Um álbum para dizer adeus ao Verão? O sol raramente brilhou nas canções de TR/ST e a nova colheita do projecto de Robert Alfons não promete mudanças nesse sentido. Pelo contrário: "PERFORMANCE", o quarto longa-duração do canadiano, é descrito como uma mistura de temor e abandono, entre sintetizadores nebulosos e poluição urbana.
Continua a haver espaço para alguma luxúria neste universo, é verdade, mas em modo melancólico, avança a Dais Records, casa recente de um dos nomes mais singulares da pop electrónica (facção turva, já se percebeu) dos últimos anos.
Sucessor do álbum duplo "The Destroyer" (2019) e do pouco memorável "TR/ST EP", editado em Janeiro, "PERFORMANCE" foi gravado em Los Angeles e coproduzido com Nightfeelings. Composto por nove temas, chega esta sexta-feira 13 (data mais apropriada seria difícil), um dia especialmente concorrido ao também trazer novidades sugestivas de Nilüfer Yanya, Tindersticks, Clark, julie, Foxing ou Allegra Krieger.
O título do disco inspira-se num comentário de um amigo de Alfons sobre a sua natureza "intrinsecamente performativa". E talvez por isso, o cantor e produtor protagoniza o videoclip do novo single, também ele intitulado "PERFORMANCE", no palco de um bar inesperadamente decadente. Canção etérea e hipnótica, não alarga uma linguagem que continua a ter nos primeiros dois capítulos ("TRST", de 2012, e "Joyland", de 2014) os seus momentos mais aliciantes, mas é a melhor amostra de um álbum que foi sendo revelado com "Soon", "All At Once" e "Dark Day".
Pela estrada fora, entre a Geórgia e a Turquia, uma mulher procura a sobrinha trans num filme que cruza territórios geográficos e emocionais. "CROSSING - A TRAVESSIA", drama de itinerário incerto mas sempre envolvente, é mais um triunfo no caminho auspicioso de Levan Akin.
Há cinco anos, Levan Akin sobressaiu como uma das vozes mais sonantesde um país do qual ouvimos muito poucas, pelo menos no que diz respeito ao cinema: a Geórgia. Embora sueco, o realizador nascido em Estocolmo há 44 anos tem ascendência da nação em tempos ocupada pela Rússia e a sua realidade não lhe é estranha. Ficou, aliás, documentada na sua terceira longa-metragem, "And Then We Danced" (2019), a tal que cativou olhares fora de portas (até foi o indicado sueco ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro) e teve passagem por Portugal no Queer Lisboa.
Desde então, Akin trabalhou no pequeno ecrã (incluindo na aconselhável série "Interview with the Vampire, exibida por cá no AMC) e regressou este ano ao cinema com um drama que também volta a partir da Geórgia mas tem em vista a Turquia. "CROSSING - A TRAVESSIA", vencedor de um Teddy Award na mais recente edição do Festival de Berlim e que já tinha passado por salas nacionais no IndieLisboa, em Maio, volta a colocar a identidade no centro de um relato realista e compassivo, ancorado em personagens nas quais não é difícil acreditar logo nas primeiras cenas.
Numa história marcada por vários cruzamentos (de classe, género, orientação sexual ou geografia), um dos iniciais é o que aproxima uma professora reformada de um adolescente que parte com ela rumo a Istambul na tentativa de encontrar sua sobrinha, uma jovem trans rejeitada pela família.
De temperamentos contrastantes - a protagonista é altiva e desconfiada, o rapaz ingénuo e desbocado -, esta dupla improvável traça uma jornada que, não sendo especialmente surpreendente (a lógica que a molda tem ecos de um buddy movie), volta a dar provas da sensibilidade da escrita de Akin (foi o único argumentista do filme), hábil a dosear gravidade e humor, e das suas capacidades como director de actores.
A veterana (ainda que infelizmente pouco vista) Mzia Arabuli e o estreante Lucas Kankava são óptimos a moldar uma cumplicidade crescente, mas nunca dada como garantida, e Deniz Dumanli abre outros horizontes temáticos e narrativos com convicção na pele de uma mulher trans recém-formada em Direito que apoia um centro comunitário LGBTQIA+ turco.
À medida que a relativa familiaridade do trajecto do duo on the road se cruza com um quotidiano pouco turístico de Istambul, "CROSSING - A TRAVESSIA" vai conferindo singularidade ao seu retrato dos marginalizados, apontando a câmara aos que lidam com a pobreza, a solidão e a intolerância (homo e transfobia) sem escorregar para a condescendência e o miserabilismo.
Apesar de Akin apontar influências do neorrealismo italiano, há esperança nesta incursão turca, mesmo que não necessariamente um final feliz. Sobretudo quando há espaço para a libertação dos corpos nas noites longas de Istambul, que tanto oferecem melancolia como hipóteses de hedonismo ao virar da esquina. A dança não é tão dominante como no filme anterior, mas ainda é reveladora de facetas menos óbvias de algumas personagens. E o bailado emocional nem precisa de fazer uma pirueta no fim, como "And Then We Danced", para garantir uma das estreias mais bonitas e comoventes da temporada.