Ver o filme, ouvir o concerto (e o DJ set)
No início eram os Soulwax, a banda belga de rock dançável que surgiu discretamente e demorou a dar nas vistas. Depois foram os 2ManyDJs, os grandes responsáveis pela explosão de mashups no início desta década e autores dos mais esgrouviados. Mais tarde chegaram as Nite Versions, onde as canções dos Soulwax perderam em energia rock o que ganharam em pujança electro (e ainda bem).
Da soma disto tudo nasceram as noites Radio Soulwax e, mais recentemente, chegou o filme que conta este percurso, "Part of the Weekend Never Dies".
Para celebrar esta história multifacetada, a noite de quinta-feira pertenceu aos irmãos Dewaele e companheiros de estrada, cuja base de operações em Lisboa tomou conta do cinema São Jorge, onde foi exibido o aguardado filme-documentário centrado nos seus projectos, e depois do Lux, que acolheu o concerto dos Soulwax e o set dos 2Many DJs, assim como os de Mix Hell, Ben Trucker, Riton e Gucci Soundsystem.
Sendo dos principais responsáveis pela amálgama de rock e dança que se disseminou por muitos artistas dos anos 00 - mesmo que não tenham sido pioneiros uma vez que esta fusão está longe de ser inédita -, David e Stephen Dewaele (metade dos Soulwax e a dupla 2ManyDJs) recordam no filme "Part of the Weekend Never Dies" os passos que os levaram a adoptar estes alter-egos e a dividirem a sua música em projectos que intercalam a predominância das guitarras e da electrónica.
O documentário é dirigido pelos Soulwax e por Saam Farahmand, realizador que assinou videoclips dos Klaxons, Simian Mobile Disco ou M.I.A., e revela-se um bom testemunho do que se tem passado em parte da música de dança dos últimos anos.
Recorrendo a comentários de uma considerável galeria de ilustres amigos da banda - estão lá os LCD Soundsystem, Tiga, Justice ou Peaches -, o filme consegue ganhar individualidade e afastar-se de um banal behind the scenes servido como extra de um DVD, tanto pelo contagiante sentido de humor omnipresente como pela muito apropriada montagem.
A aliança entre imagem e música é sedutora e inventiva, e mesmo que lá para o final caia na tentação de se tornar num videoclip faz um bom retrato dos ambientes féericos que os Soulwax e 2ManyDJs são capazes de despoletar, oferecendo pelo caminho pormenores irresistíveis como os presentes de um programa televisivo sul-americano, as demonstrações de entusiasmo de fãs asiáticas ou a quase inacreditável origem da canção "NY Excuse".
Após um filme bastante aplaudido por uma sala do São Jorge sobrelotada, a noite continuou com a primeira parte da Radio Soulwax, que consistiu no concerto da banda no Lux, sob o formato Nite Versions.
O quarteto belga tocou remisturas que fez para os seus próprios temas e para terceiros, unindo programações electrónicas a instrumentos reais - e notou-se especialmente bem a pujança da bateria, até porque o grupo recorreu a duas. "Krank", "Miserable Girl" ou "E-Talking" surgiram assim em versões mutantes, diferentes quer do original quer das remisturas incluídas em disco, e se o apelo dançável conseguiu manter-se do início ao fim o alinhamento raramente surpreendeu, trazendo pouco de novo a quem já tinha visto o projecto neste formato.
Claro que ainda se registaram alguns momentos altos como "Accidents and Compliments" (versão electro, muito superior à incluída em "Any Minute Now") ou as remisturas para "Gravity's Rainbow", dos Klaxons, e sobretudo "Phantom II" dos Justice, este talvez o momento mais alucinante da actuação, ou não fosse também o mais aguardado pela maioria do público (principalmente depois de visto o filme).

Mais estimulante foi o set dos 2ManyDJs, uma hora depois - já pelas 3 da manhã -, onde a dupla que juntou, por exemplo, Nirvana e Destiny's Child no tempo em que tal era impensável tratou de animar a pista do piso superior do Lux, e felizmente houve mais espaço para dançar do que na do concerto.
Esse pormenor ajudou, mas a actuação valeu por si, e mais uma vez os irmãos Dewaele mostraram-se eficazes na junção de estilos e décadas, indo do presente ao passado.
Entre novos nomes já habituais nos sets mais "esclarecidos", como MGMT ou Hercules & Love Affair, recuperações de excertos de temas dos Clash, ABBA, Human League ou Siouxsie and the Banshees, investidas em clássicos de inícios de 90 como "Out of Space" dos Prodigy e o delirante "Pump the Jam" dos Technotronic, ou candidatos a esse estatuto como "Over and Over" dos Hot Chip e o praticamente inevitável "Standing in the Way of Control" dos Gossip, na versão revista e melhorada que terá sido o ponto de ebulição da considerável massa dançante.
Tudo somado, não será despropositado dizer-se que, se parte do fim de semana nunca morre, uma boa parte desta longa noite de quinta-feira também não... o que sempre terá servido de consolo a quem teve de acordar cedo - falando dos que chegaram a deitar-se, claro - na manhã seguinte.

Trailer de "Part of the Weekend Never Dies"