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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Vai uma canção (só) com mostarda?

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Elogiados pelos Cure (antes dos quais já actuaram) e protegidos dos Fontaines D.C. (que os recomendaram à Partisan Records e com quem andaram em digressão), os JUST MUSTARD foram um segredo demasiado bem guardado na altura do álbum de estreia, "Wednesday" (2018), mas merecem entrar na lista de bandas a ter debaixo de olho em 2022.

A preparar o segundo disco, os irlandeses que começaram por se inspirar nas guitarras dos Pixies, na electrónica dos Portishead e no universo das bandas sonoras antes de criarem canções nascidas do shoegaze, do trip-hop e do industrial entram no próximo ano como colegas de editora dos Idles ou Laura Marling e já deixaram uma pista de para onde querem levar a sua música.

"I AM YOU", a amostra inicial do novo longa-duração, é produzida por David Wrench (The xx, FKA twigs, Caribou) e mantém a atmosfera densa e sombria do antecessor, desenhando uma marcha de baixo, guitarra e percussão conduzida pela voz angelical de Katie Ball, mais uma vez a aproximar-se muito da de Alison Shaw, dos (injustamente) esquecidos Cranes.

Tal como alguns temas do álbum de estreia, é um single que sai valorizado por audições repetidas, embora o crescendo de tensão, explosivo q.b. no final, agarre logo à primeira. Editada há poucas semanas, a canção já tinha sido apresentada no espectáculo Live In Dreams, transmitido em streaming em Maio (entretanto ficou disponível na conta de Youtube do quinteto), e pode ser ouvida abaixo em dose dupla, a do visualiser e a do concerto: 

Ressurreição, reciclagem e reinvenção

Como olhar para o legado da saga incontornável das irmãs Wachowski, 20 anos depois? "MATRIX RESURRECTIONS" responde com um capítulo muito mais auto-consciente e quase sempre empolgante, apesar de supérfluo.

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Se é para haver uma sensação (inevitável?) de déjà vu, então que seja assumida ao máximo, terá pensado Lana Wachowski ao aceitar continuar uma das sagas mais impactantes da viragem do milénio. Surgido mais por vontade da Warner Brothers do que por urgência criativa da realizadora (que desta vez dirige a saga sem a irmã, Lilly), "MATRIX RESURRECTIONS" vem confirmar o regresso insistente ao passado da esmagadora maioria dos blockbusters actuais - de sequelas a prequelas, de reboots a spin-offs.

Mas não era nada mau que muita concorrência do ano o tivesse feito com esta destreza e sentido lúdico. Não, este não é um filme que inventa a roda - dificilmente conseguiria fazê-lo numa saga onde não há mesmo amor como o primeiro -, e a realizadora assume-o logo aos minutos iniciais, numa réplica/homenagem/recontextualização de cenas clássicas dos anteriores que conjuga nostalgia e ironia, sinceridade e calculismo, com um embalo refrescante de humor e adrenalina.

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Se a adrenalina não é novidade numa trilogia que mudou as regras do cinema de acção das últimas décadas (goste-se mais ou menos dela), a injecção de humor torna este, com larga distância, no capítulo mais espirituoso de "Matrix". Nada contra, quando agora tem na mira a máquina de Hollywood actual e a rentabilização de franchises icónicos, alguns entretanto já moribundos de tão regurgitados.

A forma auto-referencial e inesperadamente directa que Lana Wachowski (juntamente com os co-argumentistas Aleksandar Hemon e David Mitchell) encontrou para discutir a liberdade artística e os compromissos com o sistema merece aplausos e alguns sorrisos, embora "MATRIX RESURRECTIONS" também acabe vítima da lógica que critica quando não volta a equiparar-se ao rasgo do primeiro terço.

