Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um romance de cordel com tempero bucólico e erótico

Um dos nomes fortes da Nova Vaga francesa, Eric Rohmer alia a esse estatuto o facto de ser um dos cineastas mais velhos em actividade, tendo ultrapassado a barreira dos noventa anos mas apresentando novos filmes regularmente.

 

Infelizmente, esta persistência nem sempre é sinónimo de qualidade, algo que o seu filme anterior, "Agente Triplo" (2004), já denunciava e que "Os Amores de Astrea e de Celadon" (Les Amours d'Astrée et de Céladon) vem agora confirmar.

Inspirada no livro de Honoré d'Urfé, escritor dos séculos XVI e XVII, a sua nova obra decorre na antiga Gália e narra uma história de equívocos amorosos, onde o nobre e belo pastor Celadon, dado como morto por afogamento, está afinal vivo mas para voltar a contactar com a sua amada, Astrea, tem que se fazer passar por uma ninfa.

 

 

O ponto de partida talvez funcionasse com outra abordagem, já que a de Rohmer apenas oferece um filme que arranca de forma pouco estimulante e, à medida que avança, torna-se tão constrangedor como risível.

 

Os problemas começam logo no elenco, com actores que, em vez de pastores, mais facilmente se assemelham ao grupo de estrelas de uma agência de modelos, prontos a desfilar com criações inspiradas na antiguidade.

Nenhum consegue ter uma interpretação minimamente credível, debitando frases de forma demasiado teatral e apresentando expressões e posturas que não andam longe de um kitsch involuntário, uma vez que "Os Amores de Astrea e de Celadon" pretende ser poético e profundo.

 

 

 

Especialmente falhados são os abruptos momentos musicais, que quebram uma narrativa já por si frágil, com canções e vozes que não chocariam muito numa peça de teatro de uma turma do secundário mas que aqui causam embaraço.

 

Também amador, um guarda-roupa inacreditavelmente limpo e por estrear em nada ajuda à credibilidade dos acontecimentos - a menos que a Gália tivesse poções mágicas para detergentes -, pormenor de um falhanço estético mais agravado por uma realização banal, semelhante à de uma série televisiva histórica sem grande orçamento nem ideias.

Nem mesmo as belas paisagens campestres que são palco da acção conseguem ser bem aproveitadas, funcionando apenas enquanto cenário para clichés bucólicos e não encorajando qualquer momento de considerável fôlego cinematográfico.

 

 

 

Pobre em quase todos os aspectos, o filme acaba ainda por ser vítima de um argumento que não demora muito a cair no ridículo, com personagens sem espessura presas a dramas imberbes - muito longe do romantismo trágico que se pretende e bastante perto de uma vulgaridade folhetinesca.

 

As tentativas de erotismo resultam forçadas e as discussões acerca do amor são episódios de pretensão insuflada numa obra que nunca sai de uma ligeireza enfadonha, cujas quase duas horas de duração parecem o dobro.

 

Se o próximo filme de Rohmer mantiver a baixa fasquia deste (e do anterior), talvez seja melhor alguém começar a mostrar-lhe as vantagens da reforma, já que apesar de estar carregado de jovens actores "Os Amores de Astrea e de Celadon" traz muito pouco sangue novo ao cinema.

 

 

6 comentários

Comentar post