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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

24 horas, 12 episódios e um pequeno grande assalto televisivo

A RTP2 continua a apostar em séries europeias durante o horário nobre e "O DIA" é a novidade mais recente. Também disponível na RTP Play, a produção belga traz sangue novo às histórias de golpe com um assalto a um banco que corre mal e no qual nem tudo é o que parece. A premissa pode soar familiar, mas a abordagem garante um arranque inspirado.

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E se "La Casa de Papel" contasse com algum realismo e respeitasse a inteligência do espectador? "O DIA" sugere uma hipótese de resposta ao também se centrar num assalto enquanto segue polícias e ladrões num novelo de negociações, compromissos, manipulações e enganos, sem no entanto dinamitar a suspensão da descrença através de uma sucessão de peripécias mirabolantes - pelo menos nos cinco primeiros episódios, que fluem sem viragens abruptas de tom nem passos maiores do que a perna.

Filmada em Bruges e com a acção a decorrer numa pequena localidade belga que não chega a ser identificada, a série que passou pelo Festival de Cinema de Berlim em 2018 agarra com rigor e inteligência uma premissa já várias vezes desenvolvida, embora nunca com o foco proposto pelos argumentistas Jonas Geirnaert e Julie Mahieu.

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A trama criada pela dupla decorre apenas num dia e cada um dos 12 episódios alterna perspectivas, com os capítulos ímpares a seguirem um período de acordo com o ponto de vista dos negociadores, equipas policiais, imprensa e familiares dos reféns, enquanto que os pares se concentram na relação entre os assaltantes, os funcionários do banco e outros cidadãos por resgatar dentro do edifício.

Sem ser um dispositivo narrativo inédito, esta opção é bem aproveitada para ajudar a desenhar um microcosmos que vai ganhando singularidade e complexidade a cada episódio, não só pelas relações inesperadas que vão surgindo entre as personagens, mas também pela forma como o espectador vai reavaliando as suas acções e motivações ao revisitar uma situação sob um ângulo diferente.

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O primeiro episódio nem é especialmente fulgurante, ao ter a ingrata tarefa de colocar em jogo grande parte das peças do tabuleiro sem se debruçar muito sobre figuras específicas. Mas essa vertente demasiado clínica e cerebral já não domina os capítulos seguintes, que sugerem que Geirnaert e Mahieu estão mais interessados em explorar relações humanas do que em tratar as personagens como meros peões de reviravoltas. E por isso "O DIA" não se esgota na linguagem do thriller e vai deixando um olhar verosímil sobre a depressão, o luto, a intolerância ou as clivagens sociais, sem nunca abandonar a proposta de exercício de suspense para se sujeitar a qualquer um destes temas.

Na realização, outro duo, Dries Vos ("Women of the Night") e Gilles Coulier ("A Guerra dos Mundos", versão 2019), é ágil a moldar uma narrativa tensa mas longe de explosiva (abordagem felizmente seguida pela banda sonora), que casa bem com a atmosfera invernosa e com os tons de azul metalizado que dominam os cenários. E quando o elenco faz jus a esse realismo vívido, ajuda a dar provas da solidez da série em várias vertentes, nada aquém da factura industrial de grandes produções que agora parecem ter casa garantida no streaming. Vale a pena ir passando algumas noites a acompanhar "O DIA"...

"O DIA" estreou-se na RTP2 a 10 de Fevereiro e é transmitida de segunda a sexta, pelas 22h05. A série também está disponível na RTP Play.

2 comentários

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    gonn1000 19.02.2021 18:56

    Sim, tem conseguido prender enquanto foge ao óbvio... a ver se se mantém assim até ao fim.
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