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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Homens à beira de um ataque de nervos

Uma crise de meia-idade, um mergulho na culpa e um relato amoroso, todos no masculino e filmados por três veteranos que estão de volta este ano: Pedro Almodóvar, Marco Bellocchio e Woody Allen. O resultado é "DOR E GLÓRIA", "O TRAIDOR" e "UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE", respectivamente.

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"DOR E GLÓRIA", de Pedro Almodóvar: É estranho ver este drama ser tão louvado por vincar um suposto renascimento das carreiras do autor de "Tudo Sobre a Minha Mãe" e de Antonio Banderas. A última colaboração da dupla, em "A Pele Onde Eu Vivo" (2011), não só não tinha sido assim há tanto tempo como havia resultado numa obra que ia bastante mais longe no mergulho no trauma e noutros abismos emocionais. E sente-se falta de alguma dessa aspereza num filme que é, às vezes, mais interessante pelos paralelos entre o percurso do protagonista (um realizador veterano solitário e depressivo) e o de Almodóvar, numa espécie de autobiografia não oficial, do que pela(s) história(s) que conta.

Há várias sequências fortes, entre confrontos profissionais, amorosos e familiares, e a direcção artística é das mais esmeradas e facilmente reconhecíveis do cineasta espanhol - com destaque para um apartamento luxuoso, onde decorre a acção no presente, e uma cave transformada num lar, nas cenas que recuam à infância. Mas também há uma facilidade nem sempre muito credível (e até inesperadamente ligeira) na superação dos conflitos - da crise de inspiração ao mergulho nas drogas -,  que deixa o todo aquém da urgência de um testemunho como "Má Educação", talvez o filme de Almodóvar cujo argumento mais se aproxima deste olhar sobre (des)encontros no masculino.

De resto, sim, Antonio Banderas é convincente e comovente enquanto personagem-espelho do realizador (acabou premiado como Melhor Actor em Cannes) e Penélope Cruz volta a dar-se bem na nova colaboração com alguém que sabe sempre tirar o melhor dela (mesmo que aqui não acrescente muito a parceiras anteriores). Um reencontro a saudar, é certo, mas distante de uma epifania.

3/5

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"O TRAIDOR", de Marco Bellocchio: Um dos melhores biopics do ano (senão mesmo o melhor, merecidamente nomeado para a Palma de Ouro em Cannes) é também uma prova de que ainda é possível fugir aos estereótipos do "filme da máfia". E o retratado, Tommaso Buscetta, merece figurar entre os anti-heróis (ou vilões?) mais fascinantes dos últimos tempos, já que Bellocchio nunca olha de cima para o criminoso tornado informador numa denúncia histórica que atingiu, como poucas, a Cosa Nostra (a máfia siciliana).

Ao longo de quase duas horas e meia, esta combinação de drama e thriller recusa uma narrativa polida e formatada,  percorrendo vários anos da vida do protagonista e recompensando a atenção do espectador (sem se preocupar com uma insistência de explicações de contexto). Implacável na radiografia de um sistema corrupto, o realizador veterano viaja aqui entre a sua Itália natal, o Brasil e os EUA com uma fluidez que só não se mantém em duas ou três das muitas cenas de tribunal - cuja atmosfera de selva civilizacional, tão trágica como cómica, está entre as maiores singularidades do filme mas poderia sair reforçada com alguma economia narrativa. Em compensação, não faltam sequências de recorte superior, sobretudo momentos estratégicos de suspense e acção que mostram o octogenário num pico de forma - caso de uma cena de chantagem num helicóptero e, sobretudo, de um acidente automóvel filmado com um cruzamento invejável de criatividade e adrenalina.

Além deste olhar de cinema duro e adulto como poucos, "O TRAIDOR" eleva-se pela interpretação de Pierfrancesco Favino (actor que já tinha sido decisivo em "Suburra" ou "Saturno Contro"), capaz de moldar o protagonista enquanto figura ambígua, magnética e indecifrável - mas empática q.b.. E assinala aqui um dos grandes regressos de 2019, depois do menos entusiasmante "Sonhos Cor-de-Rosa" (2016).

4/5

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"UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE", de Woody Allen: O título até parece ter qualquer coisa de premonitório, tendo em conta que esta comédia é o exemplo mais recente de um realizador a chover no molhado. Woody Allen pode ir buscar novos rostos para o seu cinema, mas o tema e a abordagem continuam os mesmos de sempre, num filme new yorker a deixar a enésima carta de amor à cidade que nunca dorme.

