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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

OK zoomer

A nova série estreada na HBO Portugal promete um olhar incisivo e autêntico sobre a geração Z, ao qual não falta diversidade nem uma adolescente entre os autores. Mas os primeiros episódios de "GENERA+ION" não vão muito além de uma variação menor de retratos juvenis já vistos - alguns até na mesma plataforma de streaming.

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A ideia para "GENERA+ION" partiu de Zelda Barnz, argumentista de 19 anos que convenceu os pais a apostarem numa comédia dramática centrada em jovens nascidos no início deste milénio. Daniel Barnz, realizador de "Beastly - O Feitiço do Amor" ou "Cake - Um Sopro de Vida", acabou por ser o outro criador da série, dirigindo também alguns dos oito episódios da primeira temporada, com Ben Barnz a juntar-se enquanto produtor executivo. E ficaria quase todo em família, não fosse o contributo de Lena Dunham. A autora de "Girls" é outra das produtoras executivas do projecto da HBO Max e a sua voz também é evidente num relato que acompanha uma nova geração norte-americana.

Ao contrário de "Girls", ambientada em Nova Iorque, "GENERA+ION" tem epicentro narrativo num liceu de Los Angeles, mas mantém a faceta autocentrada e muitas vezes exasperante dos seus protagonistas. É, no entanto, mais abrangente no universo de figuras que segue, com um grupo de personagens principais maioritariamente LGBTQI+ e de origens sociais e culturais distintas. Só que os primeiros três episódios, estreados na passada sexta-feira, não tiram tanto partido dessa diversidade como poderiam, com o argumento a confundir quase sempre rasgo criativo com irreverência e provocação forçadas.

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O subenredo de uma adolescente grávida que entra em trabalho de parto numa casa de banho pública vai sendo desenvolvido, aos poucos, no início dos primeiros episódios, junta três das personagens mais caricaturais da série e, apesar da situação aflitiva, tem um tom mais sarcástico do que dramático. O que não é necessariamente uma má opção, mas aqui torna um cenário-limite em mais um momento de inconsequência narrativa, limitando-se a dar o mote a um jogo de avanços e recuos temporais - feitos com alguma habilidade e sentido lúdico, embora não acrescentem muito ao que "GENERA+ION" tem a dizer.

Se as três amigas que participam nessa introdução nunca chegam a ganhar grande densidade, a série mostra-se mais promissora ao conseguir explorar a vida interior de outros protagonistas. Chester, um dos mais intrigantes, tem felizmente mais tempo de antena e desvia-se do lugar comum do adolescente queer marginalizado. Pelo contrário: apesar de resistir a uma lógica de identidade de género binária, dos códigos de vestuário aos comportamentais, é dos estudantes mais populares e respeitados do liceu, sendo ainda o melhor atleta da equipa de pólo aquático. Interpretado com convicção por Justice Smith, resulta talvez no desempenho mais forte do actor que já tinha começado muito bem na série "The Get Down" e testou outros registos em blockbusters como "Mundo Jurássico: Reino Caído" ou "Pokémon Detective Pikachu".

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Greta (Haley Sanchez), uma adolescente latino-americana que se debate com a sua orientação sexual enquanto a mãe foi deportada, é outra figura que deixa alguma curiosidade em torno dos próximos episódios, até por ser das poucas que não insistem em disparar farpas. E traz uma bem-vinda gravidade a um argumento que ameaça esgotar-se na obsessão por sexo, charros e redes sociais, sem dizer nada sobre esses temas que outras séries não tenham dito antes e melhor.

"GENERA+ION" vai ter de fazer mais para se elevar acima da concorrência recente, muita também disponível na HBO Portugal. Embora não se leve tão a sério como "Euphoria", não está assim tão longe do drama protagonizado por Zendaya, altos e baixos incluídos. E fica, para já, muito aquém do patamar da infelizmente menos vista "We Are Who We Are", que levou a descoberta sexual e conflitos geracionais para outro nível dramático e estético. "Industry", na qual Lena Dunham também colaborou, trocou a adolescência pelos primeiros anos da idade adulta com mais foco e personalidade. De resto, e indo atrás alguns anos, nada do que aqui se vê será muito transgressor para gerações que viram "Skins", seja a versão britânica ou americana (já para não dizer "Kids", de Larry Clark, no grande ecrã). Ou se calhar só precisamos de lhe dar algum tempo para crescer...

Os três primeiros episódios de "GENERA+ION" estão disponíveis na HBO Portugal desde 11 de Março. A plataforma de streaming estreia novos episódios todas as quintas-feiras.

