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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Até ao fim do mundo

São dois dos filmes mais desalinhados do final de 2019, ambos centrados em situações-limite num mundo em colapso - um justifica seguir um actor norte-americano atrás das câmaras, o outro é uma das coqueluches do cinema islandês recente. Vale a pena espreitar "LUZ DA MINHA VIDA" e "MULHER EM GUERRA".

Light of My Life.jpg

"LUZ DA MINHA VIDA", de Casey Affleck: Se há filmes em que o trailer acaba por revelar demasiado, este é claramente um deles. Por isso o melhor é entrar na segunda longa-metragem assinada por Casey Affleck (depois de "I'm Still Here", de 2010) sem passar por essas imagens e, já agora, sem saber muito do que a história reserva. Não é que este drama ancorado na jornada pós-apocalíptica de um pai e de uma filha seja uma montanha-russa de reviravoltas, antes pelo contrário: é tão contido que o factor surpresa de alguns momentos-chave não merece ser revelado de antemão.

Affleck, que preparou o projecto durante quase dez anos, descreve-o como particularmente pessoal, inspirado na forma como acompanhou o crescimento dos filhos, e esse lado emocional palpável é o maior trunfo de um filme que, no papel, não anda longe de outros exemplos de ficção científica distópica (com "A Estrada" a figurar entre os exemplos mais comparáveis). O realizador, que assume ainda o papel protagonista (num dos seus desempenhos mais fortes, o que não é dizer pouco) e se encarregou do argumento e produção, impõe um ritmo pausado e nunca perde o foco da relação entre a sua personagem e a filha, interpretada com uma maturidade surpreendente por Anna Pniowsky (jovem actriz cujo breve percurso até aqui foi sobretudo televisivo).

Affleck também não teme alongar-se em cenas assentes em diálogos entre a dupla, às vezes com planos fixos (logo desde o arranque, aliás), e se é legítimo acusá-lo de alguma redundância, também é difícil negar a singularidade do seu olhar. Até porque este "labour of love" recusa rodriguinhos fáceis e é bastante seco e certeiro nas cenas de suspense, igualmente filmadas sem espalhafato e ajudando a manter o realismo de uma trama com ingredientes de ficção científica.

A direcção de fotografia de Adam Arkapaw e a banda sonora de Daniel Hart ajudam a desenhar essa atmosfera intimista e envolvente, mesmo que "LUZ DA MINHA VIDA" não seja capaz de se manter uma experiência urgente ao longo de duas horas - em especial quando o espectador fica a par de todo o contexto e entregue a uma narrativa mais familiar. Apesar de ter tido uma passagem fugaz pelas salas, é das estreias de 2019 a guardar.

3/5

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"MULHER EM GUERRA", de Benedikt Erlingsson: É das estreias mais discretas da semana, mas muito provavelmente a mais imaginativa. Combinação delirante de géneros, a segunda longa-metragem do autor de "Of Horses and Men" (de 2013, que não chegou ao circuito comercial português) tem sido louvada, em parte, pela chamada de atenção que deixa sobre um planeta à beira da catástrofe ambiental - apelo que terá ajudado para contar com o Prémio Lux de Cinema do Parlamento Europeu entre as várias distinções internacionais.

Mas o realizador islandês não se fica aqui por um mero filme de "tema" com sentido de oportunidade, por muito que as preocupações ecológicas também sejam o mote narrativo. Ao ir seguindo a protagonista, uma activista de meia-idade que tenta demover o avanço da indústria de alumínio e traça um plano de sabotagem nos arredores de Reiquiavique, Erlingsson está mais preocupado em desenvolver um estudo de personagem tão inconformista como as acções de guerrilha da sua heroína. E oferece uma comédia dramática com viragens para o thriller ou para um exercício meticuloso de suspense, com um balanço arriscado mas conseguido de sensibilidade e ironia, mergulhando no que inquieta e faz mover esta "mulher em guerra" sem subscrever necessariamente a sua ideologia e métodos.

A banda sonora está entre os elementos mais idiossincráticos de um filme com um gosto óbvio pelo baralhar de coordenadas (que contagia facilmente o espectador), ao ser interpretada no decorrer da acção por uma banda de três instrumentistas e um coro feminino ucraniano. Ao quebrar a quarta parede com estas participações especiais, Erlingsson injecta mais uma dose (controlada) de absurdo a uma história que poderia escorregar para o manifesto bem-intencionado mas sisudo. Em vez disso, molda um filme tão expedito como a protagonista, entregue a uma fuga em frente imparável, com Halldóra Geirharðsdóttir a revelar-se brilhante num papel com uma exigência física e emocional invulgar.