O brilho da direcção de fotografia de Vittorio Stotaro é inegável, embora saia desperdiçado numa historinha de unir os pontos sobre um jovem casal universitário durante uma visita atribulada a Nova Iorque. Timothée Chalamet dá corpo ao protagonista erudito e neurótico, seguindo um modelo em tempos encarnado por Allen, que tem aqui direito a uma lição de vida. Elle Fanning interpreta a sua namorada, cujo contacto (e deslumbramento) com figuras da elite intelectual lhe baralha as prioridades. Mas nenhum destes arcos narrativos é especialmente aliciante, com desvantagem para o dela, basicamente um concentrado de encontros com figuras caricaturais que não vão além de manobras de sedução. Fanning, de resto, também não consegue dar grande espessura à sua personagem, ficando-se pelo refúgio em tiques e gestos, ainda que o principal culpado seja um argumento genérico.

Nem os diálogos são muito memoráveis, ficando o factor surpresa limitado a Selena Gomez, com o desempenho menos afectado e uma das poucas personagens interessantes, e a uma cena do protagonista com a mãe, perto do desenlace, com uma carga emocional que parece pertencer a outro filme (mais bem escrito e interpretado). Apesar da polémica à volta da estreia (descartada nos EUA), "UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE" é das obras mais inócuas do seu autor.

2/5

No quarto de Irène

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Apesar de contar com uma licenciatura em Belas Artes e de ter considerado um percurso como fotógrafa, IRÈNE DRÉSEL acabou por escolher a música como ocupação prioritária, muito por culpa de uma paixão pelo techno que mantém desde o final da adolescência.

Não admira, por isso, que tenha sido a música de dança a motivar as primeiras composições da artista francesa, nos EPs "Rita" (2017) e "Icône" (2018), às quais se juntaram, este ano, as do álbum "Hyper Cristal". O alinhamento mais longo desse novo registo permite agora que as suas faixas, quase sempre instrumentais, sejam as mais ambiciosas e versáteis até aqui, partindo do techno dos primeiros dias rumo ao electro e a alguma IDM, entre a pulsão dançável e um experimentalismo enigmático.

A compositora e produtora confessa estar particularmente interessada no apelo melódico e físico da música de dança, entregando-se ao seu lado mais sensual e hipnótico, na linha de outros artistas que a desafiam: de James Holden a Nathan Fake, passando pelas conterrâneas Chloé ou Mathilde Fernandez.

O novo single, "CHAMBRE 2", sucessor de "Victoire", é uma porta de entrada intrigante para o seu universo, ao juntar um dos episódios mais imediatos do disco a um videoclip criado pela própria ao longo dos últimos meses - dos desenhos e ilustrações à edição. Tal como a canção, inspira-se no quarto de um hotel da Normandia, que se transforma aqui no cenário de uma trip de cores garridas e ambientes oníricos. Vale a pena entrar e partilhar a experiência:

De olhos bem fechados (mas com os ouvidos bem abertos)

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O sucessor de "Sleepwalking" (2018) vai continuando a ganhar forma. Do quarto álbum de JONATHAN BREE, ainda sem título anunciado e com edição prevista para 2020, já era conhecido o primeiro single, "Waiting on the Moment", que se mantinha fiel à pop outonal do neo-zelandês. E essa atmosfera mantém-se no segundo avanço do disco, "COVER YOUR EYES", mais um tema a prometer um dos bons regressos do próximo ano.

Entre cordas, teclados e percussão, oferece um cruzamento inspirado de ritmo e melancolia, a assegurar que o ex-mentor dos The Brunettes é um cantautor a ter em conta. Enquanto termina a digressão norte-americana, BREE já divulgou algumas datas de apresentação do próximo disco na Europa, em Maio e Junho de 2020, que não incluem Portugal - onde actuou há uns meses. Mas por agora, fica a actuação do novo videoclip, ao lado da sua banda:

Esta máquina ainda acelera bem

Como soam as canções do álbum de estreia dos X-WIFE, 15 anos depois? O teste de palco foi francamente positivo para "Feeding the Machine", revisitado na noite de quinta-feira no Musicbox Lisboa.

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Foto: Facebook X-Wife

Quando o punk e sobretudo o pós-punk inspiraram, nos primeiros anos deste milénio, uma série de novas bandas dos dois lados do Atlântico - dos Interpol aos Strokes, dos Yeah Yeah Yeahs aos The Rapture, passando pelos Bloc Party ou Franz Ferdinand -, por cá esse efeito não passou despercebido junto de João Vieira, Fernando Sousa e Rui Maia.

Através dos X-Wife, formados em 2002, o trio portuense foi dos nomes nacionais que mais rapidamente se sintonizaram com um fenómeno que marcaria, com poucos, o rock da década passada. E talvez o grupo que melhor soube traçar um caminho sólido partindo da herança de géneros nascidos em finais dos anos 70 e inícios de 80, consolidando uma linguagem que também aceitou contaminações do electro, da synth-pop, do disco ou da EBM ao longo de um percurso que conta cinco álbuns - além destes, os últimos anos contaram com aventuras paralelas nos projectos individuais de Vieira (White Haus) e de Maia (Mirror People), assim como em várias colaborações de Sousa com outros artistas.

