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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Três de uma vez

 

A mistura, por vezes ousada, de thriller, comédia e drama leva a que "Em Bruges" (In Bruges) seja vítima de algumas falhas de tom, que aliadas a um argumento que demora a desenvolver faz com que este buddy movie sobre dois assassinos profissionais fique aquém do que poderia atingir.

 

Mas mesmo assim é difícil rejeitar a contagiante química entre um Colin Farrell em óptima forma e o mais veterano Brendan Gleeson, ainda que a personagem de Ralph Fiennes não lhe permita ter um desempenho que se aproxime do destes.

 

Esta atenção às interpretações - e também aos diálogos - talvez derive da experiência teatral de Martin McDonagh (autor da elogiada peça "The Pillowman"), que aqui tem a sua primeira longa-metragem e merece figurar entre as promessas britânicas a ter em conta.

 

 

 

Se "Cidade de Deus" figura sem problemas entre os melhores filmes desta década e "O Fiel Jardineiro" é um muito digno sucessor, "Ensaio Sobre a Cegueira" (Blindness) arrisca-se, infelizmente, a ficar como a obra menos estimulante de Fernando Meirelles até agora.

 

É certo que a realização volta a ser hábil, embora mais clínica e com poucos pontos de contacto com os trabalhos anteriores, e que entre o elenco brilha a quase infalível Julianne Moore, mas o restante (e invejável) elenco é desperdiçado num filme que não consegue (ou não quer) criar personagens interessantes e aposta numa metáfora civilizacional pouco surpreendente - pelo menos para quem tenha visto meia dúzia de filmes de ficção científica com pressupostos comparáveis.

 

Enquanto drama é quase sempre frio e gera indiferença, e a vertente de suspense já foi melhor explorada nos filmes de zombies cujos ambientes repete. Segue-se com alguma curiosidade, embora no final deixe apenas a impressão de falhanço interessante.

 

 

 

Sujeita-se a quase inevitáveis comparações com a série televisiva homónima exibida há duas décadas, e embora possa sair a perder "Reviver o Passado em Brideshead" (Brideshead Revisited) não deixa de justificar alguma atenção.

 

Julian Jarrold, que curiosamente teve um considerável percurso em domínios televisivos, é consistente na recriação de época e, ao contrário de outras produções britânicas, não deixa que os décors sufoquem as personagens.

Matthew Goode pode não ser Jeremy Irons mas compõe um Charles Ryder misterioso e circuspecto q.b. e as restantes personagens mantêm-se igualmente insondáveis ao longo de grande parte do filme - com destaque para uma amargurada Emma Thompson, que rouba todas as cenas em que entra.

 

Quem esperar grandes ideias de cinema talvez não seja recompensado, mas isso não impede que se encontre aqui uma abordagem sóbria e inteligente a contrastes religiosos, sexuais, económicos e sociais, alicerces de um drama recomendável.