Música colorida para um quarto escuro

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Com um terceiro álbum a caminho e agendado já para Abril, os NOPORN começaram por revisitar os anteriores através do regresso aos palcos possível no primeiro trimestre de 2021. Enquanto não chega "SIM", a dupla brasileira apostou em três actuações online caseiras em Fevereiro, transmitidas em directo para celebrar o Carnaval, nas quais repescou canções do álbum de estreia homónimo, de 2006, e de "BOCA", de 2016.

Já o showcase da passada sexta-feira, 12 de Março, foi o primeiro de mais uma série de três nas próximas semanas, todos com premissas distintas. O arranque fez-se com o espectáculo LADO B, que junta temas mais obscuros e há muito pedidos por alguns fãs do projecto da vocalista Liana Padilha e do produtor Lucas Freire.

"Ctrl + Alt + Del", "Ex Culpa", "Canibalismo", "Fumaça" (originalmente partilhada com os conterrâneos Tetine) e "Gang Bang" compõem um alinhamento pensado para as pistas, embora a pandemia tenha limitado a festa. Mas esta música de dança insinuante, com ecos do furor electroclash e letras sem travões do politicamente correcto, ainda tem cor e luz suficientes para iluminar um quarto escuro em noites de confinamento.

O efeito da bola de espelhos é tão ou mais forte em "Geleia de Morango", o novo single, que não está incluído nesta actuação (embora não deva faltar numa próxima) e desvia o hedonismo dos NOPORN para os ritmos da electrónica baleárica de inícios dos anos 90, cruzados com flashes da noite de São Paulo. O próximo avanço do terceiro álbum, "Pérola Suja", vai ser revelado ainda este mês e também bebe em memórias boémias e paulistanas da dupla. Mas enquanto não chega, há tempo para ir (re)descobrindo os lados B, tanto na versão original como no update ao vivo em 2021:

Os Daft Punk acabaram, mas ainda podemos celebrar os 20 anos de "Discovery"

Depois de terem feito o trabalho de casa na investigação da música de dança, os DAFT PUNK atiraram-se à descoberta da sua sensibilidade pop. "DISCOVERY", o segundo álbum da dupla francesa, faz 20 anos e continua a honrar o apelo de "One More Time": "celebrate and dance so free".

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Poucas semanas após o anúncio da separação do projecto de Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter, é altura de celebrar o aniversário de um disco que levou mais além o impacto e popularidade já alcançados com "Homework" (1997), estreia decisiva para que se falasse de um "french touch" na música electrónica francesa dos anos 90. A par dos Air, os DAFT PUNK foram os maiores embaixadores dessa vaga e os que melhor souberam construir um percurso que aliou fama global e aplauso crítico (mesmo que nem sempre consensual). E "DISCOVERY" garantiu que a memória da obra da dupla não se esgotasse num antecessor de referência enquanto apontou numa direcção inesperada.

Editado dentro de portas a 26 de Fevereiro e internacionalmente a 12 de Março de 2001, foi o álbum que levou a música dos dois produtores a outros públicos, partindo de um alinhamento sem complexos em tentar chegar ao maior número de ouvintes e não apenas a um nicho atento às movimentações na pista de dança. Um single de apresentação como "One More Time" lembrava mais "Believe", de Cher, êxito ubíquo surgido três anos antes, do que os singles ou tesouros escondidos de "Homework". O recurso ao autotune não terá sido alheio à semelhança, com o processamento vocal desse tema a manter-se num disco fiel à tradição de vozes robóticas de uma dupla que nesta fase pôs os icónicos capacetes pela primeira vez - e não os tiraria ao longo da carreira.

Mais melódico do que "Homework", mais interessado em explorar o formato canção e sem nada tão agreste como "Rollin' & Scratchin'" ou "Rock'n Roll" no alinhamento, "DISCOVERY" teve inspiração directa nos tempos de infância dos seus autores, entre os anos 70 e 80, e na música, séries e filmes que os rodeavam nessa altura. O ponto de partida foi mesmo tentar reproduzir, ou pelo menos homenagear, a inocência e sentido lúdico de um olhar imune a ditames do suposto bom gosto, com o prazer puro e imediato a submeter-se a rótulos ou juízos de valor.

Hoje considerado um clássico, "One More Time" preparou os fãs para um disco de que provavelmente não estariam à espera e deixou suspeitas de cedência comercial. Mas o resultado mostrou-se mais versátil do que o antecessor e até com um alinhamento mais equilibrado. A celebração de "DISCOVERY" quase nunca esmorece ao longo de uma hora e 14 faixas que cruzam heranças house, disco, electrofunk, r&b, new wave ou até rock FM (alguns riffs de guitarra parecem pilhados aos Def Leppard ou Van Halen), numa festa que, ao contrário da estreia, inclui convidados: os norte-americanos DJ Sneak, Romanthony e Todd Edwards, três dos heróis musicais da dupla.

