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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Luzes, sombras e electropop enfeitiçada

Tinham passado por Portugal há poucos meses, em Setembro, numa actuação integrada no festival BEAT IT!, no Porto, mas a presença em palco de um dos melhores projectos a unir o rock e a electrónica nesta década nunca é demais e, por isso, os Ladytron regressaram este mês a solo nacional.

Primeiro revisitaram a Invicta, dia 3 na Casa da Música, e ontem estrearam-se em Lisboa, no Lux, onde foram acolhidos por uma sala bem composta na apresentação do mais recente disco, "Velocifero".

 

Os ingleses Daniel Hunt e Reuben Wu, a escocesa Helen Marnie e a búlgara Mira Aroyo têm sido dos mais confiáveis criadores de pop negra, onírica e atmosférica dos últimos anos, definindo e consolidando uma identidade forte ao longo de quatro álbuns (e dois EPs), mas se poucos espectadores duvidariam da sua mestria em estúdio haveria muitos que nunca tinham comprovado as capacidades da banda ao vivo.

 

 

A julgar pela maioria das reacções, estranhamente longe das expressivas demonstrações de entusiasmo que marcam vários concertos por cá, fica por esclarecer se o balanço de grande parte dos presentes foi positivo, ainda que nunca tenham faltado aplausos no final de cada tema e que alguns momentos tenham incitado muitos a dançar.

Mas admita-se que o quarteto de Liverpool também nunca estabeleceu contactos com o público além de agradecimentos ou da apresentação das canções, o que aqui está longe de ser mau, já que essa discrição e sobriedade tiveram um notável contraponto na sucessão de melodias hipnóticas que irradiaram do palco ao longo de 70 minutos preciosos - e que provaram que tudo o que é bom acaba depressa.

 

Mesmo com ocasionais problemas de som, sobretudo ao início, onde o equilíbrio entre as vozes e os instrumentos nem sempre foi o mais feliz, os Ladytron ofereceram um espectáculo estimulante, nascido da conjugação entre uma postura misteriosa e circunspecta, um simples mas cativante trabalho de iluminação (com variações de cor num ecrã ao fundo do palco) e um sempre aliciante desfile de grandes canções.

 

 

Poderá dizer-se que o alinhamento não foi especialmente arriscado, embora não haja muitas bandas que possam orgulhar-se de incluir, no mesmo concerto, temas tão recomendáveis como os de "Velocifero" entrecruzados com pérolas electropop do calibre de "Playgirl" ou "Seventeen", ambas apresentadas com versões diferentes das que se conhecem dos discos e gerando considerável adesão.

 

Entre outros grandes momentos, "Predict the Day" instalou um raro cenário apaziguado que rapidamente se dissipou com um crescendo de intensidade e um assobio infeccioso, a algo inesperada "True Mathematics" trouxe uma acelerada brisa de ritmo e magnetismo, "International Dateline" constituiu uma magnífica oportunidade para ver Helen Marnie deixar-se levar por um dramatismo moderado e "Burning Up", já no encore, foi um vendaval de camadas sonoras que atestou a força da percussão e a complexidade textural aperfeiçoadas pelo grupo em "Velocifero".

 

 

Menos conseguida, "Deep Blue" afundou a voz de Mira Aroyo numa envolvente tempestade de sintetizadores, parecendo quase um instrumental, mas felizmente a vocalista búlgara teve espaço para brilhar logo no tema seguinte, onde cantou na sua língua-natal nesse concentrado de rodopios arrepiantes chamado "Fighting in Built Up Areas", que instalou um ambiente quase místico (mesmo tendo sido das canções menos reconhecidas pela maioria dos presentes).

 

Para o final guardou-se aquele que talvez seja o single mais emblemático dos Ladytron e uma das suas melhores composições, "Destroy Everything You Touch", hipótese de electro-disco melancólico com refrão larger than life. Foi apresentado numa versão menos pujante do que a gravada, mas nem por isso deixou de conquistar muitos dos que nem sempre aderiram a outros episódios da actuação, encerrando bem um concerto feito à imagem de "Velocifero" - coeso, intrigante e do melhor que este ano ofereceu.

 

 

 

 

Ladytron - "Seventeen" (Live @Lux via maklekan)

 

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