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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Filmes, séries, discos e canções: 75 de 2020

2020.jpg

2020 vai ser lembrado pelas piores razões, mas também por isso vale a pena recordar o que houve de melhor. E na Cultura, logo uma das áreas mais afectadas pela pandemia que se instalou em Março, não faltaram triunfos criativos a assinalar entre as muitas limitações impostas pela COVID-19.

As salas de cinema cada vez mais vazias, e a acolherem cada vez menos estreias, contaram com a resistência de alguns festivais e ciclos (obrigado, Nimas, pela oportunidade de finalmente ter conseguido ver um dos meus filmes preferidos no grande ecrã), embora essas iniciativas não disfarcem a falta de novidades no circuito comercial, agravada nos últimos meses. A lista de dez filmes que deixo abaixo acaba por reflectir essa tendência, mesmo já incluindo escolhas que chegaram através das plataformas de streaming ou mesmo da televisão.

As séries, por outro lado, tiveram um ano particularmente forte, tanto em quantidade como qualidade ou diversidade (temática ou geográfica). E beneficiaram de uma atenção especial em noites (e dias) de confinamento, com o binge-watching a normalizar-se e a preencher as vagas abertas por saídas adiadas. Tendo em conta essa disponibilidade e a oferta crescente, não é difícil apontar 20 exemplos de ficção que não fica a dever a muita da que passa pelo grande ecrã - e a lista ainda poderia ser maior...

Emily Jane White.jpeg

Apesar de os palcos continuarem a ser uma opção (embora sem festivais), a música tendeu a ser mais ouvida entre o quarto e a sala de estar. Petbrick e Blanck Mass, ambos no Musicbox, e Emily Jane White no Salão Brazil, ficam como os únicos concertos que vi este ano, boas memórias que se juntam às de discos e canções recordados abaixo - muitas delas da selecção nacional, muito produtiva nos últimos meses, mesmo que a criatividade não afaste a incerteza.

Mais tempo em casa também equivaleu a (muito) mais tempo para ler. Raramente novidades, ao contrário de boa parte das descobertas no cinema, séries ou música, e por isso a lista de leituras não faria sentido num balanço do ano. As excepções são "Marrom e Amarelo", de Paulo Scott, e "Deixa-te de Mentiras", de Philippe Besson, com edições nacionais em 2020, lembranças de idas à Feira do Livro de Lisboa que o novo coronavírus não chegou a impedir - e até ajudou a valorizar. Enfim, que 2021 traga pelo menos 75 surpresas tão boas como estas:

10 FILMES

O Ninho.jpg

"Bad Education", Cory Finley
"Bangla", Phaim Bhuiyan
"Corpus Christi - A Redenção", Jan Komasa
"O Fim do Mundo", Basil da Cunha
"O Homem da Camisa Laranja", Michael Samuels
"O Ninho", Sean Durkin
"O Tempo Contigo", Makoto Shinkai
"Os Miseráveis", Ladj Ly
"Sound of Metal", Darius Marder
"Verão de 85", François Ozon

Fora de circuito: "El Cazador", Marco Berger; "La femme de mon frère", Monia Chokri; "No Hard Feelings", Faraz Shariat; "Vento Seco", Daniel Nolasco

Desilusões do ano: "Da 5 Bloods: Irmãos de Armas", Spike Lee; "Tudo Acaba Agora", Charlie Kaufman

20 SÉRIES

We Are Who We Are.jpg

"A Maldição de Bly Manor", Netflix
"Boca a Boca" (T1), Netflix
"Das Boot" (T2), AMC
"Drifting Dragons" (T1), Netflix
"Fauda" (T3), Netflix
"Feel Good" (T1), Netflix
"Giri/Haji: Dever/Vergonha" (T1), Netflix
"I May Destroy You" (T1), HBO Portugal
"Industry" (T1), HBO Portugal
"Kalifat" (T1), Netflix
"Normal People" (T1), HBO Portugal
"Ozark" (T3), Netflix
"Pátria" (T1), HBO Portugal
"Raised by Wolves" (T1), HBO Portugal
"Segurança Nacional" (T8), FOX
"Sweet Home" (T1), Netflix
"The Boys" (T2), Amazon Prime Video
"Trigonometry" (T1), HBO Portugal
"Vampires" (T1), Netflix
"We Are Who We Are" (T1), HBO Portugal

Desilusões do ano: "Run" (T1), HBO Portugal; "Soulmates" (T1), AMC

10 DISCOS

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"925", Sorry
"acts of rebellion", Ela Minus
"After the Curtains Close", Jonathan Bree
"Every Bad", Porridge Radio
"Myopia", Agnes Obel
"Róisín Machine", Róisín Murphy
"Seeking Thrills", Georgia
"Shabrang", Sevdaliza
"Silver Tongue", TORRES
"What's Your Pleasure?", Jessie Ware

