Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Perseguida pelo passado

Javiera_Mena_2020.jpg

O primeiro álbum de JAVIERA MENA, "Esquemas juveniles" (2006), já sugeria que a chilena tinha um interesse particular pela synthpop e por alguma música surgida nos anos 80. E os discos que se seguiram só vieram acentuá-lo, mas souberam como fugir ao apelo da nostalgia para irem definindo um caminho personalizado em vez de um decalque.

O quinto longa-duração, sucessor de "Espejo" (2018), ainda não tem data de lançamento, mas deverá estar pronto algures em 2020 e vai juntar a cantora a vários produtores, como tem acontecido até aqui, numa atmosfera mais nocturna que terá o desejo como fio condutor. A electropop mantém-se como o ingrediente principal e o resultado deverá ser (ainda) mais dançável, como também já adiantou a artista radicada em Madrid - cidade onde protagonizou um dos grandes concertos do ano passado.

O sueco Stefan Storm, elemento dos The Sound of Arrows, é um dos os nomes convocados para a produção e colabora no primeiro single, "FLASHBACK", amostra com inspirações da música de dança francesa e a confirmar que a chilena continua com um lugar próprio na pop latina actual (sem precisar de ser mais uma a aderir ao reggaeton, apesar do desvio ocasional de "Intuicíon", ao lado de El Guincho). O videoclip, de estética retrofuturista, é em parte uma homenagem ao clássico manga "Akira", de Katsuhiro Otomo, mas também mostra a cantora tão à vontade no palco como na discoteca. Venha o flash forward:

Corpo eléctrico (e electrónico)

The_Irrepressibles-c-Darin-Tufani.jpg

Está mais electrónica do que nunca, a pop dos THE IRREPRESSIBLES. Se em "Mirror Mirror" (2010) e "Nude" (2012) o projecto de Jamie McDermott recorria aos sintetizadores como complemento de canções orquestrais e melancólicas, influenciadas pela música clássica e alguma folk, o terceiro álbum troca o recolhimento pela libertação nas pistas.

"Superheroes" só chega a 29 de Março, mas o cantautor britânico confirma que é o mais influenciado pela música de dança, em parte devido à temporada que passou em Berlim nos últimos anos.

A capital alemã também serve de cenário à história que se contará num álbum conceptual: a de um rapaz que se apaixona por outro, inspirada na adolescência de McDermott e que fará a ponte com questões ligadas à saúde mental ou a conceitos de masculinidade. Não são temas inéditos numa discografia que tem abordado relacionamentos LGBTQ, mergulhando tanto no desejo e na cumplicidade como na homofobia ou no bullying. 

Superheroes.jpg

Essa exploração vai da música às imagens: "Submission", um dos primeiros singles de "Superheroes", conjugou conflitos emocionais e físicos num videoclip ambíguo. Já o novo avanço, "LET GO (Everybody Move Your Body Listen to Your Heart)", mostra uma faceta mais optimista através de um relato de sedução e auto-descoberta, repetindo a colaboração com o norte-americano Jon Campbell na voz e o turco Savvas Stavrou na realização.

O videoclip é facilmente o mais festivo do percurso dos THE IRREPRESSIBLES, mesmo que, tal como a música, arranque em modo robótico antes de se render à euforia dançável. Também é o melhor tema do terceiro álbum revelado até agora (os anteriores, que incluem faixas do disco e lados B, podem ser ouvidos na playlist acima) e dá a entender que teve alguma influência das colaborações de McDermott com os Röyksopp e Rex The Dog, ao apostar num formato synth-pop que atinge o ponto de rebuçado na segunda metade.

Curiosamente, embora o videoclip tenha sido pensado como um apelo contra a homofobia internalizada, as imagens (sobretudo as finais) tornam-se bem mais transgressoras em tempos de coronavírus. Dancemos em casa, então:

O primeiro golpe de "Kung Fu"

Stereoboy.jpg

É um dos regressos nacionais do ano e concretiza-se já no mês que vem. Luis Salgado, mais conhecido como STEREOBOY, edita a 17 de Abril o segundo álbum, "Kung Fu", sucessor do já distante "OPO", de 2013, e de dois EPs. E embora volte a apostar em instrumentais com uma carga electrónica assinalável, as novas canções prometem mostrar uma faceta mais densa, até agressiva, a contrastar com um passado de experimentalismo lúdico e onírico.