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Por um lado, o filme não consegue evitar sucessões ocasionais de diálogos expositivos, já demasiado presentes nas sequelas anteriores - um peso inglório e em boa parte carregado por Jada Pinkett Smith. Por outro, as cenas de acção ficam muito longe dos melhores momentos de uma saga à qual não faltam sequências memoráveis. Algumas até estão demasiado próximas de um blockbuster de um qualquer tarefeiro, com movimentos difíceis de seguir, culpa de uma câmara epiléptica que, apesar de tudo, dá tréguas numa desconstrução habilidosa do bullet time, uma das coqueluches desta mitologia. Episódios como esse, ou como o da perseguição final entre arranha-céus, à noite, e com vários intervenientes (alguns surgidos de onde menos se espera), provam que a assinatura Wachowski ainda é capaz do melhor (um alívio depois de desastres como "Speed Racer", a série "Sense8" e sobretudo "A Ascensão de Júpiter"). Mas seria legítimo esperar mais nesse departamento...

Felizmente, "MATRIX RESURRECTIONS" acerta em cheio na vertente emocional, ao colocar a relação entre Neo e Trinity no centro deste regresso. E se Keanu Reeves não consegue disfarçar as limitações interpretativas (aceitemos que é mais feitio do que defeito), o filme ganha outro fôlego dramático com a presença de Carrie-Anne Moss, cuja entrega mostra que há um coração a bater neste conflito homem-máquina.

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A história de amor ganha terreno à discussão e alegorias cyberpunk, com a realizadora a tirar partido da química da dupla protagonista e do peso de um romance trágico. Ou talvez jogue só pelo seguro (o que nos leva às farpas do arranque), embora haja factor-surpresa mais do que suficiente nas novas caras da saga: Jessica Henwick a vestir muito bem a pele de jovem e intrépida aliada (a comandar uma equipa que merecia mais tempo de antena), Yahya Abdul-Mateen II numa versão tão desafiante como estranha de Morpheus, Neil Patrick Harris a destilar o carisma que se espera dele e Jonathan Groff num honroso e vibrante sucessor de Hugo Weaving como Mr. Smith.

Tudo somado, faz desta uma sequela muito mais bem-vinda do que a penosa "The Matrix Revolutions" (2001), mesmo que não fosse absolutamente necessária, e dos poucos blockbusters recomendáveis de 2021, ao lado de "007: Sem Tempo Para Morrer", de Cary Fukunaga; "Um Lugar Silencioso 2", de John Krasinski; ou "Eternos (Eternals)", de Chloé Zhao. Afinal, parece que este comprimido ainda não passou da validade...

3/5

Um regresso entre o ruído e a melodia

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Um novo álbum de BOYS NOIZE talvez já não gere tanto entusiasmo entre os adeptos da música de dança mais efusiva como há uns 15 anos, quando o projecto de Alex Ridha se fez notar pela conjugação (e muitas vezes colisão) de electro, techno ou house em discos como "Oi Oi Oi" (2017).

Mas ainda vai valendo a pena seguir os passos do músico, produtor e DJ alemão de ascendência iraniana, como o confirmam muitas faixas de "+/-", o seu novo álbum, que acabou ofuscado entre os lançamentos da rentrée. Da descendência da electrónica maximal que lhe deu fama a episódios mais contidos e melódicos, o alinhamento rege-se pelo jogo de contrastes sugerido no título e tem na guest list gente como Chilly Gonzales, Ghost Cuture, Rico Nasty ou Tommy Cash.

Entre altos e baixos (ironicamente, também aí o disco faz jus ao título), os primeiros casos saem a ganhar aos segundos e têm sido valorizados nas escolhas dos singles.

"All I Want", com Jake Shears, foi um avanço inicial aliciante e as apostas recentes brilham ainda mais: "LOVE & VALIDATION" traz a voz de KELSEY LU (que também participa em "Ride or Die") , conta com ajuda na produção dos Soulwax e propõe com uma mistura insinuante de R&B, ambientes trip-hop e pop electrónica que tem acompanhamento visual certeiro no videoclip; "AFFECTION" convida ABRA para uma canção mais retro e dançável, nascida de heranças dos anos 80 e das raízes do electro e hip-hop. Ficam ambas a milhas dos disparos de adrenalina da faceta mais reconhecível de Ridha, mas o resultado está longe de ser uma má troca:

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