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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um homem na cidade

Embora Godard dissesse que bastava uma mulher e uma arma para fazer um filme, Mario Martone centra-se num homem e numa cidade em "NOSTALGIA". Mas não num homem e numa cidade quaisquer: Pierfrancesco Favino é brilhante enquanto percorre becos e memórias de Nápoles, cidade-mãe do realizador e a outra grande personagem deste retrato imersivo.

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Se "Saturno Contro" (2007), de Ferzan Özpetek, "Suburra" (2015), de Stefano Sollima, ou "O Traidor" (2019), de Marco Bellocchio, além de muitos outros, já tinham confirmado Pierfrancesco Favino entre os grandes actores italianos da sua geração, um dos filmes mais recentes do autor de "A Morte de Um Matemático Napolitano" (1992) assegura que esse estatuto se mantém.

Será injusto dizer que o protagonista carrega este cruzamento de drama e thriller implosivo às costas quando a realização está longe de ser anónima, mas "NOSTALGIA" é daqueles casos em que a presença do actor principal se revela particularmente determinante do primeiro ao último minuto.

A câmara de Martone quase nunca deixa de o seguir ao longo desta viagem por algumas das ruas mais melindrosas de Nápoles, cidade que viu nascer o cineasta há 63 anos e que tem sido o cenário de eleição da sua obra. Desta vez, o caminho faz-se no bairro de Rione Sanità, dominado pela pobreza e pelo peso da Camorra na vida de todos os dias (e em especial das noites), numa adaptação do romance homónimo do italiano Ermanno Rea, editado em 2016.

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Embora a máfia também tenha o seu peso na narrativa, "NOSTALGIA" afasta-se dos relatos mais tipificados desses conflitos numa narrativa labiríntica, não só pela digressão do protagonista entre ruelas, casas, cafés, igrejas ou grutas, mas pelo tom observacional que adopta, sobretudo na primeira metade, deixando o espectador incerto sobre o que a história deste homem lhe reserva (estrutura que tem um parente próximo q.b. no também recente "Crepúsculo", de Michel Franco, colado ao desempenho de Tim Roth).

Regressando à sua cidade natal depois de décadas a viver no Cairo, a personagem de Favino, circunspecta e esquiva, demora a dizer ao que vem, embora Martone seja muito hábil a gerir esse mistério num filme que, aos poucos, vai colidindo presente e passado, sentimentos de culpa e acertos de contas, familiaridade e estranheza - com os recuos à adolescência do protagonista a serem sublinhados (de forma mais eficaz do que imaginativa, admita-se) por um ecrã reduzido ao formato 4:3, em Super 8 luminoso e dourado.

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Maduro e absorvente, é um relato que ganha intensidade dramática à medida que se aproxima de um desfecho talvez telegrafado, mas não menos justo e impactante por causa disso. Mais do que esse destino, sobressai a força realista (com ecos do neorrealismo italiano) do mergulho num microcosmos que o autor parece conhecer como poucos cineastas actuais, das idiossincrasias comunitárias à arquitectura dos espaços e à forma como a História os marcou.

Entre as surpresas neste contexto conta-se a influência da cultura muçulmana, desde o islamismo, ao qual o protagonista aderiu e aqui capaz de conviver com o catolicismo, à presença de uma personagem secundária que é a única ponte para outra realidade, passando pela cena mais esperançosa e festiva, no jardim de uma igreja (belo momento de antologia com a música dançável dos egípcios Cairokee a injectar ritmo numa banda sonora tendencialmente atmosférica, vincada por instrumentais dos Tangerine Dream ou Peter Baumann).

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Se nunca é demais assinalar que Favino veste muito bem a pele de homem errático e ambíguo, filho pródigo de uma cidade sob pressão com a qual tem uma ligação deturpada pela nostalgia, não é o único actor com um desempenho a louvar.

Francesco Di Leva revela-se igualmente convincente como o carismático e intrépido padre local, entregue a um braço de ferro contínuo com a Camorra; Oreste Spasiano é tão ameaçador como desgastado num líder do crime a milhas de estereótipos, motor de grande parte da acção; e Aurora Quattrocchi tem uma presença comovente enquanto mãe do protagonista - ao acompanhá-la, Martone consegue ser simultaneamente cru e delicado enquanto olha para as limitações impostas pelo envelhecimento, outro desvio temático que ajuda a fazer desta uma viagem invulgar e memorável.

4/5

Os anos 80 foram tão bons, não são?

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Para os NUOVO TESTAMENTO, os anos 80 nunca se foram embora. "New Earth" (2021), o álbum de estreia do grupo de Los Angeles, era uma confecção descarada e irresistível de synth-pop, Hi-NRG e italo disco que remetia muito mais para a música dos Pet Shop Boys, New Order e Depeche Mode iniciais, mas também de Kim Wilde, Exposé e Madonna dos primeiros tempos, do que para o passado dos elementos do trio vivido em bandas punk e hardcore como os Torsö, Horror Vacui ou Crimson Scarlet.

O primeiro longa-duração do projecto de Chelsey Crowley, Andrea Mantione e Giacomo Zatti também estava muito longe do que se ouvia no EP "Exposure" (2019), registo de tonalidades mais sombrias (facção coldwave), embora já aí fosse evidente a precisão rítmica e sensibilidade melódica reforçadas no formato actual.

Canções como "Electricity", "Michelle Michelle", "Prayers" e sobretudo a pérola "The Searcher" serviram pastiches de luxo numa moldura de sintetizadores vitaminados e propulsivos, curiosamente sem grande correspondência noutros nomes surgidos nos últimos anos - tirando alguns temas dos Parallels ou dos Sweet Tempest.

Talvez por isso a fórmula tenha permanecido intacta no segundo álbum, "LOVE LINES". Acabado de chegar, é provavelmente o lançamento mais garrido desta sexta-feira, mérito da alquimia do trio e da produção de Maurizio Baggio (Boy Harsher, The Soft Moon), mesmo que já sem o efeito surpresa do antecessor. Das primeiras audições sobressai logo um trunfo: o incendiário "HEAT", um dos singles, que num mundo justo teria lugar cativo em qualquer discoteca ou ginásio que se preze.

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