O título do novo disco já denuncia essa viragem e o single de apresentação confirma-a, pelo menos para já. "YIP MAN" mantém as referências orientais (o título é herdado de Bruce Lee) e avança entre o industrial e o krautrock, a ameaçar aproximações ao noise, através da combinação de sintetizadores e bateria - modelo que deverá dominar o alinhamento do álbum. O vídeo que marca a estreia do tema é o primeiro de dois gravados numa sessão ao vivo, Casota Sessions #3, da autoria do colectivo com o mesmo nome. E cria alguma expectativa em relação ao próximo:

Viciada no amor

É uma das (boas) novidades da Netflix e das melhores propostas para binge-watching. Em apenas seis episódios, a primeira temporada de "FEEL GOOD" vai do início aos altos e baixos de uma relação, sem abdicar do humor ou da empatia, mesmo que nem sempre faça jus ao título - e ainda bem. 

Feel Good.jpg

Qualquer semelhança com a realidade não será pura coincidência. "FEEL GOOD" tem Mae Martin como co-autora (ao lado de Joe Hampson) e protagonista, na pele de uma personagem chamada Mae, que tal como ela é lésbica, comediante e mantém uma relação complicada com as drogas (depois de um período de dependência de cocaína). Mas esta produção britânica do Channel 4 (distribuída internacionalmente pela Netflix) não pretende ser uma biografia de uma das suas criadoras, por muito que a ficção seja aqui um espelho directo de parte da sua realidade.

A aproximação a alguns capítulos da vida da humorista canadiana talvez ajude a explicar, no entanto, porque é que esta comédia dramática tem alguns momentos especialmente verosímeis, sobretudo depois de um primeiro episódio que pode parecer apressado e até forçado: nesse arranque, a protagonista conhece uma espectadora das suas actuações de stand up comedy, apaixonam-se quase à primeira vista e decidem viver juntas com uma facilidade que só parece mesmo acontecer na ficção.

Mas a aceleração narrativa faz sentido: os autores da série estão mais interessados em acompanhar a fase em que uma relação amorosa se torna estável do que os seus inícios, e o que começa como uma colagem a lugares comuns de histórias feel good acaba por ir ganhando contornos mais turvos. O humor nunca deixa de estar presente, só que vai sendo um escape para a inquietação e angústia que toma conta do casal. E a instabilidade ameaça principalmente Mae, cujo refúgio emocional na sua nova companheira se confunde com um caso de co-dependência, confrontando-a com um passado de vícios e separações.

Feel Good 2.jpg

Sem fugir a alguns estereótipos de narrativas de superação da dependência - não faltam, por exemplo, as reuniões de grupo semanais com personagens que poderiam ser mais aprofundadas -, "FEEL GOOD" também oferece o antídoto para a rotina dessas histórias através da empatia e perspicácia com que olha para a dupla protagonista. E tanto Mae como George, a sua companheira, têm razões para questionarem a viabilidade da sua relação, seja o histórico de instabilidade da primeira, sejam as dificuldades que a segunda tem em lidar com um relacionamento homossexual (depois de ter mantido relações amorosas apenas com homens e de esconder a nova vida conjugal da família e amigos).

A química entre as actrizes também ajuda. Mae Martin pode estar a interpretar uma versão de si própria, mas é carismática na combinação de neurose, vulnerabilidade e ironia, atirando frases inspiradas (e às vezes hilariantes) nas situações mais despropositadas. Charlotte Ritchie complementa-a entre a doçura, a insegurança e alguma rispidez, destacando-se num elenco coeso que inclui outros desempenhos femininos a reter. Lisa Kudrow, na pele da mãe da protagonista, é de menção obrigatória, sempre de resposta pronta e sem medir as palavras. Ou Sophie Thompson, que encarna a nova e estouvada confidente de Mae, além de segunda mãe possível. Espera-se que a segunda temporada, a confirmar-se (e o final sugere que sim), as traga a todas de volta.

3/5

Pág. 1/4