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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Filmes, séries, discos, canções e concertos: 80 de 2022

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As salas de cinema podem já ter tido dias melhores (ainda assim, há sinais encorajadores de retoma), mas 2022 não deixou de ser um ano com uma quantidade apreciável de óptimos filmes nas salas portuguesas. Alguns chegaram com atraso (como "A Lei de Teerão", um dos mais memoráveis), outros ficaram em cartaz muito menos tempo do que mereciam, e boa parte só teve direito a estreia em Lisboa. Nada de novo aí, embora o circuito de festivais tenha ajudado, na dimensão possível, a contornar lacunas (e continuou a trazer grandes surpresas).

Nas séries também não faltaram novidades, mas é pena que a vida de muitas comece a ser colocada em causa. "1899" (Netflix) e "Raised by Wolves" (HBO Max) são dois dos cancelamentos abruptos que vieram contrariar a ideia de prosperidade da era do streaming, que parecia indiscutível até há bem pouco tempo. Ambas as sagas mereciam lugar na lista abaixo, caso tivessem tido carta branca para avançar. Assim, deixam o sabor amargo de histórias entusiasmantes que ficaram a meio...

Nos discos, o streaming também foi um aliado da descoberta e da diversidade, apesar do fosso crescente entre muitos artistas e o Spotify. Mesmo assim, este não parece ter sido um ano superlativo para o formato álbum, embora não tenham faltado grandes canções nem mais títulos a (re)descobrir além dos dez listados abaixo (como os mais recentes das Automatic, Charlotte Adigéri + Bolis Pupul, Sinead O'Brien, Mall Grab ou Hercules & Love Affair, entre outros). Na selecção nacional, foi bem mais fácil eleger o álbum do ano: "2 de Abril", d'A garota não, crónicas palpáveis de um bairro setubalense que merecem chegar a todo o país.

Já sem limitações pandémicas, a música voltou de vez aos palcos e reforçou o cenário pré-COVID-19: a oferta generosa de festivais parece emagrecer a agenda de concertos de sala. Não que os Duran Duran, Letrux, Peaches ou KUTU se tenham dado mal nesse contexto...

15 FILMES

A Lei de Teerão.jpg

"A Filha Perdida", Maggie Gyllenhaal
"A Lei de Teerão", Saeed Roustayi
"Crepúsculo", Michel Franco
"Gagarine", Fanny Liatard e Jérémy Trouilh
"Ilusões Perdidas", Xavier Giannoli
"Irmão e Irmã", Arnaud Desplechin
"Joyland", Saim Sadiq (Queer Lisboa)
"L'arminuta", Giuseppe Bonito (Festa do Cinema Italiano)
"Libertad", Clara Roquet
"O Bom Patrão", Fernando León de Aranoa
"Os Fabelmans", Steven Spielberg
"Os Irmãos de Leila", Saeed Roustayi
"Sempre Perto de Ti", Uberto Pasolini
"Sublet", Eytan Fox (Dias do Cinema Israelita)
"Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo", Daniel Kwan e Daniel Scheinert

Melhor filme português: "Lobo e Cão", Cláudia Varejão

10 SÉRIES

Pico da Neblina.jpg

"Bárbaros" (T2), Netflix
"Borgen: o Reino, o Poder e a Glória" (T1), Netflix
"Industry" (T2), HBO Max
"Manhãs de Setembro" (T2), Prime Video
"Ozark" (T4), Netflix
"Pico da Neblina" (T2), HBO Max (série mais subestimada do ano, outra vez?)
"Severance" (T1), Apple TV+
"The Boys" (T3), Prime Video
"The White Lotus" (T2), HBO Max
"Top Boy" (T2), Netflix

10 DISCOS INTERNACIONAIS

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"Blush", PVA
"Brief Romance", Love Good Fail
"EBM", Editors
"Ghosts on Tape", Blood Red Shoes
"Heart Under", Just Mustard
"No Past No Future", Spacemoth
"Profound Mysteries" (I, II e III), Röyksopp
"Skinty Fia", Fontaines D.C.
"The Line Is A Curve", Kae Tempest
"The Runner (Original Soundtrack)", Boy Harsher

5 DISCOS NACIONAIS

Ana Lua Caiano.jpg

"2 de abril", A garota não
"Cheguei Tarde a Ontem", Ana Lua Caiano
"Heartbeats Etc.", Mirror People
"Ocupação", Fado Bicha
"Suicídio Comercial", Baleia Baleia Baleia