Desilusão do ano: "Conference of Trees", Pantha du Prince

10 DISCOS NACIONAIS

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"II", Ghost Hunt
"Aconteceu", Grutera
"Cabrita", Cabrita
"Intacto", Vatsun
"Mínima Luz", Três Tristes Tigres
"Parte Chão", Galgo
"Raiashopping", David Bruno
"Sensacional!", Spicy Noodles
"UWA", Pongo
"Véspera", Clã

15 CANÇÕES

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"Ageless", No Joy
"Choir Day", ARO
"Dark Paradise", Rey Pila
"Déjà-Vu Frenesi", Letrux
"Different Breed", Blanck Mass
"dominique", Ela Minus
"Gingko Biloba", Rone
"Moonlight Popolare", Mahmood feat. Massimo Pericolo
"O Mito e a Caverna", ÀIYÉ feat. Vitor Brauer
"On My Own", Shamir
"Perfect", Sorry
"Sanity", Sneaks
"School", Four Tet
"The Turning of Our Bones", Arab Strap
"Your Touch", Nine Inch Nails

Outras canções a guardar:

10 CANÇÕES NACIONAIS

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"Circunvalação", Capicua
"Espero por Ti Lá Fora", Cláudia Pascoal
"Festa da Espuma", David Bruno
"Luz", Moullinex feat. GPU Panic
"Makamba", Pongo
"Movimento", Throes + The Shine
"Neutro", Noiserv
"Pensamentos Mágicos", Clã
"Purga", Rita Vian
"Vida Santa", Vatsun

Mais escolhas da prata da casa:

Há algo de envolvente no reino da Dinamarca

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Um dos regressos do ano a celebrar ficou a cargo de AGNES OBEL, que ao quarto álbum aprimorou qualidades que fazem dela uma cantautora a ter por perto. "Myopia" é um disco hipnótico tanto pela composição como pela produção, ambas a valorizarem uma voz tão capaz de confortar como de inquietar. E a segunda vertente talvez saia a ganhar nas novas canções, algumas das mais soturnas - ou até sinistras - do catálogo desta dinamarquesa radicada em Berlim.

As doses reforçadas de negrume não serão muito surpreendentes tendo em conta que Edgar Allan Poe ou Alfred Hitchcok estão entre as referências de uma obra que também deve muito à música clássica ou à folk, de Claude Debussy a Joni Mitchell. À aura gótica, a fase mais recente acrescentou um interesse pela manipulação vocal, enriquecendo o jogo de texturas de um alinhamento atmosférico e enigmático que mantém esse efeito no salto para o palco. Ou pelo menos é o que sugerem as versões ao vivo de alguns temas apresentadas na sala National Sawdust, em Brooklyn, no início do ano, com uma atenção aos arranjos tão minuciosa como no disco.

A alquimia de piano, cordas ou percussão, garantida por uma banda de três elementos, ajudará a explicar porque é que OBEL foi convidada para acompanhar os Dead Can Dance na sua digressão actual e leva a pedir que os promotores nacionais também se lembrem dela para um regresso a salas portuguesas em 2021 - até porque tem várias datas agendadas para cidades europeias ao longo do próximo Verão. Até lá, teremos sempre o precioso recurso ao arquivo virtual de actuações como a nova-iorquina, a ver e ouvir nos vídeos abaixo:

Um single para juntar às canções que salvaram o ano

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Nem tudo foi mau em 2020 e a oferta de pop electrónica nacional aí esteve para o provar. Do humor de David Bruno ou PZ à melancolia de Vatsun, do apelo dançável de Electric Man às promessas Spicy Noodles ou GPU Panic (este a solo e nas colaborações com Moullinex), houve vários casos a acompanhar - e num departamento mais afastado do formato canção, Ghost Hunt e Stereoboy também se deram bem com sintetizadores.

Mais recente, a estreia de PAZ ATÓMICA vem juntar-se a estes e outros nomes que foram merecendo atenção ao longo dos últimos meses. Aventura a solo de Vítor Pinto - elemento dos Malibu Gas Station, participante no projecto David From Scotland, em tempos parte dos extintos O Abominável -, arranca com "SALVAÇÃO", single de descendência inegável de alguma synth-pop sombria nascida nos anos 80 que opta pelo português como idioma. E parece ser uma opção acertada, ao ajudar a moldar um primeiro single intrigante enquanto deixa curiosidade de ouvir mais em 2021. O videoclip, a preto e branco e nascido de imagens de vários realizadores, ajuda a confirmar a boa impressão inicial:

Ensaio sobre a surdez

Merecia estreia nas salas de cinema, mas acabou por chegar a Portugal apenas através do pequeno ecrã, há poucas semanas. "SOUND OF METAL", de Darius Marder, está disponível no Amazon Prime Video e é muito bem defendido por um Riz Ahmed em estado de graça.

