O Verão não correu nada mal às WET LEG, que com o single de estreia se destacaram entre os fenómenos da temporada (e das apostas mais bem sucedidas da Domino Records) ao tomarem de assalto o Spotify, o Youtube ou as redes sociais. Canção orelhuda e trauteável como poucas dos últimos tempos, "Chaise Longue" foi um arranque inesperado para esta dupla da Ilha de Wight que não parece correr o risco de ficar limitada ao estatuto de one hit wonder.
"WET DREAM", o segundo single da banda de Rhian Teasdale e Hester Chambers, é outra confecção certeira descendente da faceta vitaminada do pós-punk, ainda mais curta do que o primeiro avanço (vai pouco além dos dois minutos), que tanto lembra a escola de uns Elastica como a pop garrida de Kate Nash. Os acessos spoken word em tom sardónico também não andam longe dos Dry Cleaning, outra revelação brit do ano, embora o duo aponte as Ronettes, Jane Birkin, Ty Segall ou Björk como principais influências deste desvario contagiante.
O final de um relacionamento amoroso e "Buffalo '66", filme de culto de Vincent Gallo mencionado na letra, abriram caminho para uma canção que, tal como a anterior, tem um videoclip realizado pelo duo - mais uma vez em modo campestre e irreverente. Teasdale e Chambers também se mostram perfeitamente à vontade à frente das câmaras, o que aumenta a curiosidade quanto à sua presença em palco. Felizmente, não falta a muito para as ver por cá: a estreia nacional está confirmada já para Novembro, no próximo Super Bock em Stock, em Lisboa. "Three, two, one/ Let's begin", pois então...
O sexo nunca foi tabu para os GARBAGE. Dos dias iniciais de "Queer" ou "Sleep Together" aos que se seguiram com "Androgyny", "Cherry Lips" ou "Sex Is Not the Enemy", a banda de Shirley Manson já dava voz ao empoderamento feminino e a questões LGBTQIA+ ou de identidade de género muito antes destas terem ganho visibilidade regular em alguma pop de alcance global nos últimos anos.
É natural, por isso, que o olhar sobre a sexualidade também surja no novo álbum de um grupo que esteve à frente do seu tempo nessa discussão e que tenta, mais do que nunca, sintonizar-se com preocupações do presente em "No Gods No Masters". E às vezes até o faz de forma demasiado sublinhada, ou mesmo sisuda, sem a desenvoltura das canções referidas acima, quando se atira a várias questões sociais (a abordagem ao racismo em "Waiting for God" é especialmente gritante, com algumas das letras mais constragedoras do quarteto).
Mas os melhores momentos do disco revelam um arrojo que tinha ficado de fora nos últimos antecessores, comprovável num tema como "ANONYMOUS XXX". Talvez o episódio mais refrescante do alinhamento, surpreende tanto na composição como na instrumentação, ao juntar as guitarras e electrónicas habituais a sopros e percussão. Um embalo simultaneamente calypso e noir com vénia assumida aos Roxy Music e Talking Heads, tempero de um relato sexual a conjugar voyeurismo, obsessão, risco e roleplay - e guiado por uma Shirley Manson em modo sussurrante e dominador.
É facilmente dos singles mais memoráveis (e inesperados) dos GARBAGE em muitos anos e pedia um videoclip com rasgo à altura, o que não chega a acontecer na proposta do chileno Javi Mi Amor (que já tinha assinado os vídeos de "Wolves" e "The Man Who Rule The World"), a apostar numa tentativa de provocação redundante e cansativa. Ainda assim, as alusões pontuais à fase clássica de "I Think I'm Paranoid" são bem-vindas: