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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Asas de liberdade (e uma amizade que voa para outras direcções)

A história de um primeiro amor entre dois rapazes tornou-se, inesperadamente, o maior êxito de bilheteira em Taiwan no ano passado e dos filmes LGBTQ+ asiáticos mais populares dos últimos tempos. Estreado em Portugal na Netflix, "O TEU NOME GRAVADO EM MIM" é das novidades a guardar na lista da plataforma de streaming.

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A segunda longa-metragem de Kuang-Hui Liu tem sido descrita como o trabalho mais pessoal de um realizador que se afasta aqui do tom ligeiro de "22nd Catch" (2016) e das séries pelas quais passou, num retrato com maior peso dramático e também com muito de auto-biográfico.

Ambientado em Taiwan no final dos anos 80, pouco depois de ter sido levantada a lei marcial, "O TEU NOME GRAVADO EM MIM" desenvolve um modelo reconhecível de histórias coming of age (e coming out) num contexto particular e que se inspira em episódios verídicos da adolescência do realizador. É a história de dois rapazes de um colégio interno católico e de uma amizade que vai ganhando outros contornos, embora nenhum dos protagonistas consiga encarar de frente os sentimentos que uma relação cada vez mais cúmplice vai despertando.

Apesar de decorrer numa época em que começava a ser possível alguma abertura à comunidade LGBTQ+ no país, o filme dá sempre conta do peso da tradição e do conservadorismo político, social e religioso, que tende a limitar a identidade e a postura dos protagonistas. Sobretudo a de Jia-han, perfeitamente integrado no ambiente escolar, ao contrário de 'Birdy', cuja atitude mais irreverente o torna num estudante olhado de lado pela maioria dos colegas e candidato a agressões físicas ou verbais, ecos de um clima de homofobia ainda dominante.

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A alusão a "Birdy" ("Asas da Liberdade", na tradução portuguesa), filme de Alan Parker, está longe de ser coincidência: "O TEU NOME GRAVADO EM MIM" não só menciona directamente essa outra história de amizade masculina na adolescência como pode ser vista, pelo menos na primeira metade, como uma descendente espiritual da ligação memorável entre Nicolas Cage e Matthew Modine. Até porque os dois actores principais, Edward Chen e Jing-Hua Tseng, têm uma química palpável e são dirigidos por um realizador que sabe captar olhares e gestos, decisivos neste olhar sobre a insolência, a vulnerabilidade e o desconforto juvenil.

Além de contar com a energia dramática dos protagonistas, Kuang-Hui Liu consegue tornar seu o que poderia ser só o enésimo relato boy meets boy num contexto opressivo. Cenas como a da intromissão dos dois rapazes numa sala de cinema fechada, com direito a projecção de sombras chinesas, ou a do improviso desafiante durante uma coreografia militar, a lembrar a desconstrução dos rituais de "And Then We Danced", sugerem um cineasta a seguir. Mas a mais forte talvez seja a de um encontro não planeado no duche, um dos picos sensoriais e emocionais do filme - e daquelas para ficar entre as de antologia do cinema queer dos últimos anos.

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Momentos como esses, ou como o do encontro da dupla com o activista LGBTQ+ Chi Chia-wei quando este é detido pela polícia, ajudam a aceitar os desequilíbrios que "O TEU NOME GRAVADO EM MIM" também vai revelando. Se o realizador convence nas sequências contidas, parece perder-se em demasiados episódios histriónicos ao longo de quase duas horas irregulares - e excessivas, já que poderiam dispensar ou encurtar algumas cenas. O subenredo que segue a conversa de um dos rapazes com o padre da escola, que vai marcando a alternância temporal da acção, parece estar aqui a mais e impede que o filme alcance outros voos. O pároco é, aliás, a única personagem secundária sobre a qual o argumento se debruça, mas o retrato poderia ter outra ressonância dramática se a família ou uma colega próxima dos protagonistas tivessem espaço para mostrar as suas razões.

