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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um anjo na Terra (e em várias cidades portuguesas)

Na sua primeira passagem por Lisboa, DOUGLAS DARE encerrou na segunda-feira a mais recente digressão nacional, que dificilmente será a última. O Musicbox mostrou-se um palco acolhedor para as canções de "Milkteeth" (2020), o terceiro álbum do britânico, numa noite de encantos pastorais e angelicais.

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Imagem promocional da digressão

Depois de ter actuado no Porto, em Braga e em Coimbra nos últimos dias, DOUGLAS DARE despediu-se do seu regresso a Portugal esta segunda-feira, 21 de Março, numa noite verdadeiramente intimista. Não estariam mais de 40 pessoas no público, mas este acabou por ser dos casos em que menos foi mais, ao criar uma atmosfera que respeitou as canções do britânico e lhes deu espaço para respirar.

Presença que já se vai tornando habitual por cá - até porque esta nem foi a sua primeira digressão nacional -, o cantautor e pianista nascido no condado de Dorset e residente em Londres nunca tinha, no entanto, actuado num palco lisboeta... mas assinalou uma daquelas estreias a pedir regressos. O mote foi "Milkteeth", o seu terceiro álbum, no qual voltou a afirmar-se como um nome a seguir pela proposta que junta heranças da música erudita e popular.

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Douglas Dare no Musicbox

Menos electrónico e percussivo do que o segundo, "Aforger" (2016), e capaz de se afastar das comparações que surgiram na altura do primeiro, "Whelm" (2014) - de Rufus Wainwright a James Blake, de Owen Pallett a Thom Yorke -, o longa-duração mais recente é um disco de ambientes pastorais, tanto pelos ecos da folk como pelos relatos da infância (passada numa quinta na costa de Bridport) que dominam o alinhamento.

"A minha mãe ficou um bocado apreensiva quando ouviu o álbum", contou. "Mas na verdade a minha infância foi maravilhosa", sublinhou. "Apenas gosto de canções tristes. Espero que vocês também". Quando já convencem em disco e são tão bem defendidas em palco, é difícil não gostar. DARE revelou-se não só um óptimo intérprete, dono de uma voz intensa e possante, mas também um performer convincente no piano e na autoharpa enquanto manteve uma postura teatral, à medida de torch songs confessionais e vulneráveis.

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Vestido de branco, dispensou o aparato cénico e não precisou de mais do que jogos de luz e fumo para levar o público para um plano onírico, a condizer com as suas histórias cantadas em torno de figuras reais e imaginárias. "Já pareço um anjo, não já?", perguntou quando estava finalmente envolto num nevoeiro, o seu efeito especial de eleição.

Se a sua música está forrada de melancolia, o humor fez parte de quase todas as suas intervenções. Ao apresentar a mais expansiva "Playground", assinalou que essa foi a sua "tentativa de criar uma canção feliz". "Mas não correu lá muito bem", admitiu, mesmo que tenha sido um momento menos solene do que a maioria do que se ouviu durante cerca de uma hora.

De "Heavenly Bodies", a repescar a melodia de uma canção infantil, a "Silly Games", olhar sobre a solidão num dia de reunião familiar, a noite vincou o conceito temático distintivo de "Milkteeth" face aos antecessores. E deu conta de um salto conseguido do disco para o palco, em temas arrepiantes como "Wherever You Are" (sobretudo no final instrumental) ou em episódios como aquele em que DARE criou loops vocais para simular um quarteto de cordas.

A simpatia e a costela de entertainer fizeram o resto. "Reparei que esta rua é cor de rosa, vi uma drag queen de patins e um arco-íris numa parede. Esta é a rua gay, certo?", perguntou. E também respondeu: "Se não é, passou a ser". Outro acesso espirituoso chegou quando assumiu a presença maioritária de mulheres nas letras e títulos das suas canções, de "Caroline" a "The Joy In Sarah's Eyes", passando pelo peso da figura materna nesses retratos.

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Imagem promocional da digressão

"Se bebessem um shot por cada vez que menciono a minha mãe, ficavam pifos à segunda canção", brincou, aproveitando para deixar uma novidade. "Já estou a compor o próximo álbum e só vou falar de rapazes", avançou, aludindo à temática amorosa (e em particular ao amor entre homens), mais evidente em alguns temas dos primeiros discos.

"Don't tell me to slow down/ I've gotta let it out", entoou em "The Playground", a tal tentativa frustrada de canção feliz, também a sugerir que não vai ficar por aqui. "Where is the playground? It's calling me now", questionou. Na noite de segunda-feira, o Musicbox deu uma resposta mais do que satisfatória. "Espero que quando voltar tenha esta sala cheia", confessou, e será legítimo dizer que o público que o acompanhou tendeu a concordar.

4/5

Ao som de um trovão delicado

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"</3" (2021) e "y" (2020) foram belas introduções ao universo de JULIA-SOPHIE e é bom reencontrar esta francesa radicada em Oxford num novo EP. "IT FEELS LIKE THUNDER" propõe mais um mergulho numa pop electrónica etérea e sedutora, tão implosiva como intrincada, com tangentes ao trip-hop e a ambientes cinematográficos.

O novo disco, de três temas, inaugura uma trilogia de EPs da cantautora, multi-instrumentista e produtora que tem feito um caminho convidativo depois de ter integrado os Little Fish e os Candy Says.

"IT FEELS LIKE THUNDER" é uma aposta da Beat Palace, editora de Anna Prior, dos Metronomy, e tanto poderá agradar a fãs da banda de "The English Riviera" como dos I Break Horses ou das habitualmente comparadas FKA Twigs e Grimes.

O single "dial your number", com percussão de inspiração tribal e claustrofobia reforçada pelo novelo de sintetizadores, destaca-se como um dos pontos altos deste percurso a solo ainda curto mas auspicioso, partindo de uma despedida amorosa com tanto de angustiante como de inevitável.

"Not beautiful" e "video girl", de compasso menos acelerado e produção mais arejada, deixam outros motivos para continuar a prestar atenção a esta voz e às atmosferas em que se move. Venham os próximos capítulos...