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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Entre um realizador regressado, casais fetichistas e namorados fascistas

O festival de cinema mais antigo da capital está de regresso, e quase a fazer 30 anos. Até dia 27, há mais de 100 filmes a descobrir na 29.ª edição do QUEER LISBOA.

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A decorrer no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa (e com algumas festas temáticas no Purex), o evento dedicado a filmes LGBTQIAP+ volta a propor curtas, longas e documentários, em competição ou não, ao longo de mais de uma semana a partir desta sexta-feira, 19 de Setembro.

Arrancando com o thriller "Plainclothes", do norte-americano Carmen Emmi (protagonizado por Tom Blyth e Russell Tovey, na foto acima) e despedindo-se com o documentário "Between Goodbies", da sul-coreana Jota Mun, o QUEER LISBOA tem entre os destaques uma mostra de seis curtas de entrada livre da nova secção Resistência Queer, integrada no programa No Pride in Genocide (Queer Cinema for Palestine). Está agendada para o próximo domingo, dia 21, às 18h00, na Sala 2 do São Jorge, e serão aceites donativos para a associação de ajuda humanitária Seeds of Hope.

Além do genocídio de Israel sobre a Palestina, a programação descrita como "um espelho do conturbado mundo de hoje" percorre parte da longa e singular obra do cineasta francês Lionel Soukaz, que morreu este ano, entre outros olhares por géneros, épocas e geografias, tanto em centenas de filmes como em várias conversas. 

Para ajudar a começar a escolher, ficam cinco portas de entrada possíveis:

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"ATO NOTURNO", de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon: A dupla que criou "Beira-Mar" (2015) e "Tinta Bruta" (2018) já se tornou habitual no Queer Lisboa. A terceira longa-metragem dos brasileiros propõe um mergulho nas leis do desejo e da transgressão através do relacionamento secreto entre um actor e um político com gosto pelo risco e por sexo em público. Nomeado para o Teddy Award no Festival de Berlim deste ano, este flirt entre drama, thriller e comédia negra tem sido destacado por reforçar a vertente voyeurista e camp face à obra antecessora do duo. O trailer também sugere um foco noctívago (tal como o título, aliás) e esteticamente mais elaborado.

Domingo, 21 de Setembro, às 22h00, no Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira

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"TRIPOLI - A TALE OF THREE CITIES", de Raed Rafei: Um dos documentários em competição este ano parte do regresso agridoce de um realizador à sua cidade natal. O libanês Raed Rafei, que além de cineasta é professor e trabalhou como jornalista, voltou a Tripoli, de onde foi obrigado a sair anos antes, para medir o pulso social e cultural de um território abalado por flagelos económicos e bélicos. Através de conversas com habitantes locais, revisita memórias e ausculta percepções, crenças e receios. Quem gostar de filmes com cidades como protagonistas, terá aqui das sugestões mais promissoras. 

Terça, 23 de Setembro, às 16h15, no Cinema São Jorge - Sala 3

Jone, a Veces.jpg

"JONE, A VECES", de Sara Fantova: Primeira longa-metragem de uma realizadora que já tinha assinado uma curta, "Don't Wake Me Up" (2018), participado no filme colectivo "La filla d'algú" (2019) e dirigido episódios da série "Això no és Suècia" (2023), este drama realista acompanha uma jovem de Bilbau que vive a sua primeira experiência amorosa numa altura em que lida com a perda do pai, doente de Parkinson. Entre inícios e despedidas, esta aposta espanhola premiada em festivais como o de Málaga ou D'A Film Barcelona pode ser uma boa surpresa nas histórias de entrada na idade adulta, temática sempre fértil que costuma inspirar alguns dos melhores títulos do Queer Lisboa.

Quinta, 25 de Setembro, às 22h00, no Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira

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"PILLION", de Harry Lighton: Um dos filmes-sensação deste ano promete um dos papéis mais arrojados de Alexander Skarsgård, na pele de um líder motard fetichista. Olhar sobre uma relação conduzida por práticas BDSM, esta primeira longa de um realizador com um percurso feito de curtas tornou-se dos títulos mais aplaudidos em Cannes este ano - onde ganhou o prémio de Melhor Argumento na secção Un Certain Regard e foi nomeado para a Queer Palm, entre outros louvores. Não falta quem garanta estar aqui uma revelação britânica vibrante como poucas, e com algumas particularidades no elenco: Harry Melling, que começou por se fazer notar como Dudley Dursley na saga cinematográfica de Harry Potter, é o co-protagonista, enquanto que Jake Shears, vocalista dos Scissor Sisters, tem aqui a sua estreia como actor no grande ecrã.

