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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Por um Halloween mais feliz

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Embora tenha um percurso quase sempre associado à música para filmes, boa parte dela icónica (do "Batman" de Tim Burton aos Simpsons), DANNY ELFMAN aventurou-se no ano passado num segundo álbum a solo, "Big Mess", sucessor do muito distante "So-Lo", de 1984. Mas se na estreia em nome próprio explorava a new wave de forma tão singular e esquizóide como ao lado dos seus Oingo Boingo (banda que se manteve activa entre inícios dos anos 80 meados dos 90 e cujos elementos colaboraram nesse disco), no registo mais recente avançou para domínios mais abrasivos, com um rock musculado de contornos industriais.

Esse salto entre géneros saiu reforçado já este ano em "Bigger. Messier.", disco que junta remisturas (de Squarespusher, Xiu Xiu ou HEALTH) e colaborações (com Trent Reznor, Iggy Pop ou Blixa Bargeld), ambas a levar mais longe os horizontes da sua música - ainda que não abandone atmosferas quase tendencialmente assombradas.

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Um dos pontos altos da segunda vida das canções de "Big Mess" é a releitura dos BOY HARSHER para "Happy", que troca a explosão do original por um ritmo mais dançável, com as guitarras estridentes a cederem a vez ao balanço irresistível dos sintetizadores (mas os arranjos de cordas da primeira versão continuam por lá). E desta vez Jae Matthews, a metade feminina da dupla norte-americana, partilha o protagonismo vocal com o autor (mais recentemente, a banda também partilhou o palco com o músico e não escondeu o entusiasmo).

Já conhecida desde o Verão, a remistura ganha agora um videoclip, não por acaso em vésperas do Halloween. Dominado por cheerleaders de pele azul em modo sorridente, desenha um imaginário à medida da obra tão sombria como delirante de ELFMAN:

Há mais pop a descobrir no reino da Dinamarca

A nova pop escandinava está bem e recomenda-se, pelo menos a julgar por dois nomes que partilharam recentemente o palco da sala Klein, em Copenhaga: ENILORA e SWEET TEMPEST, ambos a justificar atenções fora de portas.

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Que música nos tem chegado da Dinamarca nas últimas décadas? Do dance-punk desopilante dos WhoMadeWho ao rock agreste dos Iceage, do experimentalismo dos Efterklang às confissões soturnas de Agnes Obel, da dream pop dos Mew à electrónica dos Rangleklods/Blondage ou Spleen United, passando por fenómenos de popularidade global como os Aqua ou Safri Duo, até nem tem sido assim tão pouca. Mas por cada nome que consegue visibilidade fora de portas, há outros tantos que, tal como acontece noutros países, acabam circunscritos a consumo interno (ou com o alcance a limitar-se a regiões mais próximas, sobretudo escandinavas), apesar de não serem menos interessantes.

ENILORA e SWEET TEMPEST são dois desses casos que mostraram ser nomes a acompanhar depois da actuação na noite de 13 de Outubro no palco do Klein, em Copenhaga. O espaço intimista, que também acomoda uma biblioteca, recebeu poucas dezenas de pessoas (o número certo para as especificidades da sala) que concederam o respeito e entusiasmo merecidos aos concertos - o primeiro mais contido, o segundo a apelar à dança.

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Apesar de ser norueguesa, Karoline Stensen, cantautora que se tem tornado conhecida enquanto ENILORA, reside na Dinamarca e foi aí que deu os passos mais significativos de um percurso musical encorajado pelo período do confinamento. E como a pandemia foi inspiração de boa parte das suas primeiras canções, não admira que se expresse através de uma pop rarefeita e melancólica - às vezes acústica, noutras a aceitar leves acessos electrónicos.

Ainda com poucos temas revelados, uma vez que se prepara para editar o EP de estreia, já tem, no entanto, os suficientes para sustentar um concerto de cerca de uma hora de duração, apresentado ao lado de uma banda cuja coesão não denuncia uma principiante. O salto para o palco também dá conta de uma versatilidade que não era evidente nas amostras gravadas, a transitar da introspecção inicial (a cargo de "Your Perfume" ou a bilingue "Buddha in the Window") para o dinamismo rítmico da despedida.

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Mas foi nos momentos mais contemplativos que se mostrou mais fascinante, ancorada numa dream pop confessional que interpretou visivelmente emocionada. O público respondeu com interesse e cumplicidade (apesar de o bar nem estar muito afastado do palco, não se ouviram copos nem conversas) e a química saiu reforçada quando a anfitriã cantou entre os espectadores, já só com o guitarrista - a vincar uma voz e uma presença que não precisam da companhia de mais músicos.

Como noutros percursos iniciáticos, a música não deixou de sugerir familiaridades ou eventuais influências, dos Hooverphonic aos The xx ou Lana Del Rey. A cantautora foi, aliás, a primeira a assumi-lo no último tema da actuação, embora também tenha garantido não querer ficar refém de comparações a terceiros - no caso, mencionando Sia e Billie Eilish, dizendo ainda querer dançar com Rosalía. Mas aí já tinha deixado claro que era um nome a fixar, ou pelo menos a ter debaixo de olho até à estreia em disco.