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Leiji Matsumoto, outro ídolo de Homem-Christo e Bangalter, também se revelou decisivo nesta fase. O artista japonês que criou "Space Pirate Captain Harlock", uma das sagas manga que marcaram a dupla, participou na produção de "Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem", anime que narrou uma aventura espacial ao som das canções de "DISCOVERY" - e da qual saíram os videoclips de todos os singles do álbum. O filme levou mais longe a viagem à infância em moldes retrofuturistas e ainda é dos contributos mais fortes dos DAFT PUNK para a memória colectiva, afirmando-os como uma banda particularmente hábil na aliança de música e imagem (um espectáculo como o da digressão Alive 2007 elevaria a parada, alguns anos depois, ao ajudar a que os DJs ganhassem estatuto de estrelas rock).

Além de ter sido o primeiro single, "One More Time" garante uma entrada no álbum pela porta grande, numa sucessão de êxitos que inclui a guitarrada do instrumental "Aerodynamic", a falsa ingenuidade da synth-pop de "Digital Love" ou o portento assente em vocoders "Harder, Better, Faster, Stronger", cuja popularidade disparou quando foi samplado por Kanye West em "Stronger", já em 2007. Da segunda metade do alinhamento, a maior pérola será "Veridis Quo", que dispensa a voz e é a canção mais melancólica, a sugerir que os DAFT PUNK já reconheciam o legado euro disco do italiano Giorgio Moroder antes do tributo assumido de "Giorgio by Moroder", faixa do quarto álbum, "Random Access Memories" (2013).

Outro raro episódio contemplativo, "Something About Us" visita territórios próximos daqueles que os Air explorariam no mesmo ano, em "10 000 Hz Legend" (mais um segundo álbum a propor algo completamente diferente), enquanto acalma os ânimos despertados por "Crescendolls", "Superheroes" ou "High Life". E nesses e noutros temas, "DISCOVERY" abriu caminho para uma nova geração de música electrónica dançável francesa (e uma geração internacional EDM a seguir), dos Justice a Vitalic, de SebastiAn aos Digitalism ou ainda à banda sonora de "Drive - Risco Duplo" (2011), assinada por Kavinsky, que talvez não tivesse existido sem a música que acompanhou "Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem". Nada mal para o que começou como um acesso de nostalgia...

Mãe há só uma

Embora conte com mais de dez filmes no currículo, o japonês Tatsushi Ohmori será pouco ou nada familiar para os espectadores portugueses. Uma falha agora colmatada graças à Netflix, que acolheu "LAÇO MATERNO", o seu novo drama - e um dos mais secos e angustiantes dos últimos tempos.

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Estudo de duas personagens unidas por uma relação tóxica, "LAÇO MATERNO" é um olhar sobre a manipulação e a codependência ancorado numa mãe que vive à margem da família e da sociedade, sem trabalhar nem ter residência fixa, e que arrasta consigo o filho para uma experiência de alienação sem que se vislumbre uma luz ao fundo do túnel.

Mãe há só uma, mas para o pequeno Shuei (que o filme acompanha da infância à adolescência), além da mãe não há mesmo mais nada - pelo menos até ao nascimento da irmã, que o leva a reavaliar uma rotina de abandono e precariedade.

Filme duro e implacável, "LAÇO MATERNO" deixa um relato sobre aqueles para quem o sistema prefere não olhar ou que não consegue salvar ainda que tente - a segurança social entra em cena a certa altura -, deixando perpetuar uma situação de abusos físicos e psicológicos sobre quem não sabe defender-se deles.

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Ohmori pode ser repetitivo ao passar essa mensagem, e talvez não precisasse de mais de duas horas para a transmitir - sobretudo quando o ritmo moroso nem sempre ajuda. Mas também é coerente ao não poupar os protagonistas nem os espectadores, numa narrativa com tanto de inquietante como de exasperante. O mais assustador, no entanto, é saber que parte de uma história verídica, num caso em que a realidade provavelmente ultrapassa a ficção.

Felizmente, o resultado, mesmo com desequilíbrios, mantém-se longe da linguagem de um telefilme de pretensões sociológicas: o realizador acompanha esta mãe em roda livre, na sua frieza e negligência, sem procurar explicações óbvias (e muito menos reconfortantes) de causa e efeito. Uma opção valorizada por Masami Nagasawa, num desempenho implosivo e certeiro, e pelo estreante Daiken Okudaira, também muito bom a traduzir a vulnerabilidade do filho na adolescência. Não chegará para que "LAÇO MATERNO" atinja o patamar dramático e formal de "Ninguém Sabe" (2004), do conterrâneo Hirokazu Koreeda, mas é um descendente a ter em conta dessa crónica familiar memorável.

3/5