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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Ver (e ouvir) para querer

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A darkwave, a EBM, o techno de contornos industriais e o lado mais negro da pop electrónica em geral não são mundos estranhos para Zoè ZANIAS, que os tem percorrido nos últimos dez anos como vocalista dos Linea Aspera e dos Keluar. Em 2014, a australiana radicada em Berlim estreou-se a solo com "23.10.14", o primeiro de vários EPs, e em 2018 editou "Into the All", álbum que vai ter sucessor daqui a poucos dias.

"Unearthed" chega já a 6 de Setembro e os singles iniciais colocam-no como um lançamento a juntar aos discos de cabeceira da rentrée, pelo menos para quem se interessar por música algures entre Grimes e os Crystal Castles, os Bicep e os Orbital - ou, claro, pelas bandas através das quais esta voz se deu a conhecer.

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Criado durante o confinamento, o álbum partiu de uma exploração das multiplicidades das ligações humanas e tem samples vocais, gravações de sons da natureza ou instrumentos acústicos sintetizados entre os alicerces de dez novas canções inspiradas pelo pós-punk ou italo disco.

As enérgicas "Untethered" e "Unraveled" garantiram um bom arranque, mas o pico de intensidade até agora dá-se em "UNSEEN", uma das grandes canções de 2021 e das mais recomendáveis da discografia de ZANIAS. Mais próxima de alguma música de dança britânica de princípios dos anos 90, é um single simultaneamente eufórico e etéreo, com heranças trance e potencial raver. O videoclip desvia-se dos cenários naturais dos anteriores para se focar no rosto da cantora, sujeito a dezenas de filtros virtuais, acompanhamento apropriado para um tema que nasceu da perpepção de experiências partilhadas nas redes... e vale bem a partilha.

O amor acontece (e inspira canções de fé e devoção)

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"What comprises all this joy I feel and where was it before?", pergunta Mackenzie Scott, mais conhecida como TORRES, em "Hug From a Dinosaur", uma das canções do seu novo álbum, "THIRSTIER". Se no disco de estreia homónimo, editado em 2013, a norte-americana partia da folk, da country e do rock de linhagem indie para se debruçar sobre mergulhos interiores (crises de fé incluídas), o quinto longa-duração nasce de um estado de alma bem diferente, e com reflexos óbvios tanto a nível lírico como sonoro.

Tal como o registo anterior, "Silver Tongue" (2020), o mais recente conjunto de canções deve muito ao relacionamento da cantautora com a artista visual Jenna Gribbon. Mas tem uma diferença decisiva: substitui as inquietações dominantes nesse alinhamento por uma estabilidade emocional inédita nesta discografia, o que torna "THIRSTIER" uma ode inesperada ao amor e à cumplicidade.

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As primeiras audições dão conta de um álbum que contraria o velho clichê de que só o artista sofredor é capaz de criar uma obra inspirada. Antes pelo contrário: a alegria de uma vida a dois é orgulhosamente partilhada num dos títulos mais consistentes de TORRES, e também dos mais expansivos, explosivos e imediatos.

"Don't Go Puttin Wishes in My Head", o primeiro single, foi uma viragem que poucos esperariam para um hino de estádio na linha de uns The Killers (da melhor colheita), adaptado com convicção à linguagem de Mackenzie Scott. E essa grandiosidade prolonga-se por quase todo o disco, muito por culpa de uma produção que tanto dá espaço ao eléctrico como ao electrónico (este a vincar a segunda metade do alinhamento), dividida entre a autora, Rob Ellis e Peter Miles.

Descendências grunge e até industriais ("Keep the Devil Out", num final abrasivo, não anda longe dos Nine Inch Nails), já sugeridas noutros discos, têm carta branca para se disseminarem em canções quase sempre musculadas e orelhudas ("Constant Tomorrowland" e "Big Leap" são as excepções, elos de ligação com a folk meditativa de registos anteriores). A transição é especialmente brilhante em pérolas como "Drive Me", gritada a plenos pulmões entre riffs efervescentes, ou "Kiss the Corners" e "Hand in the Hair", com uma presença mais notória de sintetizadores.

Qualquer semelhança com algumas vozes ilustres da classe de 90 não será pura coincidência - de PJ Harvey a Liz Phair, dos Garbage às Breeders -, mas TORRES percorre aqui território mais personalizado do que derivativo. "The more of you I drink, the thirstier I get", entoa apaixonadamente na faixa-título, outro ponto alto no qual a devoção e a obsessão se confundem. Quem procurar um dos testemunhos rock mais poderosos dos últimos tempos fará bem em beber desta água...

Um regresso para abanar as estruturas

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Nate Amos e Rachel Brown preparam o regresso aos discos enquanto WATER FROM YOUR EYES já no final do mês. "Structure", o quarto álbum da dupla formada em Chicago e residente em Brooklyn, chega a 27 de Agosto e não mostra sinais de fixar o projecto num só género.

"Quotation", o primeiro single, assentou em indietronica atmosférica. "When You're Around", o segundo, optou por um formato de canção mais clássico, com saudades de melodias dos anos 60. "TRACK FIVE", o terceiro, volta a sugerir outros azimutes e é de longe o avanço mais propulsivo e promissor, além de um dos temas mais desafiantes do percurso do duo.

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Descrita por Brown como uma canção "simultaneamente melancólica e descontrolada", parte de um registo contido, com a vocalista a aproximar-se da folk, antes de se transformar num colosso de ritmo e distorção, numa viragem de perfil entre o industrial e a EBM - mas sem que a voz abandone o embalo sereno do arranque. 

A fusão nem será de estranhar vinda de um grupo que começou por se inspirar nos New Order ou nos LCD Soundsystem e chega ao novo disco depois de ter testado as águas da synthpop, do dance punk, da new wave ou da dream pop. Desta vez, os guias espirituais foram sobretudo "Climate of Hunter", o único álbum de Scott Walker nascido nos anos 80, assim como a obra do pintor Mark Rothko e... filmes que nunca existiram, avança a dupla. Se o novo single for representativo do que aí vem, pode estar aqui uma das bandas sonoras mais convidativas deste Verão:

Viagem alucinante

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O techno como religião ou salvação? É uma leitura possível para o videoclip de "VESTALE", o novo single de IRÈNE DRÉSEL e um dos bons motivos para descobrir o seu segundo álbum, "Kinky Dogma".

Depois do aquecimento de "Bienvenue", a aposta mais recente adensa o tom hipnótico já habitual na música da compositora, produtora e DJ francesa e vale-se de um flirt entre órgão, sinos ou percussão sintetizados e prontos a alimentar uma experiência celebratória.

Enquanto o regresso às pistas de dança se vai fazendo cautelosamente, fica o encontro de comunidades do videoclip, quase uma curta-metragem alucinada (assinada por Gilles Degivry) que parece partir da revisão de ideais flower power para um apelo à tolerância. Quem aderir, não deverá ficar desapontado com o alinhamento do novo disco, um sucessor mais duro e de perfil after hours do intrigante "Hyper Cristal" (2019).

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