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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Quando o gótico e o pós-punk batem à porta

O ano é 2019, mas para a MARK LANEGAN BAND podia ser 1989 (ou mais para trás). Ao apresentar o novo álbum, "Somebody's Knocking", o veterano de Seattle e o seu grupo revisitaram heranças góticas e pós-punk num Lisboa Ao Vivo concorrido - e urbano-depressivo q.b. - esta quarta-feira.

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Dono de uma discografia que não tem perdido o fôlego desde os tempos dos Screaming Trees, em meados dos anos 80, é curioso ver que MARK LANEGAN tem regressado, nos últimos registos, a sonoridades associadas a essa década - mesmo que não sejam as que o próprio abraçou na altura. Se a solo ou ao lado dos Queens of the Stone Age ou Gutter Twins, entre muitos outros, o cantautor com voz tão rugosa quanto inconfundível fez escola no rock alternativo ou numa folk de traços negros, na fase mais recente tem dado eco a um interesse acrescido pela new wave ou darkwave, não deixando de lado as guitarras mas optando cada vez mais pelos sintetizadores.

"Somebody's Knocking", o 11º. álbum, editado há poucos dias, é a prova mais recente disso mesmo, confirmando as insinuações de "Blues Funeral" (2012) e os desenvolvimentos de "Phantom Radio" (2014) e sobretudo de "Gargoyle" (2017), este já bem claro ao apontar inspirações directas na obra de uns Joy Division, New Order ou Sisters of Mercy.

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À lista de heróis de uns anos 80 pintados a negro também poderiam juntar-se os Bauhaus, banda relembrada na t-shirt que a teclista da MARK LANEGAN BAND trouxe ao concerto lisboeta - no âmbito de uma digressão europeia que também inclui uma passagem pelo Hard Club, no Porto, esta quinta-feira. O preto foi, aliás, a cor que dominou a indumentária dos seis elementos do grupo (já contando com o mentor), o que fez sentido numa actuação que tanto acolheu público da "imensa minoria" dos anos 80 e 90 - alguns eventualmente alinhados com a "tribo" urbano-depressiva - como tantos ou mais espectadores que ainda nem estariam por cá nesses tempos. Apesar do estatuto de veterania do mestre de cerimónias, os fãs estão longe de ser todos old school, portanto.

É provável que as canções de LANEGAN continuem a aglomerar mais interessados, tendo em conta a consistência revelada quer nos discos quer nos palcos. Embora parte de "Somebody's Knocking" soe derivativo, a voz de barítono do norte-americano ajuda a conferir personalidade e autoridade a cruzamentos de electrónica e guitarra (ou baixo à Peter Hook aqui e ali) que foram pioneiros há já algumas décadas. E ao vivo funcionam particularmente bem, apesar de um arranque morno antes de um crescendo de nervo e intensidade através de momentos como "Stitch It Up" ou "Night Flight to Kabul", dois dos singles do disco e também dos temas mais orelhudos de LANEGAN.

A actuação intercalou episódios propulsivos, como esses, e a implosão repescada de álbuns anteriores através de "Sister", "Deepest Shade" (versão dos Twilight Singers) ou o belíssimo monumento blues "Bleeding Muddy Water", aqui com a voz a poder respirar - num contraste com a muralha sonora (ocasionalmente baça) das canções novas.

Ao longo de quase duas horas, o alinhamento privilegiou "Somebody's Knocking" mas também deu espaço considerável aos antecessores mais próximos. "Hit the City", colaboração com PJ Harvey, substituída ao vivo pela teclista, foi dos primeiros episódios mais aplaudidos, embora muito por culpa do protagonismo que o guitarrista acabou por ganhar no final - e que se repetiria noutros dos maiores momentos de comunhão entre banda e público. Mais comedidos, os restantes músicos mostraram-se, ainda assim, visivelmente entusiasmados por ser apresentarem perante uma sala repleta. LANEGAN não foi além dos habituais agradecimentos, mas em compensação ofereceu mais de 20 canções, com destaque para a perfeição pop de "Ode to Sad Disco", entre electrónica planante e melancólica, ou a mais intimista e sussurrada "Come To Me", que deu arranque ao encore com a teclista a substituir, mais uma vez, PJ Harvey noutro duo ele & ela. 

