ENSAIO SOBRE A VINGANÇA
Um dos filmes orientais mais elogiados dos últimos anos – vencedor do Grande Prémio do Júri na edição de 2004 do Festival de Cannes, por exemplo -, “OldBoy – Velho Amigo” é o segundo tomo da trilogia da vingança do sul-coreano Park Chan-Wook, iniciada com “Sympathy for Mr. Vengeance”, de 2002 (que não chegou a salas nacionais).
Oh Dae-Su chega ao fim de uma aparentemente normal noite de boémia já sob os efeitos do álcool, mas estaria longe de imaginar que uma situação destas não voltaria a ocorrer tão cedo, e menos ainda que não reencontraria a sua mulher e filha, pelo menos nos próximos anos, uma vez que é raptado e encarcerado num pequeno quarto de hotel por motivos que desconhece.
Contudo, esse estado de súbito aprisionamento, angustiante e misterioso, prolonga-se por quinze anos, durante os quais Oh Dae-Su não contacta com ninguém (excepto com alguns indivíduos que lhe levam a comida) e só toma conhimento do mundo exterior através da televisão.
Após mais de uma década de reclusão forçada, o protagonista é finalmente libertado, tendo então apenas um motivo que orienta a sua existência amargurada: vingar-se daquele que o condenou a um longo martírio e lhe destruiu a vida.
Com base nesta premissa, “Oldboy – Velho Amigo” segue os cinco dias infernais que se sucedem à ansiada liberdade de Oh Dae-Su, onde este inicia uma jornada pela qual esperava há vários anos.
Comparado a “Kill Bill: A Vingança”, de Quentin Tarantino, “Oldboy – Velho Amigo” exibe, à semelhança deste, largas doses de humor negro e cenas de violência estilizada, mas as atmosferas da película de Wook são mais doentias e claustrofóbicas e não apostam tanto numa amálgama de referências da iconologia pop.
Visualmente estimulante, o filme capta eficazmente o negrume dos ambientes urbanos, com contrastes de cores e texturas que mesclam traços das estéticas de David Fincher e Wong Kar-Wai, mas a absorvente banda-sonora é igualmente decisiva para complementar a visceralidade e energia cinética de muitas sequências.
Embora seja uma obra interessante, “Oldboy – Velho Amigo” só atinge um patamar superior na recta final, quando as motivações do antagonista de Oh Dae-Su são reveladas e geram momentos de grande impacto dramático.
Até aí, o filme motiva e inquieta mas não chega a conquistar por completo, pois apesar de contar com um ponto de partida curioso não se afasta muito de uma convencional estória de vingança (contada com competência formal mas sem golpes de génio, que só surgem na última meia-hora).
O estilo é conseguido e inatacável, mas em termos de impacto emocional o resultado é mais desequilibrado, e o facto de nenhuma personagem não gerar especial empatia também não ajuda.
Um filme a (re)descobrir, mesmo assim, ainda que o epíteto de “obra-prima” seja excessivo para designar um título meritório, mas longe de indispensável.
