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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Instantes decisivos

Juntamente com Ulrich Köhler e Angela Schanelec, Christian Petzold é um dos realizadores que esteve na origem da Nova Escola de Berlim, movimento que nos últimos anos tem renovado o cinema alemão através de um olhar especialmente cru e desencantado sobre o quotidiano urbano contemporâneo.

 

É também um dos novos cineastas (e argumentistas) mais prolíficos, contando já com nove filmes, ainda que por salas nacionais apenas tenha passado "The State I Am In" (2000), na edição de 2007 do IndieLisboa, e "Wolfsburgo" (2003) e "Fantasmas" (Gespenster, 2005), na KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, este ano.

 

 

O segundo acompanha dois dias nas vidas de quatro personagens em Berlim - um casal que tenta recuperar após o desaparecimento da filha e duas adolescentes que se conhecem num parque e sentem uma cumplicidade imediata, que as une em roubos em lojas de roupa ou em castings para programas televisivos.

 

Os seus rumos acabarão por entrecruzar-se nesta história movida pelo acaso, onde a imprevisibilidade do dia-a-dia parece ser o fio condutor e a solidão o elemento dominante e do qual todos tentam fugir, seja pela tentativa de novas amizades ou da materialização de esperanças há muito perseguidas.

Mas Petzold nunca facilita a vida às suas personagens, deixando-as entregues a si mesmas e obrigando-as a confrontarem-se com a desilusão, o que faz de "Fantasmas" uma obra tristíssima, embora estranhamente bela.

 

O rosto de Julia Hummer, que interpreta uma das adolescentes, reflecte bem a atmosfera do filme, mantendo-se entre a resignação e a expectativa e confirmando as qualidades da jovem actriz que já tinha inquietado em "The State I Am In". É ela que, na pele de Nina, dá alma a "Fantasmas", cuja vulnerabilidade contrasta com a desenvoltura e garra de Toni, que Sabine Timoteo compõe com uma intensidade nos antípodas da discrição demonstrada em "Um Amigo Meu", de Sebastian Schipper.

 

 

Tal como no também interessante "Wolfsburgo", as clivagens sociais são um elemento forte no desenrolar da acção, mas Petzold expõe bem as diferenças entre os estilos e condições de vida das suas personagens sem cair em maniqueísmos nem generalizações, usando-as para compreender e não para condenar ou desculpabilizar os protagonistas.

 

"Porque é que fizeste isso?", pergunta Nina a Toni após esta roubar uma carteira, e cuja resposta é "Porque temos fome e ela estava a usar Prada". Uns vivem, outros sobrevivem, mas todos são permeáveis a assombrações do quotidiano, e "Fantasmas" é um conseguido espelho desses riscos, abrindo o apetite para "Yella", o mais recente filme do realizador que, felizmente, deverá estrear este ano em Portugal.

 

 

"Fantamas" foi um dos filmes da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, decorrida no cinema São Jorge, em Lisboa, entre 30 de Janeiro e 6 de Fevereiro