A gestão habilidosa do humor também permite que algumas sequências, sobretudo no terceiro acto, não resvalem para a inverosimilhança, que seria uma ameaça forte caso o filme se levasse demasiado a sério. E ainda possibilita uma das sequências mais hilariantes dos últimos tempos, quando a protagonista se cruza com um drone pelo caminho: é ver para crer, portanto.

3,5/5

Da fragilidade emocional à força criativa

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Desde as suas primeiras canções - como "Don't Cry Those Tears" -, JACK COLWELL tem revisitado experiências pessoais numa escrita encarada como catarse. No novo single, "WEAK", o australiano leva o mergulho auto-biográfico ainda mais longe ao partir de uma fase da adolescência na qual manteve um relacionamento amoroso tóxico com outro rapaz.

Dessa cumplicidade que marcou a entrada na idade adulta, ameaçada pela homofobia internalizada e por episódios de humilhação, resulta mais uma viagem sonora entre o intimista e o épico, como já acontecia no single anterior do cantautor e multi-instrumentista, "In My Dreams".

Os dois temas deverão fazer parte do primeiro álbum do ex-elemento dos The Owls, o sucessor do EP "Only When Flooded Could I Let Go" (2015), que revelou esta pop tão confessional como teatral e uma voz que atinge voos mais altos na nova canção (chegando a lembrar o timbre e fulgor de Mike Patton, faceta crooner). O videoclip, mais despojado do que os anteriores, cruza cenas com o músico ao piano e em modo angelical:

Quando a pop tem sangue industrial

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Através dos álbuns "Poppy.Computer" (2017) e "Am I a Girl?" (2018), POPPY fez jus ao nome destacando-se com uma pop electrónica directa e acessível, a lembrar os caminhos mais açucarados de Robyn ou Grimes (com quem já colaborou). Mas apesar de orelhudas, algumas canções foram acolhendo (sobretudo em parte do segundo disco) influências mais agressivas, do metal ao hard rock, que se tornaram ainda mais presentes nos últimos singles, "Concrete" e "I Disagree", editados este ano - com um cruzamento que não andava longe de uns Sleigh Bells ou Cherry Glazerr.

"BLOODMONEY", a nova canção de Moriah Rose Pereira, mantém essas coordenadas e traz para esta música contaminações industriais, com o frenesim e distorção da produção a sugerir audições atentas da obra dos Nine Inch Nails - até a letra, centrada na crença e redenção, parece descendente da escola de Trent Reznor. É mais um passo eficaz com o terceiro álbum em vista, que será um dos primeiros lançamentos de 2020 - "I Disagree" está agendado para 10 de Janeiro. O videoclip, com a californiana entregue à violência e à religião, talvez antecipe algumas ideias cénicas dos próximos concertos:

Verdadeiro ou falso?

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O segundo álbum de ROMERO FERRO está a meio caminho entre a canção popular romântica do Recife e a new wave e synth-pop, combinação que o cantor brasileiro baptizou de brega wave. Um corte com o EP "Sangue e Som" (2013) e o disco "Arsênico" (2016), mais assentes na MPB e no rock, que nem sempre é certeiro mas parece funcionar bem na transposição para os palcos.

"FAKE", um dos pontos altos do alinhamento, é também dos melhores candidatos a próximo single, depois de "Tolerância Zero" ou "Acabar a Brincadeira", e deixa de lado as preocupações amorosas de grande parte das letras para um retrato da obsessão pela imagem (dentro e fora das redes sociais).

Enquanto não tem videoclip, fica entre os bons motivos para querer ver o cantautor pernambucano ao vivo, como o concerto para a Rádio Universitária FM dá a entender. E também é das faixas que mais se aproximam da herança de David Bowie, um dos ídolos de FERRO, ao ter alguns ecos de "Fame" tanto na sonoridade como na temática. Venham mais desta linhagem:

Homens à beira de um ataque de nervos

Uma crise de meia-idade, um mergulho na culpa e um relato amoroso, todos no masculino e filmados por três veteranos que estão de volta este ano: Pedro Almodóvar, Marco Bellocchio e Woody Allen. O resultado é "DOR E GLÓRIA", "O TRAIDOR" e "UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE", respectivamente.

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"DOR E GLÓRIA", de Pedro Almodóvar: É estranho ver este drama ser tão louvado por vincar um suposto renascimento das carreiras do autor de "Tudo Sobre a Minha Mãe" e de Antonio Banderas. A última colaboração da dupla, em "A Pele Onde Eu Vivo", não só não tinha sido assim há tanto tempo como havia resultado numa obra que ia bastante mais longe no mergulho no trauma e noutros abismos emocionais. E sente-se falta de alguma dessa aspereza num filme que é, às vezes, mais interessante pelos paralelos entre o percurso do protagonista (um realizador veterano solitário e depressivo) e o de Almodóvar, numa espécie de autobiografia não oficial, do que pela(s) história(s) que conta.

