E6)

 

Desilusão televisiva do ano? Ainda é cedo para dizer, mas o final de "A GUERRA DOS TRONOS" está certamente muito bem colocado na lista de fenómenos mais amargos. Se a oitava e última temporada já estava a ser, de longe, a mais frustrante da série da HBO, o sexto e derradeiro episódio tratou de confirmar as piores expectativas. E com a desvantagem de tornar mais frágil parte dos acontecimentos que ficaram para trás.

 

"The Iron Throne" deixa a sensação de que muitas teorias dos fãs teriam sido francamente preferíveis ao desfecho servido por David Benioff & D. B. Weiss. Se a "evolução" abrupta de Daenerys Targaryen nos capítulos mais recentes já era controversa, a Mãe dos Dragões tornou-se mais ainda mais irreconhecível num casamento forçado entre tirania e ingenuidade (tão forçado como a sua relação com Jon Snow), acabando por ser despachada de forma particularmente fácil e ridícula - e numa sequência que só sublinha a falta de química e as limitações interpretativas do casal. Mas essa nem foi a solução mais insultuosa de um episódio carregado delas, da tomada de consciência de Drogon (rir para não chorar?) à cimeira que anulou o bom senso de quase todas as personagens para que Tyrion Lannister passasse por iluminado.

 

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"Não há nada no mundo mais poderoso do que uma boa história" até poderia ficar como uma boa frase de despedida se a história em causa não fosse a de Bran Stark, uma das mais problemáticas da saga e com as maiores conveniências de argumento (a abrir a porta ao esoterismo e a visões como muletas narrativas sempre que possível, entre caminhos sub-Harry Potter que não levaram a lado nenhum). É uma escolha ingrata para outras personagens (Sansa ou Gendry) e sobretudo para a inteligência do espectador, a quem se pede para aceitar que tudo o que acabou por acontecer já estava nos planos do jovem Stark (incluindo cenários de carnificina que poderiam ter sido facilmente evitados).

 

A "eloquência" de Tyrion também parece ter sido suficiente para convencer Jon Snow a reconsiderar toda a devoção à sua rainha, tornando o suposto herói messiânico numa mera marioneta dos argumentistas. Se era para isto, para quê ressuscitá-lo a meio da saga, sobretudo com tanto protagonismo (e com segredos de família inconsequentes pelo meio) quando não faltavam figuras infinitamente mais interessantes? Os arcos de Theon Greyjoy, Brienne of Tarth ou Jaime Lannister, dos mais apressados desta temporada, bem poderiam ter beneficiado com parte desse tempo de antena.

 

Também não há nenhum motivo razoável para Tyrion e Jon terem chegado ao fim desta história quando Verme Cinzento, os restantes Imaculados e os Dothraki já tinham mostrado não fazer prisioneiros. E aqui voltou a notar-se a falta de arrojo de uma temporada que, à excepção de "Dany", poupou a vida a todas as personagens principais - o que até nem seria uma limitação se tivesse ocorrido de forma verosímil.

 

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Um episódio que já ia longo pareceu interminável quando, vá-se lá saber porquê, alguém achou que o dia-a-dia da nova ordem de Westeros seria interessante de acompanhar. Talvez até pudesse ser, mas a opção encontrada para a reunião de Tyron, Ser Davos, Sam Tarly, Bronn e Brienne (onde ficou a jura de fidelidade a Sansa, já agora?) foi um registo de (má) sitcom com um tom a milhas dos minutos iniciais, mais próximo de um amontoado de bloopers para extras de um DVD.

 

Salvou-se, enfim, a montagem final com Arya, Sansa e Jon, que pelo menos deu às irmãs Stark um final digno e condizente com o seu percurso. Mas é pouco, muito pouco, e não chega para os mínimos exigíveis de quem acompanhou esta saga durante quase dez anos. Depois de tantos grandes momentos, mesmo com subenredos dispensáveis ao longo de oito temporadas (a oportunidade desperdiçada de Dorne, a travessia interminável de Bran), e de um culto que ascendeu a fenómeno global e inescapável, elevando histórias de fantasia a outro patamar de popularidade e respeito, é uma pena que "A GUERRA DOS TRONOS" não vá deixar saudades no final...

 

 

Balança o pé (e a perna, o braço ou o que estiver à mão)

Com um dos álbuns nacionais mais frescos da temporada na bagagem, os THROES + THE SHINE levaram novas e antigas canções ao B. Leza, em Lisboa, na passada quinta-feira. E confirmaram o que "Enza" já sugeria: há por aqui mais vida além do rockuduro através do qual se distinguiram.

