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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Ainda há alegria (e energia) nestas guitarras

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"Into the Blue", o quinto álbum dos THE JOY FORMIDABLE, chegou dez anos depois do primeiro, "The Big Roar" (2011), e mostra uma banda que não só não perdeu o entusiasmo como soa mais explosiva do que nunca.

Se nos discos anteriores os galeses seguiam de forma competente, embora sem muitos sinais particulares, por uma estrada entre a dream pop, o shoegaze ou o rock de perfil indie - às vezes não muito longe dos Howling Bells, Blood Red Shoes ou Wolf Alice -, o novo tem provavelmente o alinhamento mais coeso deste percurso e das suas canções mais estimulantes, algumas com uma garra mais habitualmente associada a quem está a começar do que a um grupo já com uma obra extensa q.b. (além de álbuns, o trio editou vários EPs).

Temas como "Chimes", "Gotta Feed My Dog" ou "Bring It to the Front" asseguram a pujança de um álbum de guitarras que, mesmo não querendo inventar nada, ajuda a relembrar que o rock está longe de ter os dias contados enquanto houver quem o defenda assim.

"Somewhere New" é a excepção que confirma a regra, num (bem-vindo) episódio acústico, mais próximo da folk, e com o baixista Rhydian Dafydd a assumir também o papel de vocalista em vez da habitual Rhiannon Bryan. Mas é ela quem dá voz ao grande momento do disco (e dos mais notáveis desta discografia), em "SEVIER", o quinto e último single, particularmente musculado. É uma canção que entra logo a matar e segue em crescendo, entre efeitos de guitarra e bateria insistente, ritmo propulsivo e vertiginoso, com um frenesim desmesurado a pedir um palco - ou então um lago, cenário de um videoclip em modo lo-fi:

Alemanha, ano 1931

Apesar de contar com uma estreia discreta e em poucas salas, "FABIAN: GOING TO THE DOGS" é das boas surpresas cinematográficas da recta final de 2021 e chega de onde menos se espera: do veterano alemão Dominik Graf, cuja carreira se fez sobretudo no pequeno ecrã.

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"Irmãs Amadas" (2014), o último (e único?) título de Dominik Graf a passar pelas salas portuguesas antes de "FABIAN: GOING TO THE DOGS", não despertava grande curiosidade em torno da obra do realizador germânico que tem filmado sobretudo para televisão desde meados dos anos 70. Pelo contrário, esgotava-se num triângulo amoroso folhetinesco que pouco ou nada se distinguia de tantos dramas de época convencionais ambientados nos bastidores da aristocracia - e cujas qualidades se resumem aos valores de produção da reconstituição histórica e à competência do elenco.

No novo filme, o alemão volta a propor uma viagem ao passado, mais uma vez no seu país, mas as semelhanças com o retrato anterior ficam quase só mesmo por aí. E ainda bem, ou não estivesse aqui um drama que começa por envolver pelo fulgor estético com que adapta o romance homónimo e autobiográfico de Erich Kästner, ancorado maioritariamente na Berlim de inícios dos anos 30 - depois da crise económica de 1929 e antes da chegada ao poder dos nazis.

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Ao longo de quase três horas, o realizador propõe um fresco da então República de Weimar guiado pelas experiências de Jakob Fabian, um aspirante a escritor formado em Literatura mas que ganha a vida como publicitário. Pelo menos até ser despedido, numa viragem que marca a transição da atmosfera agitada, exuberante e bas-fond das primeiras sequências do filme para um relato que vai sendo progressivamente influenciado pelo mal-estar social, sem que Graf se preocupe em ser didáctico com o espectador - antes confia que este esteja a par da conjuntura da época, limitando-se a deixar-lhe pistas da tragédia colectiva dos anos seguintes.

A relação entre o pessoal e o político nasce sobretudo das relações das personagens, em especial através das mulheres com quem o protagonista se cruza - uma amante de ocasião, um amor maior do que a vida - e de um amigo (ainda) mais privilegiado do que ele social e economicamente. 

