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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Juventude inquieta (e electrónica)

Entraram logo a matar. Em poucos segundos as luzes apagaram-se, as sirenes distorcidas ecoaram e os muitos que se acotevelavam para os verem dispararam gritos eufóricos, os primeiros de vários que se repetiram ao longo do concerto.

Alice Glass saltou de imediato para a frente do palco e Ethan Kahn, a outra metade dos Crystal Castles, manteve-se mais atrás, gerindo os contrastes rítmicos enquanto a vocalista tentou incendiar ainda mais o público.

 

Na passada quinta-feira no Le Trabendo, em Paris, a dupla canadiana mais féerica e incisiva do momento alargou a energia explosiva já evidente no seu primeiro álbum, editado este ano, e nos EPs que o antecederam, e depressa gerou um vendaval de energia cinética tão explosivo quanto contagiante.

 

 

 

A estupenda remistura para “Atlantis to Interzone”, dos Klaxons, abriu uma actuação onde os níveis de descarga se mantiveram sempre em alta, proeza cujo mérito se deveu tanto à banda como aos espectadores.

Glass não demorou a mergulhar no público, primeiro dando as mãos aos que a acompanhavam na primeira fila e dedicando-se depois a diversos crowd surfings.

 

O resultado foi a adesão incondicional das dezenas de jovens – muitos ainda adolescentes - presentes no espaço, e ao fim de poucos minutos quem arriscou dançar nas proximidades do palco não escapou a um misto de gritos, empurrões e suor, onde a intensidade da música desencadeou sempre resposta à altura.

 

Da desconcertante “Courtship Dating” à mais catchy e melódica “Air War”, passando pela áspera “Alice Practice” ou pela robótica “Crimewave”, o alinhamento contemplou os principais temas do duo que desfaz e reconstrói heranças do electroclash e das bandas-sonoras de jogos de computador, usando-as na criação de uma electrónica 8-bit urgente e hipnótica, num dos raros casos em que o rótulo de nu-rave faz de facto sentido.

 

 

 

Dispensando as canções mais apaziguadas do disco, o concerto queimou calorias durante 40 minutos, e esta curta duração foi mesmo o único ponto fraco de uma actuação viciante e cansativa (no bom sentido), cujo final foi frustrante por ter sido tão abrupto, cortanto o entusiasmo e suscitando uma sucessão de gritos de revolta – à semelhança do que ocorreu no ano passado no festival Paredes de Coura. Mas para um concerto-shot, dificilmente poderia ter sido mais satisfatório.

 

Também convincentes, embora não tanto, foram os Fuck Buttons, duo de Bristol cujo disco de estreia, “Street Horrrsing”, é para muitos um dos mais arrojados e surpreendentes do ano.

Para outros antes poderá ser interessante mas desequilibrado, e essa irregularidade foi evidente numa actuação que demorou a arrancar, seguindo à risca o alinhamento do álbum durante a primeira metade e soando quase a uma mera transposição do mesmo, já que as diferenças de som foram praticamente nulas.

 

 

 

Claro que ouvir canções como “Sweet Love for Mother Earth”, épico que viaja da dream pop mais envolvente para o noise mais visceral, está longe de ser mau, mas não é grande valor acrescentado vê-la apresentada por duas pessoas em pose estática em cima de um palco.

Os tons tribais de “Ribs Out” levaram a que essa modorra fosse parcialmente ultrapassada, quando Andrew Hung despertou para movimentos entre a dança e o exorcismo e Benjamin Power largou a electrónica para aderir à percussão.

 

Ainda assim, só nos últimos vinte dos quarenta e cinco minutos de actuação é que a dupla proporcionou momentos arrebatadores, ao deixar as canções do disco e apostar em atmosferas mais reluzentes – embora com a tensão sempre à espreita -, que desencaderam uma forte euforia dançável e lembaram o experimentalismo lúdico de uns Add N to (X).

No meio destas surgiu “Bright Tomorrow”, de longe o tema do álbum que melhor funcionou ao vivo, impondo um crescendo que constituiu um aquecimento mais do que perfeito para o concerto que se seguiu.

 

 

 

A abrir a noite, mais uma dupla com um promissor disco de estreia. As Telepathe, projecto oriundo de Brooklyn (que ultimamente tem revelado inúmeros nomes a ter em conta), foram acompanhadas por um guitarrista e levaram a palco as canções de “Dance Mother” (a editar em breve), produzido pelo conterrâneo Dave Sitek, dos TV on the Radio.

 

Com texturas tão etéreas quanto inquietas, indo do indie rock a flirts com o hip-hop, soaram a um misto entre o eclectismo de M.I.A., a languidez nervosa das Bunny Rabbit e a carga onírica das CocoRosie (mas sem a aura folk esquizóide).

Se as atmosferas foram intrigantes, a composição nem sempre demonstrou a mesma consistência, embora a entrega das duas vocalistas-instrumentistas tenha sido inegável, o que ajudou a que o público fosse deixando os copos e as conversas para lhes dar atenção.

 

No final da meia hora de actuação, uma delas saltou do palco e juntou-se aos espectadores, mas acabou por voltar a subir e esforçou-se por terminar o concerto em alta ao cantar e gritar enquanto rebolou no chão. Não mostrou a confiança e garra de Alice Glass, que terminaria a noite quase à beira do colapso (também encenado), mas ninguém a pode acusar de não ter a lição bem estudada.

 

Telepathe

Fuck Buttons

Crystal Castles

 

 

Crystal Castles - "Xxzxczx Me"

 

Fotos dos Crystal Castles: Jordan Bracco

 

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