 

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Sete anos depois de se terem feito notar ao cunharem o híbrido de rock e kuduro no registo de estreia, "Rockuduro" (o título não engana), os THROES + THE SHINE podem orgulhar-se de contar com uma das discografias mais prolíficas e consistentes surgidas por cá esta década. E se "Mambos de Outros Tipos" (2014), o álbum sucessor, ameaçava cristalizar uma fórmula personalizada como poucas, o mais electrónico "Wanga" (2016) abdicou de parte da crueza inicial numa viragem que "Enza" veio agora consolidar.

 

O trio luso-angolano explora mundos cada vez mais vastos e tem juntado regularmente outras vozes à sua, tanto em disco como nos palcos, e a nova fase não é excepção. A apresentação da colheita recente ao vivo deixou claro que o rótulo de rockuduro, sendo apropriado para algumas canções, é no geral limitador (2012 ficou lá atrás), com os convidados da noite a reforçarem a curiosidade evidente por outros territórios.

 

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Carlos Sousa Vieira/SAPO Mag

 

O arranque, no entanto, mostrou a banda entregue a si própria, e tão segura como se esperaria. Depois da saída de Diron Animal, um dos fundadores do grupo, em 2017, Mob Dedaldino parece estar cada vez mais à vontade como mestre de cerimónias, além de ter tido um papel mais activo na criação dos novos temas. O angolano mostrou-se incansável na tarefa de espicaçar um público inicialmente contido, longe da euforia imediata de outros concertos dos THROES + THE SHINE. Desta vez, os espectadores deram algum trabalho ao vocalista, mas não foi um esforço inglório: o crescendo de entrega e intensidade foi bonito de ver, e Mob acabou por ter todos a seus pés - até literalmente, quando apelou a que o públicose baixasse mais de uma vez para saltar ao seu aviso. O desafio foi aceite, tal como os muitos convites a braços no ar guiados pelos seus movimentos.

 

 

Igor Gomes, na bateria, e Marco Castro, na guitarra, teclados e programações, não reclamaram tanto protagonismo mas nem por isso deixaram de ajudar à festa, comprovando que este continua a ser um power trio de uma coesão inatacável. Os cúmplices de palco da noite não foram menos vibrantes: Da Chick entrou em cena na recuperação de "Keep It In", tema de "Wanga" na qual colabora; Mike El Nite sublinhou a aproximação ao hip-hop da recente "Musseque"; Cachupa Psicadélica deu voz ao mantra cósmico de "Solar", outra novidade; e o holandês Jori Collington, produtor de "Enza" (e metade dos Skip & Die) foi um elemento decisivo numa recta final mais sintética.

 

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A abertura, tal como no novo disco, ficou por conta de "ADN", canção que faz a ponte com os THROES + THE SHINE dos álbuns anteriores - tal como "Balança", o single de avanço, cujas reacções efusivas ao vivo pareceram atirá-lo para a lista de clássicos instantâneos. Mas as maiores surpresas vieram de canções como "Paraíso", cuja versão gravada convida os mexicanos Sotomayor e retoma a aventura latina de "Guerreros", que foi revisitada no concerto e deixou um dos episódios mais estrondosos.

 

Num raro desvio melancólico q.b., "Silver & Gold" confirmou ser um dos pontos altos de "Enza", e dos menos interessados no frenesim rítmico. Revelou antes que o trio também sabe explorar um R&B contemplativo e melódico, sem se tornar genérico, e já a milhas do rock ou do kuduro dos primeiros tempos. Noutro comprimento de onda, "Prayer" propõs uma incursão disco/funk igualmente bem sucedida, com um embalo contagiante a meio caminho entre a herança de James Brown e um Bruno Mars em fase de inspiração. E não ficou aquém do efeito de portentos como "Tá a Bater" ou "Hoje É Festa", que é o melhor que se pode dizer de uma canção nova.

 

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Carlos Sousa Vieira/SAPO Mag

 

O kuduro marcou, ainda assim, um dos picos de adrenalina do final do concerto, através de uma releitura de "Felicidade", de Sebem, quando a banda já tinha praticamente todo o público na mão e Mob passava tantos momentos em palco como fora dele, a dançar com os espectadores antes de convidar alguns a subir para a despedida na frenética e irresistível "Ndele" - já com poucas ou nenhumas lembranças de um arranque morno. "Todos nós sentimos a felicidade", cantou o aplicadíssimo mestre de cerimónias nos minutos finais. E ao longo desta hora e pouco, ninguém pareceu ter discordado.

 

4/5

 

 

O tempo que resta

Depois de uma série de filmes frustrantes, o regresso à forma: "AGRADAR, AMAR E CORRER DEPRESSA" é a melhor obra de Christophe Honoré em mais de dez anos e uma das estreias de 2019 a não deixar passar.