Em todo o caso, o gesto político de Kuang-Hui Liu não sai comprometido e a fotografia de Hung-I Yao contribui para que o resultado seja visualmente impressionante, dos contrastes cromáticos de algumas cenas de interiores a mergulhos numa piscina. Já é mais do que o que se pode dizer de muitos filmes que vão chegando ao streaming com outras honras de estreia...

3/5

Banda sonora para uma realidade que parece ficção

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LUIS VASQUEZ tornou-se mais conhecido enquanto The Soft Moon, nome do seu projecto a solo com o qual percorreu territórios industriais, góticos, coldwave ou EBM ao longo de quatro álbuns, criando música sombria e atmosférica cujo impacto aumentava consideravelmente ao vivo.

O novo disco, no entanto, inicia um caminho paralelo ao ser o primeiro assinado com o nome do californiano, uma forma de vincar o mergulho em novos universos sonoros. Álbum conceptual editado sem aviso prévio há poucos dias, "A BODY OF ERRORS" parte da experiência de viver num corpo humano encarada por quem sempre se sentiu aterrorizado pela sua própria anatomia, explicou Vasquez nas redes sociais.

Esse clima de terror é logo sugerido pelos títulos de algumas faixas, quase todas instrumentais ("Poison Mouth", "Decomposition", "World on Fire"), e mantém-se num alinhamento que tanto pode funcionar como banda sonora de um filme pós-apocalíptico como de algumas realidades de um 2021 confinado. O cinema de David Lynch ou John Carpenter também não estará distante destes cenários nascidos de um contraste de darkwave com acessos drone ou mesmo noise, entre ecos das paisagens caóticas de uns Ministry ou Nine Inch Nails - e da discografia de The Soft Moon, claro, da qual alguns momentos não se afastam assim tanto.

Embora não surja acompanhado de um filme, o disco foi antecedido por três videoclips, todos realizados pelo músico, que podem ser encarados como peças de uma instalação imaginária que sublinha esta visão opressiva e visceral. E também deixam uma pergunta: haverá sequela a caminho?

Das ilhas britânicas para as pistas de dança mundiais

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Através do blog FeelMyBicep, criado em 2009, Andrew Ferguson e Matthew McBriar começaram a partilhar com o mundo a sua paixão pela música de dança, ao tirarem do baú e remisturarem pérolas da house de Chicago, do techno de Detroit ou do Italo disco, numa ideia que se expandiu a DJ sets, festas e até ao surgimento de uma editora.

A história não ficou por aí e a visibilidade da dupla de Belfast, entretanto denominada BICEP, foi crescendo através de vários temas e EPs originais, ao ponto de em 2017 o álbum de estreia do projecto, homónimo, ter sido editado pela reputada Ninja Tune, que volta a ser a etiqueta do sucessor.

"ISLES" chega já esta sexta-feira, 22 de Janeiro, e as primeiras amostras continuam a mover-se entre heranças do breakbeat, do UK garage, de domínios ambient ou até do trance, com os anos 90 a revelarem-se mais uma vez os mais inspiradores sem eclipsarem uma identidade em consolidação.

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Entre a euforia e a melancolia, a música dos BICEP pode facilmente ser abraçada por adeptos dos Orbital, Aphex Twin ou Four Tet (que já remisturou um tema do duo), mas boa parte dos novos singles até remete mais para The Future Sound of London, outra referência (algo esquecida) da música de dança britânica de há quatro décadas.

A aproximação aos autores de clássicos como "Papua New Ginea" deve-se sobretudo à carga tribal e espiritual dos samples vocais de três dos quatro singles de avanço, "ATLAS", "APRICOTS" e "SUNDIAL", que cruzam a linguagem das pistas com influências da música tradicional da Europa de Leste, do Médio Oriente ou da Índia - alguns dos principais pontos de partida da dupla para o novo disco.

"SAKU", o outro tema que abre caminho para "Isles", bebe de águas distintas, de sabor R&B - e não destoaria ao lado dos AlunaGeorge ou dos Disclosure ("You & Me" até foi alvo das manobras dos irlandeses). Parece vir aí um dos primeiros álbuns do ano a ter por perto...