Há várias sequências fortes, entre confrontos profissionais, amorosos e familiares, e a direcção artística é das mais esmeradas e facilmente reconhecíveis do cineasta espanhol - com destaque para um apartamento luxuoso, onde decorre a acção no presente, e uma cave transformada num lar, nas cenas que recuam à infância. Mas também há uma facilidade nem sempre muito credível (e até inesperadamente ligeira) na superação dos conflitos - da crise de inspiração ao mergulho nas drogas -,  que deixa o todo aquém da urgência de um testemunho como "Má Educação", talvez o filme de Almodóvar cujo argumento mais se aproxima deste olhar sobre (des)encontros no masculino.

De resto, sim, Antonio Banderas é convincente e comovente enquanto personagem-espelho do realizador (acabou premiado como Melhor Actor em Cannes) e Penélope Cruz volta a dar-se bem na nova colaboração com alguém que sabe sempre tirar o melhor dela (mesmo que aqui não acrescente muito a parceiras anteriores). Um reencontro a saudar, é certo, mas distante de uma epifania.

3/5

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"O TRAIDOR", de Marco Bellocchio: Um dos melhores biopics do ano (senão mesmo o melhor, merecidamente nomeado para a Palma de Ouro em Cannes) é também uma prova de que ainda é possível fugir aos estereótipos do "filme da máfia". E o retratado, Tommaso Buscetta, merece figurar entre os anti-heróis (ou vilões?) mais fascinantes dos últimos tempos, já que Bellocchio nunca olha de cima para o criminoso tornado informador numa denúncia histórica que atingiu, como poucas, a Cosa Nostra (a máfia siciliana).

Ao longo de quase duas horas e meia, esta combinação de drama e thriller recusa uma narrativa polida e formatada,  percorrendo vários anos da vida do protagonista e recompensando a atenção do espectador (sem se preocupar com uma insistência de explicações de contexto). Implacável na radiografia de um sistema corrupto, o realizador veterano viaja aqui entre a sua Itália natal, o Brasil e os EUA com uma fluidez que só não se mantém em duas ou três das muitas cenas de tribunal - cuja atmosfera de selva civilizacional, tão trágica como cómica, está entre as maiores singularidades do filme mas poderia sair reforçada com alguma economia narrativa. Em compensação, não faltam sequências de recorte superior, sobretudo momentos estratégicos de suspense e acção que mostram o octogenário num pico de forma - caso de uma cena de chantagem num helicóptero e, sobretudo, de um acidente automóvel filmado com um cruzamento invejável de criatividade e adrenalina.

Além deste olhar de cinema duro e adulto como poucos, "O TRAIDOR" eleva-se pela interpretação de Pierfrancesco Favino (actor que já tinha sido decisivo em "Suburra" ou "Saturno Contro"), capaz de moldar o protagonista enquanto figura ambígua, magnética e indecifrável - mas empática q.b.. E assinala aqui um dos grandes regressos de 2019, depois do menos entusiasmante "Sonhos Cor-de-Rosa" (2016).

4/5

Um Dia de Chuva em Nova Iorque.jpg

"UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE", de Woody Allen: O título até parece ter qualquer coisa de premonitório, tendo em conta que esta comédia é o exemplo mais recente de um realizador a chover no molhado. Woody Allen pode ir buscar novos rostos para o seu cinema, mas o tema e a abordagem continuam os mesmos de sempre, num filme new yorker a deixar a enésima carta de amor à cidade que nunca dorme.

O brilho da direcção de fotografia de Vittorio Stotaro é inegável, embora saia desperdiçado numa historinha de unir os pontos sobre um jovem casal universitário durante uma visita atribulada a Nova Iorque. Timothée Chalamet dá corpo ao protagonista erudito e neurótico, seguindo um modelo em tempos encarnado por Allen, que tem aqui direito a uma lição de vida. Elle Fanning interpreta a sua namorada, cujo contacto (e deslumbramento) com figuras da elite intelectual lhe baralha as prioridades. Mas nenhum destes arcos narrativos é especialmente aliciante, com desvantagem para o dela, basicamente um concentrado de encontros com figuras caricaturais que não vão além de manobras de sedução. Fanning, de resto, também não consegue dar grande espessura à sua personagem, ficando-se pelo refúgio em tiques e gestos, ainda que o principal culpado seja um argumento genérico.

Nem os diálogos são muito memoráveis, ficando o factor surpresa limitado a Selena Gomez, com o desempenho menos afectado e uma das poucas personagens interessantes, e a uma cena do protagonista com a mãe, perto do desenlace, com uma carga emocional que parece pertencer a outro filme (mais bem escrito e interpretado). Apesar da polémica à volta da estreia (descartada nos EUA), "UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE" é das obras mais inócuas do seu autor.

2/5

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