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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

2020: Odisseia no espaço feminino

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Um álbum com 15 faixas e mais de uma hora de duração pode ser um desafio na era do modo shuffle via streaming, mas o mais recente de SEVDALIZA recompensa a insistência. Editado de forma demasiado discreta no final do Verão, "Shabrang" não precisa de conquistar pelo imediatismo para ir deixando vontade de ouvir mais - basta a aura de mistério que a irani-holandesa vai moldando ao longo de um alinhamento que não fica a dever nada e talvez até supere os do álbum de estreia, "ISON" (2017), e dos três EPs desta discografia.

Entre influências da tradição árabe e aproximações ao R&B e à música de dança, os cruzamentos sonoros são tão versáteis como a voz, embora nunca abdiquem do tom nocturno e muitas vezes dolente. Mas também há rasgos no meio da introspecção dominante: vale a pena ouvir o o álbum até ao fim para descobrir, por exemplo, o fulgor de "RHODE", o novo single.

Com um registo vocal a lembrar uma Lou Rhodes dos primeiros tempos dos Lamb, Sevda Alizadeh reforça a descendência da faceta mais negra do trip-hop numa moldura sonora que remete para a 'bíblia' "Mezzanine", dos Massive Attack. O resultado é dos maiores momentos de crispação de "Shabrang" e tem frenesim à medida num videoclip descrito pela cantautora como uma celebração crua da feminilidade - e nos moldes de ficção científica, do arranque espacial a um rodeo afiado:

Quando o confinamento faz mal à cabeça

A nova minissérie do AXN mostra uma versão particularmente terrível do confinamento ao acompanhar uma equipa de cientistas na Antárctida. E apesar de os valores de produção serem elevados, o arranque de "THE HEAD" promete um thriller com uma curiosa atmosfera de série B.

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Boa parte da promoção de "THE HEAD" tem sido ancorada num dos nomes do elenco, Álvaro Morte, que meio mundo passou a conhecer como o 'Professor' de "La Casa de Papel". Não chega a ser publicidade enganosa, mas na verdade o actor espanhol tem uma participação bastante limitada nesta aventura saída de uma parceria entre o Mediapro Studio, a Hulu Japan e a HBO Asia que se estreou em Portugal na passada quarta-feira, 21 de Outubro, através do AXN.

De qualquer forma, Álvaro Morte parece estar bem acompanhado num dos elencos mais internacionais dos últimos tempos, com actores de sete países, mistura que também resultou numa profusão de idiomas: ouve-se falar inglês, dinamarquês, sueco e espanhol. E esse âmbito global justifica-se tendo em conta a multiculturalidade da equipa de cientistas no centro da acção, que investiga uma bactéria capaz de transformar dióxido de carbono em oxigénio a um ritmo acelerado. A pesquisa leva a uma estadia prolongada num centro no Polo Sul durante seis meses, numa temporada na qual nunca brilha o sol e que se torna ainda mais negra quando quase todos os investigadores são brutalmente assassinados.

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Quem os matou e porquê? Essa é a questão que "THE HEAD" tratará de responder ao longo de seis episódios, e o primeiro sugere que vai valer a pena esperar para saber. Realizada pelo espanhol Jorge Dorado (que dirigiu alguns dos melhores capítulos de "Gigantes") e criada pelos conterrâneos Àlex e David Pastor ("A Vida que Mereces"), juntamente com o showrunner David Troncoso ("Plaza de España"), a minissérie inicia-se com um longo plano-sequência que apresenta, de forma envolvente e eficaz, o espectador ao território de uma trama de suspense e às personagens que o habitam - mesmo que algumas não fiquem por lá muito tempo, pelo menos com vida.

O primeiro episódio também marca pontos ao assumir logo as influências, uma em particular: qualquer semelhança com "Veio do Outro Mundo" não será coincidência e uma das cenas mais descontraídas mostra os protagonistas a revisitar o clássico de John Carpenter que também juntava neve, morte e isolamento. "Alien - O 8.º Passageiro" será outra aproximação possível e esta dinâmica também não anda longe dos mistérios de Agatha Christie em torno de assassinatos. Mas os criadores de "THE HEAD" parecem estar cientes disso, o que faz esperar que o resultado não se limite a ser mais do mesmo, embora tenha um ponto de partida familiar.

Entre narrativas em períodos temporais diferentes e uma galeria de personagens enigmáticas, cujas motivações a trama promete explorar, a investigação é conduzida por um comandante obstinado em descobrir o autor do crime e o destino da sua mulher, um dos elementos desaparecidos. O dinamarquês Alexandre Willaume encarna o protagonista, com uma mistura convincente de carisma e desespero, o irlandês John Lynch começa por desenhar uma figura mais turva e no elenco destaca-se ainda Tomohisa Yamashita, super-estrela japonesa com um longo percurso na interpretação e na música. Já Álvaro Morte encarna o cozinheiro de serviço, depois de ter sido "professor". Mas aqui não se mostra tão engenhoso face à ameaça com se depara...

"THE HEAD" é emitida no AXN às quarta-feiras, a partir das 22h50.

Quatro por quatro

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Há dois anos, o álbum de estreia homónimo das GOAT GIRL colocou o quarteto londrino entre as promessas a seguir de uma nova geração do rock britânica. Um rock que devia alguma coisa ao pós-punk, à folk ou ao blues enquanto juntava acessos de psicadelismo e mantinha uma postura desencantada e sardónica, próxima de conterrâneos como os Porridge Radio ou os Dry Cleaning (bandas também maioritariamente femininas). 

