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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Negritude espirituosa

Após o concerto de sábado na Casa da Música, no Porto, esgotado há dois meses, os Einstürzende Neubauten quase repetiram o feito ontem em Lisboa, uma vez que foram recebidos numa Aula Magna muito bem preenchida.

 

A banda alemã, pioneira do rock industrial, levou a palco as canções do seu disco mais recente, "Alles Wieder Offen", editado no ano passado, embora tenha revisitado também alguns temas de álbuns anteriores - e dificilmente tal não aconteceria já que a sua carreira está à beira de completar três décadas.

 

 

Consideravelmente mais sóbrio do que noutros tempos, sobretudo os dos primeiros dias, o sexteto não ficou, contudo, refém do conformismo que toma conta de muitos músicos veteranos, e o espectáculo conseguiu mostrar as várias facetas de uma banda que desde cedo garantiu um espaço muito próprio.

 

Alternando placidez e tensão, melancolia e efervescência e ambientes atmosféricos e mais crus, o concerto baseou-se num alinhamento que equilibrou bem passado e presente.

A carga teatral que emanou da postura e voz grave do vocalista Blixa Bargeld, aliada à sonoridade soturna e enigmática da maioria das canções, tiveram um curioso contraponto nos interlúdios dos temas, onde os elementos da banda se dirigiram ao público com constantes comentários bem-humorados.

Estes tanto envolveram pormenores sobre as canções ou pedidos de acertos de som, não faltando também os elogios ao público lisboeta.

 

 

Um dos elementos que sempre distinguiu o grupo foi a panóplia de instrumentos utlizados, que vai dos tradicionais aos inesperados, e este espectáculo não foi excepção.

O conceito de música industrial ganha aqui um sentido literal, uma vez que os Einstürzende Neubauten recorrem aos mais variados tipos de utensílios mecânicos - ou outros - para criar música, de bidões a cilindros metálicos, passando por chapas, por um vinyl raspado no microfone ou por uma chuva de talheres que inundou parte do palco.

 

Esta notória carga inventiva nem sempre jogou, no entanto, a favor das canções, que muitas vezes foram mais interessantes do que especialmente estimulantes, e entre episódios conseguidos o concerto contou com alguns momentos mornos.

Mesmo assim, ao longo das quase duas horas e meia o balanço foi positivo, até porque o final foi imaginativo como poucos, consistindo num peculiar sorteio onde cada elemento da banda retirou cartas de um saco e seguiu as respectivas instruções - todas diferentes -, o que resultou num devaneio sonoro marcado pelo improviso e ficou como o momento mais surpreendente da noite.

 

 

Cenicamente simples, contendo pouco mais do que uma tela no fundo do palco, seis candeeiros e a colecção de instrumentos, o concerto não precisou de grande aparato visual para resultar, ainda que a iluminação tenha tido os seus momentos quando contaminou o espaço com tons de vermelho, no inquietante "Sabrina", em que Blixa cantou "I wish this would be your colour" - afinal não era o preto a cor de eleição, ao contrário do que a indumentária da banda e de grande parte do público poderia sugerir.

Tanto uns como outros contribuíram para que a noite tenha resultado, e poderão recordá-la já que a gravação do espectáculo foi vendida à saída, numa edição limitada. Em concertos assim, vale a pena.

 

 

 

Einstürzende Neubauten - "Sabrina"

 

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