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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

25 anos depois, estas confissões de adolescente ainda merecem ser ouvidas

Mellon Collie and the Infinite Sadness.jpg

O álbum mais ambicioso dos SMASHING PUMPKINS já atingiu a maioridade há algum tempo mas continua a ser um testemunho indissociável da adolescência. E poucos discos olharam de frente para a angústia e solidão do crescimento como "MELLON COLLIE AND THE INFINITE SADNESS", que 25 anos depois ainda merece lugar cativo entre os discos essenciais da década de 90.

Embora alguns insistissem em arrumar a banda de Billy Corgan na gaveta do grunge, nos dias de "Gish" (1991) e "Siamese Dream" (1993), esse sempre foi um universo demasiado limitado para uma obra que desde cedo teve aproximações ao rock alternativo ou progressivo, ao shoegaze ou ao metal, e sugeriu pontes com a folk ou a música clássica. Mas nenhum dos registos antecessores (incluindo a estimável compilação de lados B e raridades "Pisces Iscariot", de 1994), fazia antever os horizontes surpreendentemente vastos de "MELLON COLLIE AND THE INFINITE SADNESS".

Editado em 1995, o terceiro álbum dos SMASHING PUMPKINS cimentou a popularidade do quarteto de Chicago em formato duplo, explorando mais de duas horas de música quase sempre à altura da que estava para trás - e chegando muitas vezes a superar o que já tinha ficado inscrito entre o rock mais revigorante da alvorada dos anos 90.

Descrito por Corgan como uma reflexão sobre a condição humana a partir de um olhar assumidamente adolescente, com inspiração directa nos primeiros anos da sua juventude, foi um excercício de catarse tardio e um fechar de ciclo traduzido numa viagem agridoce pelo dia e pela noite ("Dawn to Dusk" e "Twilight to Starlight", títulos dos discos 1 e 2, respectivamente) através de uma voz inadaptada e incompreendida.

Sim, boa parte das letras tem doses desmesuradas de umbiguismo e não foge à autocomiseração (o título não leva ninguém ao engano, admita-se), e o registo nasalado do vocalista também pode gerar reservas. Mas esse acaba por ser um preço baixo a pagar pela grandiosidade melódica e ousadia estética de um álbum com canções ao nível da ambição, criado por uma banda no topo da sua forma. Foi o último disco nascido da formação clássica dos SMASHING PUMPKINS, com James Iha na guitarra, D'arcy Wretzky no baixo, Jimmy Chamberlin na bateria, Corgan como voz principal e multi-instrumentista. Ilha compôs duas das canções mais contidas e uma delas, "Farewell and Goodnight", encerra o disco com as vozes de todos os elementos, gesto simbólico de um álbum que resultou de uma sinergia mais forte do que os anteriores e no qual os músicos não se limitaram (ou pelo menos, não tanto) a ser meros executantes da vontade do mentor.

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Outra diferença nos créditos foi o papel dos produtores, que além de Corgan incluíram Alan Moulder e Flood, substituindo assim Butch Vig, cúmplice dos registos antecessores. Uma forma de ajudar à fuga da zona de conforto e com direito a duas sessões de gravação em simultâneo, com a banda separada e decidida a captar uma sonoridade mais próxima do formato ao vivo. Um álbum duplo já seria especialmente frutífero, mas o processo acabou por gerar mais cerca de 30 canções que ficaram de fora, editadas na caixa "The Aeroplane Flies High" (1996), sintoma de uma sumptuosidade que rivalizou com a do "White Album", dos Beatles, ou "The Wall", dos Pink Floyd, duas das maiores referências na concepção de "MELLON COLLIE AND THE INFINITE SADNESS". 

Apesar da duração, torna-se difícil destacar pontos altos quando estão aqui tantas das melhores canções dos SMASHING PUMPKINS. Os singles, desde logo, são todos excepcionais e clássicos do seu tempo ("Bullet with Butterfly Wings", "1979", "Zero", "Tonight, Tonight", "Muzzle" e "Thirty-Three"), e se um ou outro pode ser vítima de desgaste radiofónico ao fim de 25 anos, não faltam outros temas de calibre comparável (re)descobrir.

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Da belíssima abertura instrumental da faixa-homónima à esquecida "By Starlight", perto do final, que já parecia antever os territórios atmosféricos do tão subestimado "Adore" (1998), esta música mantém-se apaixonante e urgente tanto nos momentos de explosão como nos de introspecção. Petardos como "An Ode to No One", "Where Boys Fear to Tread", "Bodies" ou "Here Is No Why" são exemplo de uma banda com uma secção rítmica inatacável; "To Forgive", "In the Arms of Sleep" ou "Stumbleine" desaceleram em alguns dos episódios mais comoventes; "Love", "Cupid de Locke", "Thru the Eyes of Ruby" ou "Porcelina of the Vast Oceans" mergulham a fundo no inesperado e em domínios particularmente expansivos no percurso dos SMASHING PUMPKINS.

Ao longo de 28 faixas, o resultado mantém-se quase sempre entre o intrigante e o brilhante ("Tales of a Scorched Earth" será dos poucos escorregões e podia ter sido guardada para "The Aeroplane Flies High"), com uma versatilidade capaz de conjugar o eléctrico e o acústico ou o electrónico e o orquestral, enquanto sinalizou a banda certa no momento certo. E o melhor é que não fica refém da nostalgia: além do fôlego épico, tem uma força intemporal, ou que pelo menos não parece ter sido abalada ao fim de 25 anos. Alegria criativa infinita, portanto.

Ao longo de 28 faixas, o resultado mantém-se quase sempre entre o intrigante e o brilhante ("Tales of a Scorched Earth" será dos poucos escorregões e podia ter sido guardada para "The Aeroplane Flies High"), com uma versatilidade capaz de conjugar o eléctrico e o acústico ou o electrónico e o orquestral, enquanto sinalizou a banda certa no momento certo. E o melhor é que não fica refém da nostalgia: além do fôlego épico, tem uma força intemporal, ou que pelo menos não parece ter sido abalada ao fim de 25 anos. Alegria criativa infinita, portanto.

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