Casados de fresco (numa série refrescante)

As histórias de super-heróis não têm de ser todas iguais. Mas se na banda desenhada isso já era claro, na maioria das adaptações ao cinema e TV a rotina parecia estar instalada. Aplauda-se, então, a estreia de "WANDAVISION", a primeira série da Marvel no Disney+ e das apostas mais refrescantes desse universo nos ecrãs.

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Não há pirotecnia ensurdecedora, não há vilões facilmente identificáveis, não há sequer combates, muito menos batalhas sem fim à vista. Nos dois primeiros episódios da minissérie protagonizada pela Feiticeira Escarlate e o andróide Visão, casal de super-heróis dos Vingadores, há antes a pacatez dos subúrbios norte-americanos captados como nas sitcoms dos anos 50 e 60 - incluindo o formato de imagem 4:3, a fotografia a preto e branco (apesar de algumas intromissões-chave de vermelho) e risos do público a pontuar os supostos gags.

"E agora algo completamente diferente", diziam os Monty Python, e a Marvel parece ter seguido esse princípio em "WANDAVISION"... ou pelo menos no arranque da saga de nove capítulos que marca a primeira de várias estreias do MCU (Universo Cinematográfico Marvel) no Disney+. E assinala também a Fase 4 de um plano interrompido pelos danos colaterais da COVID-19, que levou à ausência de novas aventuras de super-heróis da editora no cinema e na TV no último ano.

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A espera foi recompensada com um inesperado mundo novo que parece dever mais a "Pleasantville - Viagem Ao Passado", "The Truman Show: A Vida em Directo" ou algumas realidades de "A Quinta Dimensão" do que aos filmes que contaram com as aparições anteriores do casal protagonista. De resto, a Feiticeira Escarlate e Visão nunca foram bem aproveitados nessas apostas cinematográficas ao lado dos Vingadores, nas quais os superpoderes valeram mais do que as personalidades. E o mesmo pode dizer-se de Elizabeth Olsen e Paul Bettany, actores desperdiçados em sequências de acção que nunca permitiam grandes provas de talento interpretativo.

Além da mudança estética e de contexto, "WANDAVISION" marca pontos por permitir que a dupla tenha espaço para experimentar um registo diferente enquanto revela novas facetas das suas personagens, surgidas entre as muitas cenas de humor físico ou o misto de ironia e inquietação que se vai impondo na aparente calmaria suburbana. 

Olsen e Bettany entregam-se ao burlesco com um à vontade que dá logo um capital de simpatia considerável a este arranque, empenho reforçado por secundários como Kathryn Hahn, perfeita no papel de vizinha pespineta. Ao elenco escolhido a dedo junta-se uma direcção artística que sublinha a vénia às sitcoms norte-americanas clássicas, com vários detalhes deliciosos - da publicidade que surge a meio de cada episódio a um genérico de animação com uma canção original, pastiche de "Casei com uma Feiticeira".

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Em vez da adaptação de histórias da BD a papel químico, "WANDAVISION" permite-se explorar território desconhecido e tanto a sua criadora, Jac Schaeffer (autora de "TiMER", comédia pouco vista), como o realizador, Matt Shakman ("A Guerra dos Tronos", "The Great", "Fargo"), parecem saber até onde podem ir sem alienar fãs nem novos espectadores.

É certo que não faltam easter eggs sobre a mitologia da Marvel, já enumerados online por muitos adeptos acérrimos, e que os eventos de alguns filmes são determinantes para este novo ponto de partida (Visão morreu em "Vingadores: Endgame", a Feiticeira Escarlate voltou depois de ter sido "apagada" por Thanos e estará a lidar com esse trauma), mas quem tiver aqui a sua aproximação inicial ao MCU não estará mais perdido do que um espectador familiarizado. Mesmo que não reconheça a sigla S.W.O.R.D., organização que surge no final do primeiro episódio a vigiar esta história dentro de uma história...

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