"Feeding the Machine" (2004), sucessor de "Rockin' Rio EP" (2003), vincou o primeiro grande passo de uma banda que nunca negou as suas inspirações - pelo contrário, assumiu sempre uma paixão melómana por referências como os Joy Division ou, mais tarde, os LCD Soundsystem, talvez as mais evidentes na sua música - e que mostrou saber canalizá-las para uma voz pessoal, bem defendida tanto nos discos como nos palcos.

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"Estamos a revisitar um passado que para nós ainda faz sentido no presente", assinalou João Vieira a meio da actuação lisboeta, uma das que integram a digressão que celebra os 15 anos do registo de estreia ao longo deste mês. "Para nós estas canções continuam frescas", acrescentou, e o público de uma sala bem composta terá concordado. O mérito foi não só da consistência do alinhamento de "Feeding the Machine", mas da coesão instrumental que o trio - Vieira na voz e guitarra, Sousa no baixo, Maia nos sintetizadores e caixa de ritmos - demonstrou ao tirar do baú canções como "Eno" ou "Second Best".

Essa eficácia não terá sido surpreendente para quem já tivesse visto um concerto dos X-WIFE, embora o efeito surpresa também não tenha sido o maior propósito de um concerto que assentou sobretudo no reconhecimento. E esteve à altura desse pacto, ao recordar o álbum de estreia na íntegra, sem grandes desvios da moldura sonora original e com direito a algumas memórias partilhadas pelo meio. Como antes de "We Are", que o vocalista contou ter sido a primeira canção do grupo a passar na rádio (no painel nocturno da Antena 3), episódio que o trio guardou entre os pontos de viragem mais emotivos. Ou a propósito de "Rockin' Rio", ironicamente com o nome de um festival no qual os X-WIFE nunca actuaram, apesar de terem "o sonho de ir lá tocar". "Nunca fomos, nos convidaram", assumiu Vieira ao lembrar a "estratégia de marketing" gorada.

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O músico, em tempos mais conhecido como DJ Kitten, confessou ainda estar satisfeito pelo facto de um grupo prestes a atingir a idade da maioridade - "Fazemos 18 anos em Março de 2020" - ir conseguindo renovar o público, tendo em conta a auscultação de espectadores sub-30 que fez a meio do concerto. "Não é fácil ser uma banda com 17 anos", sublinhou, brincando com estratégias como a da celebração do aniversário do primeiro álbum. Uma ocasião especial e irrepetível, "a menos que nos façam uma proposta milionária", alertou. "Nunca dizemos nunca, ao contrário de certas bandas". Fica o recado.

Os Joy Division não serão uma dessas bandas, embora não tenham deixado de ser revisitados no final da noite. "Transmission", no encore, ficou como homenagem muito aplaudida ao grupo de Ian Curtis, mesmo que tenha soado demasiado reverente.

A fechar, "Turn It Up", entrada no segundo capítulo do grupo, "Side Effects" (2006), depois de "Feeding the Machine" ter sido percorrido pela ordem do alinhamento. "Taking Control", a última faixa do álbum de estreia, foi dos momentos mais efusivos de um concerto sempre em modo acelerado, nascido da tensão entre guitarras e electrónica, contraste que tem nos X-WIFE um dos representantes-chave dentro de portas - e com uma discografia que tem sabido evoluir de forma mais interessante do que as de alguns colegas de geração internacionais. Também por isso, é pena que esta festa mal tenha atingido os 60 minutos de duração - o encore podia ter acolhido mais do que dois temas -, o que não impede de aconselhar a celebração destes 15 anos nos próximos dias. Quem puder passar pelo Club, em Vila Real, a 16 de novembro; pelo Carmo'81, em Viseu, a 22 de novembro; ou pelo Salão Brazil, em Coimbra, a 23 de novembro, que aproveite para ver como soa uma máquina bem oleada.

O destruidor melancólico

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O sucessor de "Joyland" (2014) e "TRST" (2012) pode finalmente ser ouvido na íntegra. Depois de ter editado metade do seu terceiro disco em Abril, TR/ST disponibilizou este mês "The Destroyer - 2", a segunda parte de um álbum duplo, mais uma vez composta por oito faixas.

Conforme Robert Alfons já tinha anunciado, o novo conjunto de canções é mais melancólico, introspectivo e atmosférico do que "The Destroyer - 1", e o único capítulo da discografia do canadiano com descargas de energia cinética relativamente comedidas. Talvez também seja, por isso, o menos imediato, o que não é necessariamente mau - até porque o facto de ser editado em separado, e não há uns meses, ajuda a que possa ser escutado com outra atenção. 

O primeiro single, no entanto, nem destoaria nos registos anteriores, ao propor mais um rebuçado (com sabor facilmente identificável) entre a synth-pop e a darkwave. "IRIS" já tinha aberto caminho para "The Destroyer - 2" em Junho, mas ganha um novo embalo com o videoclip, que chegou esta semana - sobretudo porque nem a música nem as imagens têm muito de veraneante, admita-se:

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