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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Festa comunitária com consciência e adrenalina

A vasta oferta de concertos que Lisboa tem tido - ainda há poucos dias decorreu o Super Bock em Stock, por exemplo - não impediu que ontem o Santiago Alquimista tenha ficado repleto na noite de  terça-feira para acolher os Asian Dub Foundation, que aí apresentaram o seu novo disco, "Punkara", editado há poucos meses.

 

E mesmo que os últimos registos da banda inglesa (cujos elementos têm ascendência indiana ou árabe) não tenham mantido a surpresa dos primeiros, essa forte adesão revelou-se mais do que justa, ou não tivesse o grupo servido uma actuação invejável e sem quaisquer quebras de ritmo ao longo de uma aceleradíssima hora e meia.

 

 

O colectivo, que completou recentemente quinze anos de existência, surgiu após um workshop sobre música e tecnologia dirigido a crianças a asiáticas, em Londres, e a primeira formação incluiu o mentor do projecto, um DJ que o auxiliou e um aluno - Deedar Zaman, que deu voz aos primeiros discos.

 

Desde então, editou seis álbuns de originais e impôs-se como um dos nomes fulcrais do asian underground (movimento que na década passada fundiu música tradicional asiática, sobretudo indiana, com sonoridades mais modernas, no qual se incluem também Nitin Sawhney, Talvin Singh ou Badmarsh & Shri).

 

Hoje, a amálgama de hip-hop, drum n' bass, dub, punk, reggae, entre muitos outros ingredientes, já não terá a frescura inicial em disco, mas ao vivo os Asian Dub Foundation destilam ainda uma energia e entusiasmo inatacáveis.

 

 

Em poucos minutos, a banda conduziu o público lisboeta a uma descarga de adrenalina que se manteve sempre em alta ao longo de toda a actuação, encorajada não só pelo novo vocalista, Al Rumjen, mas também pelos outros quatro músicos em palco.

 

Irradiando uma espontaneidade, simpatia, dinamismo e desenvoltura inatacáveis, o grupo apostou frequentemente em "Punkara" embora não tenha deixado de parte muitos temas de registos anteriores.

Além da forte tendência fusionista, outro elemento-chave da sua música é a carga social das suas letras, seja em palavras de revolta e contestação ou em apelos à tolerância e postura pacífica.

 

Felizmente esta postura activista nunca resulta em canções forçadas ou didácticas e o optimismo que acaba por vingar está longe de ser oco, o que ajuda a que uma actuação da banda seja sinónimo de festa contagiante onde as boas intenções levam de facto a grandes momentos.

 

 

E houve muitos na noite de terça, desde a trepidante "Fly Over" à harmoniosa "Riddim I Like" (com quase todo o público de mãos no ar), passando pela intempestiva "Burning Fence" (inspirada numa "revolta no IKEA", segundo confessou o vocalista) ou pela percussão em crescendo irresistível de "S.O.C.A".

 

O melhor, contudo, terá sido o magnífico "Taa Deem", versão do tema homónimo do paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan (uma das figuras mais influentes para a origem do asian underground), que recuperou a voz do cantor num intensíssimo episódio de euforia generalizada, onde a banda levou alguns espectadores para o palco.

 

A actuação contemplou ainda canções dedicadas à juventude da Grécia ou a Guitshu, vocalista dos Blasted Mechanism, a quem Rumjen reconheceu valor pelo trabalho social em bairros degradados, além de várias ocasiões onde o grupo espicaçou o público e levou-o a cantar as suas palavras de ordem ou a repetir os seus movimentos.

 

 

O muito requisitado encore guardou ainda "Buzzing", um dos temas mais antigos da banda cuja aliança entre o tribal e o urbano nada deve aos momentos mais inspirados de uns Buraka Som Sistema ou M.I.A. - com a vantagem dos Asian Dub Foundation serem muito mais eficazes ao vivo -, e "Fortress Europe" uniu a atitude de uns Rage Against the Machine a uma pujança comparável à fase áurea dos Prodigy.

 

No final, grande parte do público parecia disposto a continuar para pelo menos mais uma hora e meia de dança desenfreada, mas apesar dos muitos gritos e aplausos o grupo não regressou a palco.

E também não cantou "Black White", um dos seus singles mais marcantes e dos melhores hinos à tolerância que já criaram, ainda que nada disso tenha impedido que um concerto destes entre directamente para os mais memoráveis do ano e se imponha como experiência a repetir assim que possível.

 

 

 

 

Asian Dub Foundation - "Riddim I Like (live in Fuji Rock Festival)"