20 CANÇÕES INTERNACIONAIS

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"Age of Anxiety II (Rabbit Hole)", Arcade Fire
"Alive", POLIÇA
"Become the Lies", The Soft Moon
"Crosswalk", Totally Enormous Extinct Dinosaurs
"Happy", Danny Elfman (Boy Harsher Remix)
"I Love You", Fontaines D.C.
"It Came Back", Pictish Trail
"Lovebomb", Yeah Yeah Yeahs
"Machina", Boy Harsher feat. Mariana Saldaña
"Mas de Una Vez", Rauw Alejandre
"Oh, Lover", Röyksopp feat. Susanne Sundfør
"Purist", Miss Kittin
"Roll the Dice", Sunflower Bean
"Salt Coast", Kae Tempest
"Soap", PVA
"Still", Just Mustard
"Strings of Hope", Mau Maioli & Vasconcellos
"The Prodigal", Placebo
"The Rhythm", Hatchie
"XoXo", Love Good Fail

Vão mais 40? É seguir por aqui:

10 CANÇÕES NACIONAIS

Fado_Bicha.jpg

"A Grande Máquina", A garota não (ou praticamente qualquer outra do álbum)
"Amor Em Código", Dura Mater
"Bom Bom", Batida feat. Mayra Andrade
"Brava", serge fritz
"Desire", Pal+
"Eh Para a Frente, Eh Para Trás", Cláudia Pascoal
"Fogo na Casa", Fado Bicha
"Gud Times", Mirror People
"Mana Diala", Throes + The Shine
"Sai da Frente, Vou Passar", Ana Lua Caiano

Mais 20 a guardar da prata da casa:

10 CONCERTOS

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Cut Copy no Coliseu de Lisboa
Douglas Dare no Musicbox Lisboa
Duran Duran no Rock in Rio Lisboa
Enilora no Klein (Copenhaga)
KUTU no Festival Músicas do Mundo
Letrux no Festival Músicas do Mundo
Peaches no MEO Kalorama
Pongo no B.leza
Pussy Riot no Cineteatro Capitólio
Sweet Tempest no Klein (Copenhaga)

Melodrama à grande e à francesa

A fronteira entre o melodrama e o dramalhão pode ser ténue, Arnaud Desplechin que o diga no seu novo filme. "IRMÃO E IRMÃ", tão obsessivo como excessivo, faz desse balanço a sua força enquanto oferece a Marion Cotillard e Melvil Poupaud duas das personagens mais intensas dos últimos tempos.

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Famílias disfuncionais estão longe de ser uma novidade no percurso do realizador de "Esther Kahn" (2000) e "Um Conto de Natal" (2008), que até já se tinha debruçado, em "Reis e Rainha" (2005), na premissa que retoma no seu novo filme: a da relação conflituosa entre dois irmãos.

Alice, uma actriz consagrada, e Louis, professor e escritor cuja obra assenta muito na vida pessoal da irmã, estão afastados há anos, sem manterem qualquer contacto, até que um acidente familiar com sugestões trágicas parece obrigar a um reencontro. Mas o que levou a que uma muralha de ódio nascesse num relacionamento em tempos tão cúmplice? Arnaud Desplechin não dá a resposta de bandeja ao espectador, levando-o numa viagem que contrasta personagens, espaços, tons e estados emocionais, atirando-o para o âmago e para as ressonâncias de um relacionamento tóxico.

A tapeçaria narrativa, que abraça flashbacks, narrações em off e coloca os protagonistas a falar directamente para a câmara, ajuda a fazer desta uma jornada singular e pessoal, mas não necessariamente transmissível.

Irmão e Irmã 2.jpg

"IRMÃO E IRMÃ" não tem tido um acolhimento consensual, o que não é inédito na filmografia do realizador francês, e as muitas cenas com emoções exacerbadas abrem caminho a acusações de auto-indulgência. Mas se os seus protagonistas podem ser exasperantes, numa disputa pelo tudo ou nada perfeitamente condizente com a linguagem do filme, também ajudam a fazer deste um (melo)drama vibrante e imprevisível como poucos.

Não é defeito, é feitio, dirá quem aderir ao choque de titãs de braços abertos, postura que Marion Cotillard e Melvil Poupad adoptam face às suas personagens. Ambos se entregam à vulnerabilidade, à altivez, à obsessão, à frustração e ao narcisismo sem caírem nas armadilhas do overacting. São dois dos maiores actores franceses da sua geração e desempenhos como estes ajudam a desfazer dúvidas. Felizmente, não carregam "IRMÃO E IRMÃ" às costas: apesar de interpretações memoráveis, o resultado não se limita ao "filme de actores" quando a assinatura na realização não passa despercebida (e aí tanto os adeptos como os cépticos concordarão) e a montagem é tantas vezes prodigiosa.

Sem medo de mergulhar (mais uma vez) na perda, no ciúme e na solidão, Desplechin propõe uma experiência desconfortável mas imponente na forma como adere ao romanesco, revelando uma convicção à altura da que o conterrâneo Xavier Giannoli também demonstrou recentemente em "Ilusões Perdidas", outra das estreias superlativas de 2022. Venha mais cinema francês (e não só) tão destemido em 2023...

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