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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um passo seguro numa estrada reluzente

"Golden Era", o primeiro álbum de Rita Redshoes, parece ter um título premonitório, já que marcou uma nova fase para a ex-vocalista dos Atomic Bees e colaboradora de David Fonseca - uma fase dourada, sem dúvida, como o atesta o sucesso junto do público e da crítica.

 

Essa boa recepção teve um evidente reflexo nas vendas ao longo do último ano, que levaram a promissora estreia a atingir a apropriada marca de disco de ouro.

A noite de ontem no cinema São Jorge foi, por isso, de celebração, uma prenda para a cantora e para os fãs, no maior concerto que a autora de "Hey Tom" apresentou na capital - e foi tão concorrido que levou à marcação de outro espectáculo para hoje.

 

 

Recebida por uma sala esgotada, Rita não se deixou intimidar por um público inicialmente algo contido - muito por culpa de um calor insuportável que convidava à inércia - e aos poucos foi conseguindo despertar aplausos cada vez mais fortes e vários comentários aos quais reagiu sempre com à-vontade e simpatia.

 

Com um aprumo cénico assinalável, o espectáculo não contou apenas com o seu talento e incluiu os cinco elementos da sua banda (guitarrista, baixista, teclista, baterista e uma segunda voz), que aliados a quatro bailarinas convidadas contribuíram para resultados bastante satisfatórios.

 

Com um trabalho de iluminação a reforçar o imaginário de cada canção, o palco acolheu ainda, além de dois Rs gigantes (e dourados, naturalmente), jogos de sombras e projecções que garantiram a concordância entre imagem e música (com alguns momentos porventura inspirados nas actuações de Feist, mas não faz mal).

 

 

"Golden Era" foi, como não poderia deixar de ser, o tronco estrutural do alinhamento, embora a hora e meia de actuação tenha dado espaço a outras canções, desde inéditos a versões.

No primeiro grupo constaram "Stupid Song", logo a abrir a noite, e "Waves of Emotion", já num dos encores, e ambos têm fortes possibilidades de integrar o segundo álbum da cantora.

 

Mas se estes novos temas foram aplaudidos q.b., as revisitações do catálogo de outros músicos mostraram-se mais convincentes, tanto a aproximação à country da melancólica "Lonesome Town", de Ricky Nelson (servida com imagens da América profunda a acompanhar) como a canção de amor "Ring of Fire", escrita por June Carter e dedicada a Johnny Cash - que Rita tocou com uma autoharp comprada numa pequena e poeirenta loja do Texas, durante a passagem pelo festival South By Southwest.

 

A melhor versão - e de longe um dos picos de intensidade do concerto - foi, contudo, a de "These Boots Are Made For Walking", de Nancy Sinatra, onde Rita colocou de lado os seus habituais sapatos vermelhos para os trocar por umas botas.

 

 

E durante alguns instantes, a menina de pose discreta transformou-se numa senhora do rock austera e efervescente, persona que dificilmente se vislumbra em "Golden Era" mas que resulta muito bem em palco.

 

"Love, What Is It?" apresentou uma atmosfera semelhante, com a cantora a remeter para a vertente mais visceral de PJ Harvey, e a intrigante "Oh My Mr. Blue" ganhou contornos mais vertiginosos do que os que se ouvem no disco (a cenografia ajudou a consolidar o efeito, resgatando elementos film noir, um dos traços da era dourada da cultura popular norte-americana que é indissociável do universo de Rita).

 

Momentos como estes provam que a música da cantora está longe de se esgotar nos muito rodados singles, ainda que estes tenham sido dos temas mais celebrados da noite.

Dispensava-se, no entanto, a repetição de "The Beginning Song" e "Choose Love" no segundo encore, cedências compreensíveis mas desnecessárias depois de um alinhamento tão bem estruturado.

 

 

Mais interessante do que qualquer um dos singles - mesmo que estes sejam bem melhores do que grande parte do material das playlists -, a dolente "Once I Found You" voltou a evidenciar-se como uma das pérolas de "Golden Era", com um refrão a aliar beleza e sentimento.

Outro momento bonito, "Minimal Sounds" foi servida com imagens de um céu estrelado e a sua carga etérea reforçou a versatilidade de uma coesa sucessão de canções.

 

Aliando talento, empenho e alguma imaginação, esta terá sido uma noite-chave para o percurso da cantora, recapitulação de mais de um ano de estrada e porta de entrada para um futuro próximo que tem tudo para se manter próspero.

Se a estrada de Dorothy era de tijolos amarelos a de Rita conta com tons dourados, e espera-se que essa luminosidade não se perca tão cedo.

 

Fotos: Vera Moutinho

 

 

 

Rita Redshoes - "The Beginning Song"

 

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