Sexta, 26 de Setembro, às 22h00, no Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira

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"MY BOYFRIEND EL FASCISTA", de Matthias Lintner: É possível amar alguém que vota noutro partido? Este documentário só pretende avançar respostas de um caso específico, o do próprio realizador e do seu companheiro, que começam a desviar-se para campos ideológicos opostos. Na sua segunda longa-metragem, sucessora da bem recebida "Property" (2019), centrada numa comuniade urbana e artística de Berlim, o cineasta italiano concentra-se na sua esfera pessoal através do quotiano tenso partilhado com um activista cubano desiludido com o comunismo. É um dos filmes mais declaradamente políticos desta edição do Queer Lisboa, portanto.

Sábado, 27 de Setembro, às 19h00, no Cinema São Jorge - Sala 3

Kate Winslet trocou de turno com Mark Ruffalo

Quatro anos depois de "Mare of Easttown", chegou uma nova minissérie criada por Brad Ingelsby. "TASK", aposta forte da HBO Max, mantém-se no território do drama policial e, em vez de Kate Winslet, tem agora Mark Ruffalo a conduzir uma investigação. Os primeiros episódios são dos melhores a espreitar nesta rentrée televisiva.

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Outra vez a Pensilvânia, outra vez um crime a dar o mote, outra vez um realismo suburbano pintado de tons sépia num convite à melancolia (para não dizer à depressão). Ao primeiro embate, "TASK", thriller dramático sucessor da elogiada "Mare of Easttown" (2021), não parece querer desviar-se muito do registo com o qual o argumentista e produtor Brad Ingelsby se estreou nas séries depois de um percurso no cinema.

Mas os dois episódios iniciais da nova coqueluche da HBO Max também não demoram a insinuar que as diferenças podem ser maiores do que as semelhanças. Se Mark Ruffalo funcionará como chamariz para muitos espectadores (tal como Kate Winslet há quatro anos), o protagonismo é dividido com Tom Pelphrey, nome menos sonante mas que já tinha deixado boas memórias, por exemplo, na terceira temporada de "Ozark" (série da Netflix na qual encarnou o irmão da personagem de Laura Linney).

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Entre as histórias profissionais e familiares de um de outro, respectivamente polícia e ladrão, "TASK" começa por moldar uma simetria narrativa na qual vai sendo difícil separar bons, maus e vilões. Essa ambiguidade moral já é palpável no primeiro capítulo e adensa-se no segundo, quando entram em cena mais figuras de um bairro de Filadélfia marcado por assaltos a casas de traficantes de droga por parte de homens mascarados.

Com uma moldura dramática ambiciosa, a saga de sete episódios contrasta integridade e vingança ou culpa e redenção em histórias de pais e filhos nas quais o trauma e a violência são denominador comum. E tanto o argumento como a direcção de actores jogam a favor de personagens que desafiam estereótipos, mesmo que Ingelsby não pareça querer reinventar a linguagem do procedural. Também nem precisa: da realização astuta de Jeremiah Zagar ("We Are the Animals") à banda sonora densa e exploratória q.b. de Dan Deacon, "TASK" afirma-se como um retrato adulto e exigente, capaz de gerar tensão tanto através de uma conversa num jantar de família como em sequências de suspense a altas horas.

Felizmente, este arranque também é temperado por algum humor, sobretudo nas cenas com a jovem equipa que ajuda o agente do FBI encarnado por Ruffalo. Entre os novos investigadores está Fabien Frankel, bastante mais à vontade aqui do que como Criston Cole em "House of the Dragon" (também da HBO Max). Outro nome a destacar, Emilia Jones é tão brilhante como comovente na pele de uma mulher obrigada a crescer demasiado rápido. Ruffalo está muito bem acompanhado, portanto.

"TASK" estreou-se na HBO Max a 8 de Setembro. A plataforma de streaming estreia novos episódios todas as segundas-feiras.

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