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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma dança entre o realismo britânico e os subúrbios franceses

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A música dos SCRATCH MASSIVE sempre teve uma costela cinematográfica e o quarto álbum, "Garden of Love" (editado no ano passado), não veio mudar muito as coisas. Mas se no disco anterior, "Nuit de rêve" (2011), os ambientes sombrios de John Carpenter (tanto dos filmes como das bandas sonoras) estavam entre as inspirações óbvias, a colheita recente aposta num tom mais etéreo do que sinistro.

 

O novo single, "DANCER IN THE DARK", é um dos temas em que a ligação à sétima arte continua. O título foi repescado de um filme de Lars von Trier, o videoclip aproxima-se mais de outros nomes do cinema europeu: os de Andrea Arnold e Ken Loach, por exemplo, pontos de partida para um olhar  que recorre a traços do realismo britânico para acompanhar uma adolescente surda-muda dos arredores de Paris.

 

Tristan Feres, o realizador, tinha convidado a dupla francesa para a banda sonora de uma média-metragem, mas a colaboração acabou por ter uma nova fase através de material que sobrou das filmagens, retrabalhado para um outro relato em forma de videoclip. O resultado volta a confirmar a pontaria do projecto de Maud Geffray e Sébastien Chenut para casamentos entre música e imagem, com uma pop electrónica enigmática a forrar episódios do tédio ou adrenalina suburbanos:

 

 

Há uma luz que nunca se acende

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Nota: texto com spoilers ligeiros de "A Guerra dos Tronos" (T8E3)

 

O melhor de "A GUERRA DOS TRONOS" nunca foi o lado sobrenatural. Para quem não vê a série, a presença dos dragões pode parecer um elemento dominante, e geralmente tende a afastar quem não simpatiza com aventuras fantásticas. Mas os que entraram no universo destes Sete Reinos saberão que essas e outras criaturas são muitas vezes mero fogo de vista, e com um papel que raramente se sobrepõe a conflitos que não se resolvem no campo de batalha.

 

Uma das particularidades da saga de George R. R. Martin é mesmo a de encontrar espaços ambíguos num jogo de forças entre o Bem e o Mal, através de personagens multifacetadas e contraditórias. O que não impede que a polarização moral tenha dominado a fase mais recente da história (a da versão televisiva, pelo menos), com a resistência de Winterfell à marcha mortal dos White Walkers, o que levou muitos antagonistas de outros tempos a colocarem as suas diferenças de lado para enfrentarem uma ameaça comum.

 

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Se esta união de quase todas as personagens conduziu a uma sucessão de (re)encontros nos primeiros episódios da oitava temporada, o terceiro era especialmente aguardado desde há muito, e a própria HBO não poupou na antecipação de um marco no pequeno e grande ecrã. Mas embora assinale um momento decisivo na narrativa, "The Long Night" não se revela tão impressionante nem memorável como outros capítulos-chave de "A GUERRA DOS TRONOS". E alguns deles até partilharam o realizador deste, Miguel Sapochnik, que se mostrou muito inspirado nos combates épicos de "Hardhome" e sobretudo de "Battle of the Bastards".

 

O britânico não deixou de ser inventivo nas sequências de batalha, e até serve uma de antologia logo ao início do episódio, quando centenas de soldados literalmente iluminados por Melisandre são consumidos pela escuridão do exército do Night King. Infelizmente, o que se segue raramente atinge uma tensão equivalente ao deixar o espectador à deriva em demasiados momentos. E torna-se difícil reduzir as críticas à montagem acelerada e principalmente à direcção de fotografia (e ao tipo de iluminação ou falta dela) a mera má vontade de meia dúzia de fãs nas redes sociais. Sim, a acção é confusa, para não dizer atabalhoada, em particular quando se concentra no colectivo em vez do individual, e nem algumas cenas mais desenvoltas (como a perseguição a Arya Stark na biblioteca) chegam para que o resultado se aproxime de outros picos da saga no campo de batalha.

 

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Sapochnik continua a ter boas ideias, e o recurso ao silêncio ou à música em vez de uma aposta a fundo nos diálogos está entre as melhores. Mas por cada momento habilidoso há dois ou três esbatidos, redundantes e frustrantes, às quais o argumento também não será alheio. Uma Melisandre vinda de nenhures, e com feitiços e profecias demasiado convenientes, ainda se aceita. Um Night King que é simultaneamente a maior ameaça e o vilão mais unidimensional da saga também ainda passa, pela atmosfera com potencial dramático que ajuda a moldar. Já a forma como acaba por ser derrotado está mais próxima de má fanfiction do que de um remate à altura de muito do que ficou para trás, e consegue ultrapassar o ridículo da forma como Theon Greyjoy é despachado (naquela que é a resolução mais previsível para o seu arco, e exectuada do modo mais mecânico).

 

O tão prometido adeus a algumas personagens é, aliás, bastante mais contido do que o que se esperaria numa saga que não temeu despedir-se tantas vezes de figuras centrais. Nem é preciso chegar a meio do episódio para desconfiar que a sobrevivência de boa parte dos protagonistas nunca a chega a ser realmente comprometida, em alguns casos de forma inacreditável (Sam Tarly, a personagem mais sortuda da série?). E assim "The Long Night" nunca consegue ir muito além de uma narrativa de cerco demasiado próxima de muitos filmes de zombies, apesar das diferenças óbvias de contexto e das variações de tom que Sapochnik vai tentando injectar ao longo de 80 minutos de nível desigual. Depois da desilusão desta noite dos mortos-vivos, espera-se que Cersei Lannister seja uma bruxa má capaz de dar mais luta...

 

 

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