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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um super-herói (aliás, dois) no sapatinho

"HAWKEYE - GAVIÃO ARQUEIRO", a nova minissérie do Disney+, centra-se num dos Vingadores menos explorados do Universo Cinematográfico Marvel e aproveita para apresentar a sua eventual sucessora. A química entre Jeremy Renner e Hailee Steinfeld ajuda a ter alguma simpatia pelo arranque desta aventura natalícia.

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Depois de ameaças globais ("WandaVision", "O Falcão e o Soldado do Inverno") e universais ("Loki"), a nova minissérie da Marvel opta por uma escala mais modesta ao ter as ruas de Nova Iorque como campo de batalha, e mesmo aí sem apostar na destruição megalómana vista nos filmes dos Vingadores (tirando um flashback inicial decisivo para a relação dos protagonistas).

Afinal, Hawkeye/Gavião Arqueiro está longe de ser um multimilionário com armadura topo de gama ou um deus asgardiano munido de um martelo incomparável, como aliás é mencionado numa cena desta aventura que parece estar mais em linha com as sagas urbanas da Marvel na Netflix (as hoje quase esquecidas "Demolidor", "Jessica Jones" ou "Luke Cage").

Sem superpoderes, Clint Barton depende apenas do seu arco (e de todo o tipo de flechas que a imaginação permita), o que o leva a ser visto como um Vingador de segunda ou terceira categoria mas também o torna apetecível para contar histórias mais terra a terra.

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Foi isso que aconteceu, de resto, no arco (passe a expressão) da BD criado por Matt Fraction e David Aja, entre 2012 e 2015, no qual Hawkeye/Gavião Arqueiro se tornava protector involuntário de um bairro nova-iorquino em vez de fazer frente a supervilões com planos mirabolantes para conquistar o mundo. Com um cão e sintomas de surdez entre os convidados inesperados, essa saga ainda deu início à parceria entre Barton e Kate Bishop, jovem aspirante a super-heroína que também se faz valer da perícia como arqueira.

Jonathan Igla, o showrunner de "HAWKEYE - GAVIÃO ARQUEIRO" (argumentista de "Mad Men" ou "Masters of Sex", produtor de "Bridgerton"), é um fã assumido dessa fase do Vingador nos comics e os primeiros dois episódios da minissérie deixam a admiração bem explícita, embora a versão televisiva não seja - nem poderia ser - uma adaptação muito fiel, tendo em conta que este Clint Barton é substancialmente diferente da personagem da BD. E se até aqui os filmes não lhe tinham feito justiça (mas não por culpa de Jeremy Renner), entregando-lhe um papel sempre secundário, agora surge como uma figura mais interessante. Até o facto de ser casado e pai de filhos, ao contrário da matriz livre, leve e solta da BD, joga a favor da carga emocional assinalável deste arranque (mais forte em apenas dois episódios do que, por exemplo, a arrastadíssima e indiferente "Loki" em toda a temporada).

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Claro que, tal como a maioria das sagas do Universo Cinematográfico Marvel, a minissérie não funciona tão bem isoladamente como algumas aventuras da BD, e por isso convém que os espectadores tenham visto alguns filmes (os dos Vingadores, principalmente), antes de se atirarem a estes seis episódios. Mas quem não o fizer também não ficará assim tão perdido quando um dos ganchos narrativos é a estreia de Kate Bishop, personagem a quem Hailee Steinfeld se entrega com carisma, graça e alguma insolência juvenil. Um claro trunfo de casting, bem acompanhado pelos papéis de Vera Farmiga como sua mãe e Tony Dalton na pele de novo companheiro desta (além de motivo de tensão familiar, e não só).

Se "HAWKEYE - GAVIÃO ARQUEIRO" resulta mais "disneyficado" do que próximo da atmosfera noir das histórias de Fraction/Aja, desde a temporada natalícia em que a acção decorre à realização pouco arriscada de Rhys Thomas (vindo da comédia televisiva) e muito aquém do esplendor visual da BD (mantido apenas no genérico), pelo menos partilha do mesmo carinho pelas personagens e vai deixando algumas boas ideias nascidas dessa opção - como a de um musical da Broadway de calibre "tão mau que é bom" centrado nos Vingadores. E com a dinâmica Renner/Steinfeld a ganhar forma a partir do segundo episódio, o que aí vem até pode ser uma história merecedora de se juntar ao lote de filmes e séries que não podem faltar na altura do Natal...

Os dois primeiros episódios de "HAWKEYE - GAVIÃO ARQUEIRO" estão disponíveis no Disney+ desde 24 de Novembro. A plataforma de streaming estreia novos capítulos todas as quartas-feiras.

Escapemos, queremos

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Há mais na pop latino-americana actual do que reggaeton ou derivados e JAVIERA MENA tem comprovado isso mesmo desde o álbum de estreia, "Esquemas juveniles" (2006). Se aí a chilena se fazia notar por canções com uma sensibilidade indie e melancólica, em registo electroacústico, os sucessores reforçaram a faceta sintetizada numa discografia que teve os Kings of Convenience entre os admiradores iniciais (com direito a convite para primeiras partes de concertos dos noruegueses, Portugal incluído), contou com a produção de El Guincho numa fase mais recente e foi deixando pérolas como "Al Siguiente Nivel", "Luz de Piedra de Luna" ou "Primera Estrella" pelo caminho.