Não falta ambição a "FABIAN: GOING TO THE DOGS": o realizador parece estar tão decidido a afastar-se do lado tendencialmente académico (ou até televisivo) de muitos filmes de época que aposta numa voracidade formal logo aos primeiros minutos, recorrendo à câmara à mão dominada por planos curtos, juntando-lhe cortes abruptos, split screens, imagens de arquivo a preto e branco, mudanças na dimensão do ecrã ou narrações em off (com mais de um narrador). A colagem experimental, barroca e às vezes delirante chega a lembrar a liberdade estilística do também recente (e injustamente ignorado) "Tesla", de Michael Almereyda, embora Graf seja bem mais comedido nas tentativas de metaficção.

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Se esta linguagem mostra o alemão a atirar talvez demasiadas ideias à parede, arriscando-se a deixar alguns espectadores vencidos pelo cansaço, também torna este um dos filmes mais plasticamente inconformados e até inventivos dos últimos tempos. E felizmente, não fica limitado ao exercício de estilo quando a montagem cinética surge aliada a um estudo de personagens imersivo, que além dos presságios de uma sociedade em queda livre equaciona o preço do amor através do relacionamento que domina a narrativa.

O casal, vivido de forma convincente por Tom Schilling e Saskia Rosendahl, dupla que já tinha contracenado em "Nunca Deixes de Olhar" (2018), de Florian Henckel von Donnersmarck (outro filme a lançar um olhar pouco óbvio sobre um capítulo crítico da história da Alemanha), assegura a força dramática de uma jornada emocional entre o idealismo e o desencanto, servida por diálogos inspirados (e às vezes afiados).

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Além de questionar este amor conjugal em tempos de pré-guerra e desnorte financeiro, "FABIAN: GOING TO THE DOGS" sugere que o livro em que se baseia estava à frente do seu tempo ao também abordar a liberdade sexual - quando se atira à vida luxuriante e hedonista de bares, cabarés e bordéis (alguns de perfil LGBT) - ou à misoginia que limita a carreira de actriz da personagem de Rosendahl (colocando em jogo preocupações que teriam outra projecção décadas depois, com o movimento #MeToo).

Graf passa por estas questões sem subjugar os protagonistas aos temas, mas não é tão desenvolto a gerir a duração do filme. Alguns segmentos, sobretudo da recta final, acusam as quase três horas e fica a dúvida de que todos sejam essenciais para o retrato acidentado de Fabian. Mas será sempre preferível fixar um realizador por um filme desafiante e excessivo, para o melhor e (ocasionalmente) para o pior, do que por um objecto tão domesticado como "Irmãs Amadas" e dramas de época do mesmo filão...

3/5

Uma canção fora da caixa (e do armário)

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Depois da edição do álbum homónimo no ano passado, SHAMIR tem revelado temas novos e algumas versões - de Sharon Van Etten ("DSharpG") e Billie Eilish ("Ocean Eyes"). O inédito mais recente, "GAY AGENDA", volta a apostar na pop directa e electrónica que vincou um dos singles do último disco, "On My Own" (das melhores canções inspiradas pelo confinamento), e chega com algumas das palavras mais combativas e engajadas do norte-americano.

Descrito com um tema "sobre aceitação radical interna e externa", deixa um testemunho contra a homofobia ("You're just stuck in the box that was made for me/ And you're mad I got out and I'm living free") em modo confiante e empoderador ("Don't underestimate the power I keep") disparado por uma voz maleável, sintetizadores da escola industrial e arranjos de cordas.

Produzido por Hollow Comet (dos Strange Ranger), é um dos que deverão fazer parte dos próximos concertos, alguns a abrir actuações de Courtney Barnett e Lucy Dacus. O videoclip, realizado por Jenny He, revela mais uma metamorfose visual:

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