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Alimentadas a sintetizadores, as novas "Penthouse High" e "Dark Disco Jag" dispararam luz e sombra, respectivamente: a primeira quase mais Coldplay (!) do que New Order (viragem que, apesar de tudo, funcionou), a segunda a desenhar uma nuvem gótica com convicção. Mais acelerada, e mais alicerçada nas guitarras, "Name and Number" deixou outro motivo para que se dê atenção a "Somebody's Knocking", mesmo que o capítulo pós-punk da obra de MARK LANEGAN já vá acusando algum esgotamento - bem disfarçado, é certo, e numa noite destas com exemplos mais empolgantes do que redundantes.

3,5/5

Black magic woman

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Quase quinze anos depois da edição de "Silent Alarm" (2005), já há distância temporal mais do que suficiente para assegurar que o maior contributo da discografia dos Bloc Party foi mesmo o registo de estreia. E se os últimos álbuns dos britânicos são particularmente esquecíveis, há uma luz que ainda não se apagou no caminho a solo de KELE Okereke, vocalista mais aventureiro em nome próprio do que ao lado da banda.

"The Boxer" (2010), "Trick" (2014) e sobretudo "Fatherland" (2017) podem não ser discos imprescindíveis, mas até os episódios menos vitais revelaram um desejo de experimentação louvável, que promete manter-se no próximo passo. "2042", o quarto álbum, chega a 8 de Novembro e dele já eram conhecidos "Jungle Bunny" e "Between Me and My Maker", ambos com a guitarra como motor e debruçados sobre tensões raciais e questões espirituais, respectivamente - temas que prometem dominar um alinhamento que aposta no multiculturalismo como resposta a um contexto político "assustador".

O novo single, no entanto, tira algum peso dos ombros na canção mais descontraída de KELE em muito tempo, com ritmo sincopado e contagiante, entre o dub e a new wave, enquanto deixa uma ode às mulheres negras de Londres. "A mulher negra é a figura mais incompreendida da sociedade de hoje e quis fazer algo que celebrasse a sua inteligência, sensualidade e magia", explicou à The FADER a propósito de "GUAVA RUBICON".

O cantor cede, por isso, o protagonismo a um casal de mulheres negras no videoclip, um retrato amoroso optimista. "Infelizmente esta é uma dinâmica que raramente vejo representada na cultura popular, por isso quis representá-la o melhor que pude", diz sobre o olhar urbano, intimista e despretensioso assinado por Lee Holmes:

"Mete dança, tudo fica bem"

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Bastou o álbum de estreia, "Galanga Livre" (2017), para que RINCON SAPIÊNCIA se tornasse num dos maiores embaixadores do rap brasileiro recente, com um percurso que o tem levado a muitos palcos dentro e fora de portas - incluindo portugueses, ao ter passado este Verão pelos do Musicbox Lisboa e Festival Músicas do Mundo.

Ao lado dessa crescente experiência ao vivo, o paulista foi somando colaborações, editou alguns inéditos e prepara-se agora para o segundo longa-duração. "Mundo Manicongo: dramas, danças e afroreps" chega já em Novembro, tinha sido apresentado há meses pelo single "Mundo Manicongo" e conta entretanto com mais uma amostra.

Se a música de RINCON SAPIÊNCIA via no hip-hop um ponto de partida para um cruzamento de samba, rock, R&B ou electrónica, "MEU RITMO" leva mais longe o contacto com influência africanas, tanto na letra como na sonoridade (com destaque para um sample de Famoudou Konatè, baterista e percussionista guineense).

"Essa aqui é mais uma pra gente entender como o nosso lugar e o continente africano não é tão longe, certo?", pergunta o MC ao início. O contágio cultural também salta para o videoclip, que junta tradição e futurismo numa festa improvisada dentro de uma loja de conveniência - ao ritmo de uma batida entre o tribal e o trap. E quando é assim, "não tem problema nenhum se seu corpo balançar":

O novo dia (e noite) de uma história com muitas canções

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Continua a ser difícil não associar imediatamente ALEX BEAUPAIN a "As Canções de Amor" (2007), filme de Christophe Honoré que assenta na banda sonora criada pelo cantautor francês. Mas por muito que esse registo continue a ser a grande referência, foi apenas um dos primeiros capítulos de uma discografia que já vai longa - e que se tem mantido entre a música para filmes (de Honoré e não só) e uma obra que soma vários álbuns de estúdio.