O capítulo sucessor, preparado nos últimos meses, já está a caminho e é um dos que vão abrir a temporada discográfica de 2021: "On All Fours" chega a 29 de Janeiro e tem sido descrito como um registo mais ecléctico, até porque desta vez todos os elementos do grupo tiveram uma voz activa na composição - papel até aqui entregue à vocalista, Lottie Cream.

O primeiro single, "SAD COWBOY", dá conta dessa mudança naquele que é talvez o tema mais expansivo da banda, não só pela duração (vai além dos cinco minutos quando as faixas do primeiro disco raramente chegavam aos três), mas porque o nervo das guitarras cede espaço ao embalo hedonista dos sintetizadores. Inspirado pela perda de noção da realidade, é servido por um videoclip de tom abstracto e onírico, entre a fuga e uma libertação que, noutros tempos, poderia ter lugar numa pista de dança:

Uma mulher na cidade, 20 anos depois

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20 anos depois, "STORIES FROM THE CITY, STORIES FROM THE SEA" ainda é, de longe, o álbum mais directo e acessível de PJ HARVEY. Mas se noutros casos poderia ser encarada como uma cedência, esta carta de amor a Nova Iorque mantém-se entre o melhor da discografia da britânica.

Não, um músico não precisa de estar sempre amargurado para que a obra seja impactante e inspirada. E o quinto álbum de Polly Jean Harvey, o mais luminoso de um percurso que marcou como poucos o rock das últimas décadas, é dos exemplos mais claros que contrariam essa ideia feita (às vezes ainda demasiado presente).

Sucessor de "Is This Desire?" (1998), disco assombrado e atmosférico, de texturas complexas e experimentação electrónica recorrente (a denunciar ecos do trip-hop), "STORIES FROM THE CITY, STORIES FROM THE SEA" foi editado a 24 de Outubro de 2000 e desviou os horizontes da voz de "Down by the Water" para algo completamente diferente, surpreendendo muitos por ser tão melódico e polido - características pouco associadas à britânica, nem mesmo no romantismo de "To Bring You My Love" (1995).

PJ HARVEY revelou na altura a ambição de um disco que fosse a antítese do negrume dos antecessores, propondo uma viragem em direcção à beleza guiada por uma sensibilidade pop. Mas se noutros percursos essa opção poderia equivaler a facilitismo, aqui o resultado manteve as qualidades que moldaram uma das discografias mais imaculadas desde inícios dos anos 90.

Ainda há quem aponte este como o registo mais "comercial" da britânica, num sentido algo pejorativo, e é verdade que teve um papel considerável no reforço da sua popularidade - os singles mostraram-se mais compatíveis com algumas playlists radiofónicas, o aplauso crítico teve expressão particularmente forte na atribuição do Mercury Prize (o primeiro de sempre para uma artista a solo). Mas se assim foi, tanto melhor: "STORIES FROM THE CITY, STORIES FROM THE SEA" mereceu chegar ao maior público possível enquanto não deixou de ser, tal como os anteriores, um álbum com histórias que falam entre si e não apenas um conjunto de canções alinhadas no mesmo disco.

Co-produzido com os cúmplices habituais Mick Harvey e Rob Ellis, foi composto entre Nova Iorque (onde a cantora viveu alguns meses em 1999), Londres e a sua terra-natal, Dorset, na costa britânica. Mas apesar do título, a atmosfera que percorre o alinhamento é bem mais urbana do que marítima, em crónicas que deixam quase inteiramente de lado as metáforas dos discos anteriores para relatos directos, com muitas menções a espaços da cidade que nunca dorme.

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"Big Exit", com um sentido de urgência ao nível dos dias de "Rid of Me" (1993), é um arranque implacável embora pouco representativo do que se segue, menos movido pela inquietação e desespero - exceptuando "The Whores Hustle and the Hustlers Whore", outro dos picos de intensidade do álbum. A partir da segunda faixa, "Good Fortune", "STORIES FROM THE CITY, STORIES FROM THE SEA" adopta um tom mais pessoal nas letras e mais contido na descarga sonora, ao ponto de a sua autora chegar a lembrar mais uma descendente de Chrissie Hynde do que de Patti Smith (sobretudo numa canção como "You Said Something", belo momento de nostalgia amorosa ao luar num arranha-céus, ancorado num gancho de guitarra irresistível).

São quase sempre histórias vividas a dois, no presente ou no passado, e com direito a voz masculina em três momentos: a de Thom Yorke, com quem Harvey partilhou o protagonismo em "This Mess We're In" e convidou para os coros de "Beautiful Feeling" e "One Line" - esta última com o vocalista dos Radiohead a brilhar especialmente alto, num dos crescendos mais vertiginosos.

Menos essencial, "Kamikaze" destoa liricamente mas é um disparo de adrenalina eficaz e a abrir caminho para "This Is Love",  outro acesso portentoso e com Harvey a atirar-se de cabeça à luxúria enquanto sacode inquietações ("I can't believe that life's so complex/ When I just want to sit here and watch you undress"). Esse desprendimento também passa, ainda que de forma mais contemplativa, por "We Float", despedida memorável guiada pelo piano, orgão e um loop percussivo. "Take life as it comes", repete, ao encontrar uma serenidade que também marcou "A Place Called Home" ou "Horses in My Dreams", outras pérolas a (re)descobrir ao longo de "STORIES FROM THE CITY, STORIES FROM THE SEA". Só é pena que nem toda a pop brilhe assim...

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