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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um arraial para esquecer a crise

Teatro Tivoli, Lisboa, ontem às 22h30: os OqueStrada cantam "Se Esta Rua Fosse...", um dos primeiros temas do concerto de apresentação do seu disco de estreia, "Tasca Beat: O Sonho Português", perante uma sala repleta onde os espectadores mostram já alguns sinais de adesão.

 

O mesmo local, menos de uma hora e meia depois: a canção volta a ser interpretada, já no final do espectáculo, e com grande parte do público de pé, a dançar e a acompanhar a música com palmas, num ambiente de folia sem reservas que transforma a mítica sala lisboeta num arraial irresistível.

 

 

Resultado: mais do que um concerto, a actuação do colectivo de Almada (cinco elementos e seis convidados) foi um espectáculo imprevisível e versátil, capaz de unir universos aparentemente antagónicos num todo que respira frescura e personalidade.

 

O notório à-vontade em palco não se estranha, contudo, se se tiver em conta que, apesar da banda só ter editado o seu primeiro álbum há poucas semanas, já conta com um percurso de sete anos onde andou pela estrada dentro e fora de portas.

 

À semelhança dos Deolinda, também os OqueStrada pegam no fado e na canção popular como fonte de inspiração para novos olhares (geralmente muito bem-humorados) sobre o quotidiano mais castiço dos subúrbios, mas o grupo de Almada não só conta com o mérito de ter arrancado primeiro como integra na sua música condimentos mais díspares e inesperados.

 

 

Como foi evidente na noite de ontem, no caldeirão de "Tasca Beat: O Sonho Português" cabe quase tudo, e os puristas não precisam de se preocupar porque a banda não se leva a sério nem pretende fazer fado.

No máximo, fará "fado punk" ou "fado dos subúrbios", o que na prática resultou numa combinação de música cigana, balcânica, africana (com flirts com o kuduro e funaná) e algumas atmosferas parisienses (evocadas pela frequente presença do acordeão).

 

Ou seja, tanto fez lembrar desvarios algures entre os Gipsy Kings e Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra como os tons agridoces das composições de Yann Tiersen, e não se escusou a revisitar excertos de clássicos como "Dancing With Myself", "Killing Me Softly" ou "Eye of the Tiger".

 

 

Mas a música não foi a única protagonista da actuação, uma vez que as muitas ocasiões em que Miranda, a vocalista, se dirigiu ao público não andaram longe da stand up comedy.

Com uma boa disposição quase doentia ("Já que não há dinheiro para ir à consulta...", justificou-se), a simpática anfitriã tagarelou pequenas peripécias da banda e insistiu em fazer dedicatórias antes de praticamente todas as canções - os visados foram, entre outros, os emigrantes, "todas as pessoas que não querem sofrer mais", habitantes dos subúrbios, espanhóis (ou "aquelas pessoas de quem gostamos, mas nem sempre") e, por fim, "todos os portugueses e todas as pessoas que moram neste país".

 

Pelo meio, o espectáculo ainda conseguiu incluir um episódio de desgarrada entre dois vencedores da Grande Noite do Fado (João Roque e Cristiano de Sousa), acompanhados por pianos infantis, e teve um momento ainda mais desconcertante no que poderá definir-se como uma tentativa de breakdance marialva (um daqueles casos em que é preciso ver para crer).

 

 

Contando apenas com um balcão de uma tasca no centro do palco e várias pequenas lâmpadas coloridas, semelhantes às de uma festa popular (que estavam também acima das primeiras filas), os OqueStrada não precisaram de mais elementos cénicos para recriarem um imaginário típico e reconhecível, embora transfigurado através de uma atitude vincada pela surpresa.

 

Esta irreverência e energia chegaram para compensar um alinhamento desigual (ainda assim, mais conseguido do que no disco), pontuais falhas de iluminação (de um candeeiro que teimava em não funcionar) ou a repetição do início de um tema, pequenos entraves de uma actuação que ofereceu versos tão inspirados e eloquentes como "Tá-se bem do lado do cu do Cristo Rei" e algumas grandes canções - candidatas a hinos (sub)urbanos -, casos de "Se Esta Rua Fosse...", "Creo(Cariño)", "Oxalá te Veja" ou "Eu e o Meu País".

Se os próximos concertos (e há muitos agendados) mantiverem este fulgor, a tasca dos OqueStrada dificilmente terá falta de fregueses.

 

 

 

OqueStrada - "Killing Me" (ao vivo no Maxime)

 

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