Duo dinâmico com sangue novo
Se nos videoclips não aparentam mais do que os seus vinte e poucos anos, ao vivo Steven Ansell e Laura-Mary Carter chegam mesmo a confundir-se com o público adolescente que cercou o palco do Santiago Alquimista na noite de ontem, na primeira actuação em Portugal dos Blood Red Shoes.
"Box of Secrets", um dos bons álbuns de estreia de 2008, é o motivo que tem tornado a jovem dupla no alvo de um culto discreto mas considerável, a julgar pela adesão ao concerto lisboeta.

Se perto do palco foram acolhidos por um público quase todo sub-18 (ou, no máximo, sub-20), no piso superior foram também muitos os que confirmaram os méritos da dupla, ainda que com uma postura mais recatada, talvez devido à faixa etária um pouco mais elevada.
A noite proporcionou uma acelerada sucessão de grande parte dos temas do disco intercalados por três inéditos, que em nada se desviaram da combinação simples, mas muito eficaz, de vozes, bateria e guitarra.
Embora sejam apenas dois, Ansell e Carter não tiveram problema em tocar enquanto cantavam, feito especialmente notável no caso da metade masculina da dupla, capaz de manter o fôlego vocal enquanto se dedicada a um recorrente e aparentemente incansável desvario na bateria.

Esta entrega e energia até faz esquecer a semelhança excessiva da maioria das canções dos Blood Red Shoes e a sua proximidade com muitos outros nomes, desde os Sons and Daughters, Love Is All ou Metric, passando por prováveis influências como os Sonic Youth ou a vertente mais agreste e despojada de PJ Harvey.
Apesar das comparações tentadoras, a música do duo não deixa de manter um apelo próprio, suficiente para manter interessado - ou mesmo eufórico - o público da noite de ontem.

A certa altura, na apresentação de um dos inéditos, Ansell chegou a dizer "Não aplaudam já, ainda não o ouviram", uma vez que o entusiasmo dos espectadores mais jovens fez das palmas e gritos de excitação duas presenças constantes do concerto.
Esta dedicação seria recompensada no encore, quando o vocalista/baterista convidou o público a subir ao palco, desafio ao qual muitas dezenas acederam prontamente.
"ADHD" fechou a curta, embora convincente actuação, e tal como muitos outros momentos foi cantada tanto pelos Blood Red Shoes como por um público adolescente que confirmou conhecer bem as letras.

Só é pena que injecções de adrenalina e intensidade como este momento raramente tenham tido paralelo num concerto sempre seguro e competente, mas sem surpresas de maior - os pontos altos terão sido mesmo os temas derradeiros, casos da espantosa "This Is Not For You" (talvez a melhor canção da banda) e da desenfreada "I Wish I Was Someone Better".
Mas mesmo que só a espaços tenha sido arrebatadora, a actuação apresentou qualidades que sugerem que o culto em torno dos Blood Red Shoes tem tendência para crescer, e ainda bem, pois um disco como "Box of Secrets" não merece ser um segredo bem guardado só por alguns.

Blood Red Shoes - "This Is Not For You"