Se ENILORA se mudou para a capital dinamarquesa, os SWEET TEMPEST partiram dela para Berlim, onde criaram o seu primeiro álbum, "Going Down Dancing", que chega já em Novembro. Mas embora só agora arrisque um primeiro longa-duração, a dupla de Luna Kira e Julian Winding já conta com quase dez anos de um caminho que inclui vários singles e EPs ou a participação na banda sonora de "The Neon Demon - O Demónio de Néon", do conterrâneo Nicolas Winding Refn (tio de Julian).

Actuando no formato de trio, com a companhia de uma teclista, a banda não demorou a demarcar-se da atmosfera quase solene do concerto anterior. Afinal, a sua música não dispensa doses generosas de programações electrónicas que disputam o protagonismo com a voz possante de Kira - por vezes a lembrar o registo de Iwona Skwarek, vocalista dos polacos Rebeka e Shyness! e antiga colaboradora dos Mirror People (do português Rui Maia).

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Assentes na synth-pop e na new wave, com refrães orelhudos e vibrantes, as canções do duo talvez não desbravem novos territórios nesses domínios mas revelam um apelo e eficácia assinaláveis, sobretudo ao vivo. A passagem para o palco foi mais do que conseguida quando o ritmo não abandou durante mais de uma hora e a banda mostrou ter o público na mão - e este retribuiu com uma atitude efusiva pouco condizente com a primeira actuação da noite.

Winding, que mantém um percurso a solo como compositor de bandas sonoras e DJ, ocupou-se sobretudo do baixo (e pontualmente reforçou os teclados e programações), revelando-se um agitador tão recorrente como a vocalista. Mas como ambos se dirigiram quase sempre aos espectadores em dinamarquês, pouco ficou do que disseram para quem não domina a língua (registou-se, ainda assim, a paixão do baixista por cinema de terror).

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Ficaram, no entanto, as palavras das canções, que foram de retratos amorosos - como "My Blouder", um dos melhores cartões de visita - a reflexões motivadas pela desigualidade social ou o confronto com a diferença - e aí destacaram-se o hino antifacista "White Country", a denúncia do capitalismo desenfreado de "Modern Justice" ou "Party in Panama", inspirada pelos Panama Papers.

Não que seja obrigatório prestar grande atenção às letras, em especial num cenário hedonista como o que o grupo despoletou, com as primeiras filas rendidas à dança. Mérito de uma sensibilidade pop fiel à tradição de muitas exportações musicais escandinavas, desde influências assumidas como Annie ou Ace of Base (neste caso, só mesmo o primeiro álbum, ressalva a banda) a outras que se adivinham, dos Röyksopp aos The Knife/Fever Ray. Pet Shop Boys, Stevie Nicks e o talvez menos óbvio Tom Waits também estão na lista de favoritos de uma dupla que, conforme o nome indica e a vocalista acentuou (numa das poucas declarações em inglês), sabe transitar com convicção entre ambientes doces e tempestuosos.

Da intervenção divina à confirmação do talento

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Os PVA estrearam-se com um single literalmente divinal, nascido nos últimos dias de 2019: "Divine Intervention", cartão de apresentação produzido por Dan Carey, nome-chave da nova vida do pós-punk em anos recentes (as carreiras dos Fontaines D.C., black midi ou Black Country, New Road que o digam).

Entre a new wave e o dance punk, foi uma primeira amostra vibrante e angulosa, a acender o rastilho para um percurso que tem sido percorrido mais nos palcos (incluindo primeiras partes de concertos dos Shame, Dry Cleaning ou Goat Girl) do que nos discos. O EP "Toner", editado pela Ninja Tune na recta final de 2020, juntou aos elogios das actuações mais três temas que justificavam continuar a prestar atenção ao trio londrino, mas a maior prova gravada chega esta semana - na sexta-feira, 14 de Outubro. 

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"BLUSH", o muito aguardado primeiro álbum, vai ser decisivo para ajudar a banda a demarcar-se (ainda mais) de outros conterrâneos e contemporâneos inspirados pelo pós-punk, embora os singles já conhecidos insistam que há por aqui outros interesses - do industrial ao trip-hop, do electro à escola raver. Um caldeirão sonoro com os Portishead ou Laurie Anderson entre as influências assumidas e a ganhar sabor com o registo vocal tenso de Ella Harris e Josh Baxter (às vezes juntos, outras a solo), vocalistas que também se ocupam da composição, produção, guitarras e sintetizadores. A bateria e percussão ficam entregues (e bem) a Louis Satchell.

Até agora, há argumentos para esperar daqui um dos álbuns mais recompensadores da temporada. "Untethered", "Hero Man" e "Bunker" foram singles suficientemente convincentes mas "BAD DAD" talvez mereça menção especial, confirmando que "Divine Intervention" não foi um caso de sorte de principiante. Tão sombria como dançável, assente na voz sussurrante de Harris e em ritmos propulsivos, lembra os saudosos New Young Pony Club (fase "The Optimist") enquanto também dá conta da personalidade em construção de um nome a passar de promessa a certeza:

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