"PAS PLUS LE JOUR QUE LA NUIT", o sexto longa-duração (não contando com as aventuras cinematográficas), é mais um caso meritório de uma pop sóbria e eloquente, ancorada em relatos de um cantor que também é um diseur, à semelhança de muitos dos nomes que admira - de Jacques Brel a Serge Gainsbourg, passando por Étienne Daho.

Embora BEAUPAIN tenha recrutado novos cúmplices - com Superpoze e Sage, ambos associados à música de dança, a destacarem-se na produção -, o resultado é tão outonal e melancólico como até aqui. E mais uma vez apoiado numa escrita muitas vezes auto-biográfica, mesmo que às vezes teste outras inspirações (como "Orlando", que parte do atentado numa discoteca LGBT na Flórida, em 2016).

Num alinhamento nem sempre imediato (mas que vai encorajando regressos), uma das melhores portas de entrada é a faixa-título, não por acaso o novo single - e dos poucos momentos com um dinamismo rítmico acentuado. O videoclip vem assinado por Xavier Legrand, realizador de "Custódia Partilhada":

Vingança sem rosto num clássico com nova cara

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Precisávamos de mais uma adaptação de "WATCHMEN"? Depois do filme de Zack Snyder e de um motion comic, que já tinham levado ao grande e pequeno ecrã, respectivamente, o clássico da BD de Alan Moore, Dave Gibbons e John Higgins, a resposta tendia a ser negativa. Mas felizmente a nova série da HBO não se limita a ser mais do mesmo noutro formato.

A proposta de Damon Lindelof (um dos criadores de "Perdidos" e "The Leftovers") opta antes por arriscar uma continuação dos eventos da novela gráfica dos anos 80 e do filme de 2009, com a acção a decorrer 30 anos depois. E o primeiro episódio mostra uma história mais interessada num (intrigante) mundo novo do que no decalque de uma matriz já bem conhecida.

Se nos comics o ambiente de Guerra Fria era indissociável de uma saga que mudaria as regras das aventuras de super-heróis, com uma crueza e niilismo atípicos no género, desta vez são as tensões raciais que dominam os acontecimentos. Ou que funcionam, pelo menos, como alavanca de uma série ambientada em Tulsa, entre os massacres (verídicos) da comunidade negra de 1921 e uma realidade alternativa dos dias de hoje - na qual Robert Redford é o presidente norte-americano (!), a a evolução tecnológica foi bem mais comedida e os polícias são os novos vigilantes mascarados.

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Lindelof mantém-se fiel à ambiguidade moral e ao clima de paranóia de Moore mas não teme avançar para o seu próprio território, com uma ousadia que tem faltado a muitas novas versões de sagas icónicas. O que não o impede, ainda assim, de ir deixando várias referências aos eventos e linguagem da novela gráfica, sem que se fique refém delas.

Com a ameaça dos supremacistas brancos a dominar a narrativa, a série não é imune aos avanços da extrema-direita que se têm visto fora do ecrã, e a forma como vai abordá-los ao longo dos nove episódios da primeira temporada pode ser o seu maior trunfo ou o que deitará tudo a perder. Por enquanto, é francamente aliciante, mérito de uma coesão em todas as frentes.

Regina King, na pele de uma mulher que acumula o papel de mãe com o de vigilante, é uma grande escolha para uma protagonista complexa e carismática. Don Johnson, Tim Blake Nelson e um surpreendente Jeremy Irons ajudam a compor um elenco à altura. E Nicole Kassell ("O Condenado", "The Killing"), realizadora do primeiro episódio, sai-se muito bem a desenhar uma identidade visual que, não estando muito longe nem da novela gráfica nem do filme, propõe uma carga de novidade condizente com a premissa da série - e tem olho tanto para os momentos mais intimistas como para as poucas mas certeiras sequências de acção (o tiroteio numa quinta repleta de vacas é qualquer coisa).

Cereja em cima do bolo, a banda sonora de Trent Reznor e Atticus Ross consolida esta dream team improvável, com ecos directos do percurso dos Nine Inch Nails - perfeitamente adequados a uma trama distópica e desnorteante q.b.. Quem vigia os vigilantes? Se o que se segue mantiver este nível, espera-se que muita gente...

"WATCHMEN" estreou a 21 de Outubro na HBO Portugal. Os próximos episódios estreiam às segundas-feiras.

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