Este ano, além de marcado pelo lançamento do EP "I. Entusiasmo", tem sido importante no seu percurso pela benção da plataforma COLORS (para a qual interpretou a inédita "Debilidad", numa viragem synth funk) ou pela aposta da campanha EQUAL, do Spotify, dedicada a artistas femininas (através de um destaque muito cobiçado em Times Square).

Entretanto, vai preparando o sucessor do quarto álbum, "Espejo" (2018), produzido pelo colaborador habitual Pablo Stipicic, que deverá conciliar registos midtempo, baladeiros e dançáveis. O novo single, "CULPA", enquadra-se imediatamente na última categoria, entre acessos house, eurodance e electro interrompidos (embora não por muito tempo) por um órgão em modo gótico. Inspirações? Schubert (!), aponta a chilena. Mas a dança entre o Bem e o Mal da letra também sugere estar aqui uma descendente das inquietações e transgressões de um hino como "It's a Sin", dos Pet Shop Boys - e tal como a dupla britânica, também a chilena se consolidou como um ícone LGBTQI+.

Só falta mesmo a estreia em nome próprio num palco nacional, até porque as suas actuações são um espectáculo pop completo - e orgulhosas de o serem, sem qualquer margem para sentimentos de culpa.

Pais & filhos (italianos, mas de apelo universal)

Depois de ter arrancado em Lisboa no início do mês, a FESTA DO CINEMA ITALIANO passa agora por Almada, Leiria e Tomar. Mas há pelo menos dois filmes estreados na capital que mereciam mais salas.

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"MAGARI", de Ginevra Elkann: Estreia nas longas-metragens de uma realizadora que tinha assinado apenas uma curta, há mais de quinze anos, e que se tem destacado sobretudo enquanto produtora (de títulos como "Mektoub, Meu Amor: Canto Primeiro"), esta comédia dramática parcialmente auto-biográfica é uma prova surpreendente e apaixonante de sensibilidade aliada a um sentido de observação aguçado.

Crónica das férias de Natal de três irmãos (entre os 8 e os 14 anos) que partem de Paris, onde vivem com a mãe, para uma temporada italiana com o pai e a sua nova companheira, "MAGARI" é um belíssimo olhar sobre o crescimento, a (i)maturidade e dinâmicas familiares (dis)funcionais ancorado num elenco em estado de graça e com personagens à altura.

Alba Rohrwacher e Riccardo Scamarcio encarnam os dois adultos protagonistas, com interpretações que mostram porque é que são dos melhores actores italianos da sua geração (curiosamente também contracenam no novo filme de Nanni Moretti, o menos estimulante "Três Andares", em exibição por cá), mas os três miúdos não lhes ficam atrás (Oro De Commarque, Ettore Giustiniani e Milo Roussel, nomes a acompanhar), e sem esse equilíbrio este olhar sobre a memória ou a nostalgia, ambientado em inícios dos anos 90, não seria tão cativante.

Ginevra Elkann sai-se especialmente bem quando contrasta as visões do mundo dos três irmãos (a ingenuidade da mais nova, o deslumbramento do do meio e a perspicácia do mais velho) com uma perspectiva adulta, mesmo que boa parte dos adultos desta história seja mais falível do que responsável. E mantém um balanço difícil entre luminosidade e melancolia, não forçando nem o humor nem o drama, embora não escape a algumas conveniências de argumento lá mais para o final. Mas sem nunca trair a natureza das personagens nem a espontaneidade e sinceridade que emanam de uma das revelações do ano cinematográfico português (estreada no Festival de Locarno em 2019 e a pedir acesso ao circuito comercial entre nós).

4/5

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"PICCOLO CORPO", de Laura Samani: Vencedor da competição de Melhor Filme da Festa deste ano, este estudo de personagem está muito longe do perfil de crowd-pleaser de "Magari", mas deixa tantos ou mais sinais de uma voz autoral que vale a pena conhecer.

Relato de uma "mãe coragem" que insiste numa jornada arriscada para salvar a alma do seu bebé, morto à nascença, tentando ressuscitá-lo momentaneamente para que seja baptizado e não fique condenado ao Limbo, a primeira longa-metragem de uma realizadora com escola nas curtas e documentários é uma ode à resiliência feminina e à abnegação da maternidade feita num curioso registo de road movie de época (decorre numa pequena comunidade piscatória da Itália de inícios do século XX) cruzado com acessos de simbolismo, esoterismo e realismo mágico.

Laura Samani nem sempre gere o ritmo do modo mais envolvente e talvez recorra de forma excessiva à câmara à mão, mas tem duas presenças fortes no centro da narrativa, Celeste Cescutti e Ondina Quadri, além de desenhar uma parábola com uma carga sensorial inatacável, do sentido de espaço à sonoplastia (a tirar partido do som do mar e do vento, sem banda sonora adicional), da reconstituição de época singular e palpável à profusão de dialectos (que se vão sucedendo à medida que a protagonista muda de região). E por muito cru e angustiante que o cenário se torne, a integridade desta mãe obstinada impede que caia no miserabilismo, apesar de se arriscar a ser algo hermético para alguns - sintoma de um filme mais fácil de respeitar e até de admirar do que de aderir sem reservas.

3/5

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