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Como lidar com a perda da audição? É esse o ponto de partida de um estudo de personagem centrado num baterista que deixa de conseguir ouvir de forma repentina, caindo numa espiral descendente à medida que a sua rotina sofre danos irreparáveis.

Mas mais do que o embate com a surdez, esta estreia na ficção de um realizador vindo dos documentários também deixa um olhar sobre a dependência, seja emocional (nascida de um relacionamento amoroso), de um estilo de vida (marcado pela adrenalina de concertos de um rock agreste, a caminho do noise) ou das drogas (com o vício da heroína a vincar o passado do protagonista).

Capaz de um retrato complexo da figura na qual se centra, "SOUND OF METAL" afasta-se dos moldes hollywoodescos de dramas sobre a superação da adversidade, com um conflito interior que nunca é rastilho para episódios histriónicos nem de mensagem inspiradora formatada: um bom exemplo de sensibilidade da escrita a cargo do realizador, do irmão, Abraham Marder, e de Derek Cianfrance. Este último, autor de "Como um Trovão", co-escrito por Darius Marder, chegou a desenvolver um projecto com alguns contornos semelhantes, também centrado na dinâmica de um casal/banda (os Jucifer) mas em traços documentais, no abandonado "Metalhead".

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Neste drama, no entanto, a música vai dando lugar ao ruído de um design sonoro brilhante (a cargo de Nicolas Becker, que trabalhou em "Gravidade" ou "Primeiro Encontro"), ao aproximar o espectador da nova condição do protagonista, sujeitando-o à overdose de feedback e dissonâncias mundanas, opção que torna mais imersivo um filme já de si magnético pelo actor que o carrega.

Riz Ahmed, tão contido como intenso, mantém-se a milhas do overacting num papel que poderia facilmente escorregar para esse registo, sem deixar de traduzir a exasperação de alguém que se encontra num cenário incapaz de controlar e ao qual não quer adaptar-se.

É um dos grandes desempenhos do ano, a sublinhar o talento de um actor pouco favorecido nos seus filmes mais populares ("Venom", "Rogue One: Uma História de Star Wars") mas aqui valorizado por um realizador promissor, atento aos seus olhares e gestos - e não só porque um argumento que parte da surdez o pede.

3,5/5

Delícia turca

Entre as muitas novidades que se acotovelam nos serviços de streaming, algumas com mais fama do que proveito, há pequenas surpresas que se arriscam a ficar fora dos holofotes. A série turca "ETHOS" é dos exemplos mais sintomáticos, estreada há poucas semanas sem alarido e das boas aquisições da Netflix da recta final do ano.

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Tendo Istambul e arredores como cenário, "ETHOS" revela um olhar perspicaz e enigmático, às vezes com um humor quase escarninho mas travado por uma escrita que tem uma óbvia empatia pelas figuras que acompanha, ainda que não se escuse de dar conta das suas falhas e preconceitos.

Berkun Oya estreia-se aqui como showrunner, assinando ainda o argumento e a realização, depois de um percurso como dramaturgo, e a ligação ao teatro ajudará a explicar o seu óbvio interesse pela palavra - e pelas falhas de comunicação entre personagens que às vezes partilham pouco mais do que a língua e a nacionalidade.

Mas a série não se limita a enquadrar uma sucessão de cabeças falantes (embora recorra muito ao campo/contracampo nas cenas de conversas) e tem ideias de cinema sugestivas, dos zooms frequentes nas sequências de exteriores à utilização da banda sonora (com direito a canções eurovisivas obscuras) para sublinhar a ironia ou os absurdos do quotidiano. E também se vale de um elenco coeso, em muitos casos excelente (Öykü Karayel, a protagonista, é um rosto a fixar e não admira que Oya lhe dedique tantos grandes planos) para uma radiografia inspirada do individualismo e dos acasos numa grande metrópole, através de uma estrutura narrativa em mosaico - partindo do dia a dia de uma empregada doméstica que procura respostas entre a fé e a psiquiatria.

Só é pena que, depois de um arranque envolvente, alguns episódios acabem por acusar a duração (cerca de uma hora), com o realizador a não ser tão certeiro a gerir o ritmo como a dirigir actores, além de apresentar algumas figuras cujo retrato parece ficar por terminar. O final, no entanto, reforça as qualidades de uma série que nunca deixa de ser interessante, mesmo quando o seu autor não separa o essencial do acessório.

3/5

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