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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um duo dinâmico para a temporada Primavera/Verão

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A um mês da edição, já é conhecido quase metade do alinhamento do álbum de estreia homónimo das WET LEG. Que é como quem diz, de uma das promessas indie mais celebradas dos últimos tempos.

"Chaise Longue" acendeu um rastilho que "Wet Dream", "Too Late Now" e "Oh No" mantiveram e a explosão chega com o novo single, "ANGELICA". Talvez o tema mais efusivo da dupla de Rhian Teasdale e Hester Chambers até agora, sublinha as aproximações à new wave (em modo absurdamente trauteável) dos antecessores mas ganha músculo com a muito bem-vinda distorção shoegazer que se intromete numa melodia saltitante.

O apelo dançável é, como já se tornou hábito, acompanhado pelas britânicas no videoclip, mais um em ambiente campestre e realizado por elas, a deixar no ar que um dos álbuns deste Verão pode chegar já na Primavera. A partir de 8 de Abril poderemos tirar as dúvidas, mas pelo menos meio disco tão eficaz tanto na praia como no campo já estará praticamente garantido:

Amor de mãe

Impressionante, a estreia de Maggie Gyllenhaal na realização. Adaptando uma obra de Elena Ferrante, a norte-americana deixa em "A FILHA PERDIDA" uma visão corajosa e perspicaz da natureza humana a partir da experiência da maternidade. E oferece a Olivia Colman um dos grandes desempenhos (e personagens) do ano.

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Maggie Gyllenhaal já não tinha nada a provar como actriz, mas não deixa de ser surpreendente que se saia tão bem na sua primeira incursão atrás das câmaras: "A FILHA PERDIDA" é uma "tour de force" dramática, interpretativa e sensorial que se atreve a levar para o grande ecrã a escrita para muitos infilmável da italiana Elena Ferrante enquanto se move em terreno emocionalmente espinhoso.

Aliás, é um retrato tão espinhoso (ou apenas adulto?) face a outras estreias norte-americanas recentes que ficou inexplicavelmente (embora também previsivelmente) arredado da corrida a Melhor Filme dos Óscares deste ano, selecção entregue a muita concorrência medíocre e/ou indiferente. O "problema" talvez seja esse: ninguém ficará indiferente a um retrato tão desconfortável de uma protagonista exasperada e muitas vezes exasperante para os que a rodeiam (e para o espectador). Sinal de coragem de Gyllenhall, que também adaptou o argumento e convida ao mergulho nas contradições e frustrações de Leda, uma mulher perseguida pelo passado e, em particular, pela forma como a sua tentativa de emancipação em vários planos, sobretudo o académico e profissional, comprometeu o seu papel de mãe.

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Ambientado numa temporada de férias numa ilha grega, para a qual a protagonista viajou sozinha, "A FILHA PERDIDA" está longe de tornar o seu cenário paradisíaco num postal turístico. Tal como aconteceu na também recente "The White Lotus", série da qual o filme chega a aproximar-se pelo misto de tensão, estranheza e humor cáustico, a estadia acaba por se revelar mais hostil do que acolhedora. Neste caso, por obrigar uma respeitada professora de literatura comparada a confrontar-se com o ressentimento, a culpa e o remorso de uma vida familiar longe de idílica - com episódios que não resistiriam ao escrutínio destes tempos politicamente correctos e dominados por mães-modelo nas redes sociais.

Estudo de personagem sobre uma mulher muitas vezes passivo-agressiva e irritadiça, que nunca pede a simpatia do espectador, "A FILHA PERDIDA" tem a inteligência de não a demonizar nem de a sujeitar a uma redenção forçada. E Olivia Colman é brilhante a dar conta das suas muitas camadas, numa interpretação que tem sido justamente elogiada (neste caso, até pelos Óscares, como o confirma a nomeação a Melhor Actriz). Em boa parte das cenas, a britânica nem precisa de falar para traduzir os tormentos quotidianos que afligem uma hóspede que se torna "persona non grata" (a cena numa sessão de cinema é de antologia e daquelas em que o espectador talvez fique tentado a reavaliar o seu olhar sobre a protagonista).

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Embora Colman seja, inquestionavelmente, a grande força motriz do filme, Gyllenhaal mostra ser uma óptima directora de actores através de presenças decisivas nos secundários: de Dakota Johnson a Peter Sarsgaard, de veteranos como Ed Harris a esperanças como Paul Mescal. Jessie Buckley tem uma tarefa especialmente difícil, ao partilhar a personagem com Colman nos flashbacks recorrentes, quando Leda era ainda uma jovem mãe. E se é verdade que duas ou três dessas cenas são aquelas em que "A FILHA PERDIDA" esmorece (nem todas parecem essenciais), a culpa não será da actriz irlandesa, que encarna com convicção uma mulher tão obstinada como temperamental.

A redundância de algumas dessas sequências do passado será a única fragilidade narrativa de uma primeira obra consistente e intensa como poucas, a mover-se com destreza entre um relato intimista e observacional no feminino, o drama familiar e o thriller psicológico - com as doses certas de subtileza, ironia e claustrofobia. Grande filme e grande aposta da Netflix, apesar de em Portugal se ter estreado nos cinemas antes de chegar ao streaming - um luxo, nos tempos que correm, e a valer inteiramente a ida às salas.

4/5

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