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Estava difícil voltar a acreditar no realizador de "Em Paris" (2006) ou "As Canções de Amor" (2007), um dos nomes mais promissores do cinema francês no início do milénio cujo percurso se foi tornando decepcionante, filme após filme - títulos como "Homme au bain" (2010), "Os Bem-Amados" (2011) ou "Os Desastres de Sofia" (2016) deixaram poucas saudades e ficaram muito abaixo da desenvoltura e graça dos primeiros tempos.

Mas "AGRADAR, AMAR E CORRER DEPRESSA" vem mostrar, finalmente, que ainda vale a pena estar atento a Christophe Honoré, naquela que é a sua obra mais conseguida desde a já distante "A Bela Junie" (2008). E é também das mais maduras e melancólicas, sem deixar de lado a energia jovial que fez dele um autor em ascensão.

Parcialmente autobiográfico, este drama ambientado no início dos anos 90 vai acompanhando o dia-a-dia e a relação que nasce entre um estudante universitário (Vincent Lacoste, perspicaz e de olhar curioso) e um escritor seropositivo prestes a entrar na casa dos 40 (Pierre Deladonchamps, de "O Desconhecido do Lago", tão vulnerável como arrogante), com Honoré a desenhar os seus (des)encontros sem limitar o resultado a mais uma história boy meets boy (ou man) ou ao enésimo relato de uma vida atormentada pelo vírus do VIH.

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É verdade que há por aqui dinâmicas e cenários já vistos em vários filmes LGBTQ, mas "AGRADAR, AMAR E CORRER DEPRESSA" sai-se muito bem em tornar este retrato singular, tanto nos aspectos mais gerais (o ambiente de época que vai moldando de forma convincente, das ruas de Paris às paisagens bretãs) como pessoais (ao dar conta das muitas facetas e relações dos protagonistas, nunca reduzindo a sua jornada ao lado amoroso e sexual, enquanto também apresenta personagens secundárias de corpo inteiro).

Numa dança constante entre a possibilidade do amor e a certeza da morte, Honoré vai conjugando esperança e cinismo, sentido de humor e ansiedade, num retrato que tem tanto de aventura iniciática (nas experiências do estudante) como de último delírio (no quotidiano turvo do escritor). E se às vezes a narrativa parece escorregar para um fatalismo prestes a consumir tudo, com uma solenidade reforçada pela banda sonora e fotografia, acaba sempre por surgir uma cena que injecta um momento de descompressão.

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Alguns desses balões de oxigénio parecem descendentes de uma das sequências de antologia de "Em Paris", com Romain Duris na cama ao som de Kim Wilde: é o caso do que junta o casal protagonista e um amigo (óptimo Denis Podalydès, na personagem mais empática do filme) também em cenário caseiro e com mais música à mistura (como noutros filmes de Honoré, as canções não são mero detalhe e aqui vão de "Pump Up the Volume", clássico de M|A|R|R|S, aos Ride, Cocteau Twins ou Massive Attack).

Arriscando ir além das duas horas, "AGRADAR, AMAR E CORRER DEPRESSA" não será o filme mais hábil a separar o essencial do acessório, com algumas cenas mais longas do que talvez precisassem e, sobretudo, demasiado palavrosas (e até algo pretensiosas na sua demonstração de erudição). Mas essas limitações são pormenores que não impedem de encontrar aqui o regresso à forma de Honoré, num drama muito menos auto-indulgente do que o habitual na sua filmografia nos últimos anos, que até acaba por ser uma proposta mais estimulante do que outros filmes LGBTQ recentes mais celebrados e comparáveis (de "Chama-me Pelo Teu Nome" a "120 Batimentos por Minuto"). À suivre, portanto...

3,5/5

Uma linguagem a (re)descobrir

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"It Comes", o álbum de estreia dos NOVA MATERIA, contou-se entre as boas revelações do ano passado - e o concerto em Lisboa, no Musicbox, terá sido um dos melhores que (quase) ninguém viu.

Com viagens do pós-punk a heranças da música tradicional sul-americana, passando pelo krautrock ou EBM, é um disco que continua a valer e (re)descoberta e tem mais uma chamada de atenção: "SPEAK IN TONGUES", o novo single, que chega quando a dupla de Caroline Chaspoul e Eduardo Henriquez (ex-elementos dos Panico) se prepara para arrancar a digressão francesa.

O tema não anda longe do dance-punk (em modo sinuoso) de apostas da editora DFA, num ambiente tenso, percussivo e dançável cujo videoclip reforça o lado performativo do projecto franco-chileno - enquanto também revela alguns dos materiais pouco comuns utilizados na sua música, um dos seus principais factores distintivos: