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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Nome limpo, som sujo

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Um dos álbuns de estreia mais aguardados da temporada chega esta sexta-feira, 2 de Abril, e sucede a dois EPs que foram tornando os DRY CLEANING uma esperança particularmente intrigante do novo rock britânico.

Editado pela quase sempre certeira 4AD e produzido por John Parish, cúmplice habitual de PJ Harvey, "New Long Leg" começou por ser apresentado por "Scratchcard Lanyard" e "Strong Feelings", singles que seguiram a via pós-punk dominante em "Sweet Princess" (2018) e "Boundary Road Snacks and Drinks" (2019).

"UNSMART LADY", a terceira amostra do disco, desvia a música do quarteto londrino para terrenos mais próximos do grunge e de um rock em tempos dito alternativo, com uma viragem para inícios dos anos 90 que também era sugerida em alguns momentos dos EPs. Mantém-se o tom sardónico e distante da vocalista, Florence Shaw, e a garra e sujidade instrumentais que, mais do que ouvir o álbum, pedem para conhecer as novas canções num palco. O videoclip deixa a aproximação possível por agora, com a actuação do grupo num espaço condizente com o seu nome:

Chegar, ver e vencer

Mais uma série de super-heróis? É verdade, mas há bons motivos para não deixar passar "INVINCIBLE", cujos três primeiros episódios já chegaram ao Amazon Prime Video - e com direito a uma viragem de tom desconcertante logo no capítulo inicial.

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Depois de "The Walking Dead" e "Outcast", há mais uma saga de Robert Kirkman a saltar da BD para o pequeno ecrã. Editada pela Image Comics entre 2003 e 2018, a revista "INVINCIBLE" durou 144 edições e contou a história de um adolescente norte-americano que tem o fardo de ser o único filho do maior super-herói do planeta. Ao longo de 15 anos, Kirkman acompanhou a entrada na idade adulta do protagonista, Mark Grayson, e moldou um universo complexo e personalizado, que partiu dos códigos das aventuras de super-heróis para os desconstruir aos poucos - enquanto se desviou de um tom ligeiro para cenários mais negros.

Encerrada a saga na BD (também aí a demarcar-se das cronologias intermináveis da Marvel ou da DC), "INVINCIBLE" ganha nova vida numa série de animação, para já através de uma primeira temporada de oito episódios. Animação para adultos, entenda-se, embora o contacto inicial possa levar ao engano, tanto pelo estilo visual adoptado (a lembrar adaptações para toda a família) como pela história coming of age num ambiente de liceu que ocupa grande parte do primeiro episódio.

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Admita-se que a animação podia ser mais sofisticada e inventiva, do desenho das personagens aos cenários, sobretudo quando Cory Walker, artista que criou este universo com Kirkman na BD, também está na equipa criativa da série. Mas se "INVINCIBLE" não impressiona especialmente nesse aspecto, tem outros trunfos que a ajudam a ganhar a aposta em episódios mais longos do que os 30 minutos habituais em séries animadas.

Os primeiros capítulos são muito bons a apresentar o mundo de Mark, do núcleo familiar ao escolar, passando pela descoberta dos seus superpoderes e pelo contacto com outras pessoas com capacidades especiais, de super-heróis a supervilões. As vozes das personagens ajudam, com Steven Yeun, J.K. Simmons, Sandra Oh, Zachary Quinto, John Hamm ou Seth Rogen (que também é produtor executivo) entre os actores convocados. E se por um lado há aqui muito de reconhecível - os dilemas juvenis lembram os de Peter Parker/Homem-Aranha, as origens do pai devem muito ao Super-Homem -, há tanto ou mais de subversivo, sem que "INVINCIBLE" deixe de ser uma carta de amor ao género (não se notam, por exemplo, sinais do cinismo de "Watchmen").

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Os minutos finais do primeiro episódio prometem tirar o tapete debaixo dos pés aos espectadores que nunca tenham lido a saga, e mesmo os que leram talvez fiquem surpreendidos ao verem que esse momento decisivo chegou tão cedo. Na BD, a tensão foi construída de forma gradual, com os primeiros números a adoptarem um tom mais bem humorado. Já a série diz logo ao que vem e faz conviver um relato quase inocente com um disparo repentino de ultraviolência, mantendo uma história com coração e sentido lúdico - e Kirkman mostra mão segura em todas as vertentes, nunca forçando a nota nesse balanço.

Depois de "The Boys" ter mergulhado no lado negro do super-heroísmo (ou do poder em geral), curiosamente também com uma versão muito livre da Liga da Justiça no centro da trama, o Amazon Prime Video abre a porta a outro universo que foi fértil na BD e tem tudo para correr bem na TV. Por agora, é das estreias mais empolgantes e carismáticas do trimestre...

Os três primeiros episódios de "INVINCIBLE" estão disponível no Amazon Prime Video desde 26 de Março. A plataforma de streaming estreia novos episódios todas as sextas-feiras.

Uma cura com vista para o mar

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Há certamente terapias piores do que "THE CURE", a nova canção de FRAGRANCE., projecto do francês Matthieu Roche. Depois do álbum de estreia "Now That I'm Real" (2019), o registo sucessor, ainda sem título, deverá chegar nos próximos meses e, a julgar por este single, parece manter-se fiel a uma pop electrónica etérea e dançável - embora "Crisis", tema revelado no ano passado, tenha testado uma faceta mais densa.

Se no primeiro disco Roche colaborou com Hante e Maya Postepski (AKA Princess Century, ex-baterista dos Austra e co-fundadora dos TR/ST), agora convidou LULANNIE, alter ego musical de Jennifer Medina, artista venezuelana radicada nos EUA, para cantar com ele neste avanço inicial do segundo - e partilhou a produção com Sophia Hamadi (dos Opale).

Tal como o tema alterna entre o inglês e o francês, o videoclip, realizado por Madina, acompanha a dupla entre vários locais da Bretanha, de Paris e de Nova Iorque, quase sempre à beira-mar - cenário a que a letra também alude e apropriado para uma das canções mais bonitas e refrescantes dos últimos dias:

Mulheres de negro

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E que tal repescar (ou descobrir) um dos bons discos de 2020? "Shabrang", um distinto segundo álbum, confirmou o voto de confiança em SEVDALIZA depois de "Ison" (2017) e de vários EPs, com um alinhamento que alargou substancialmente os horizontes sonoros e temáticos da irani-holandesa.

"DARKEST HOUR" foi um dos primeiros singles e também das faixas que cruzaram atmosferas, ao passar de um arranque solene, ao piano, para um embalo dançável guiado por sintetizadores - que juntaram a darkwave à lista de influências do disco, pista novamente explorada em "Rhode".

Mas embora tenha sido das amostras iniciais, a canção ainda não contava com um videoclip. Esse chegou esta semana e foi filmado apenas com webcams e telemóveis, partindo de imagens de mulheres de várias partes do mundo (editadas por Sarah Benjamin e An Simin), a propósito do Mês da História da Mulher, assinalado em Março. E chegou em boa hora, das menos negras para o percurso criativo da cantautora:

Uma canção (e uma actuação) a ter debaixo de olho

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É um dos regressos da semana: os tUnE-yArDs editam o novo álbum esta sexta-feira, 26 de Março, e os primeiros singles soam tão idiossincráticos como os quatro discos anteriores da dupla californiana.

"hold yourself" e "nowhere, man" já tinham sido revelados nos últimos meses e a estes junta-se agora um terceiro avanço para "Sketchy". Inspirado pela experiência do confinamento, "HYPNOTIZED" arranca de forma lacónica, guiado pela percussão, mas ganha fulgor num refrão que faz deste um dos temas mais orelhudos da banda de Merrill Garbus e Nate Brenner.

A vocalista continua em óptima forma e a instrumentação, a aliar piano, baixo ou sintetizadores à bateria que marca o ritmo, volta a conjugar sensibilidade pop e heranças do jazz. O videoclip propõe uma viagem de comboio dentro de casa (o confinamento, lá está), mas o novo single também já se ouviu em palco: a estreia fez-se no programa de Jimmy Kimmel e fez-se em grande, com Garbus e Brenner acompanhados de outros músicos, outras vozes e... uma marioneta. Actuação hipnótica, confere, embora um pouco menos excêntrica do que a da passagem recente pelo talk show de Stephen Colbert:

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