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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Pop reluzente numa noite chuvosa

"Disseram-nos que quando chove em Lisboa ninguém sai de casa, mas já vimos que não é verdade. Obrigada por terem saído", confidenciou uma das Au Revoir Simone entre as primeiras canções que interpretaram ontem na Aula Magna, em Lisboa.

 

O jovem trio de Brooklyn, presença que se vai tornando habitual em palcos portugueses, tinha já actuado na noite de sábado na Casa da Música, no Porto. Ou no ano passado, numa tarde solarenga no Festival Paredes de Coura, onde desvendou alguns temas do seu terceiro disco, "Still Night, Still Light", que veio agora apresentar.

 

 

 

E se aí a banda tinha deixado boa impressão ao vivo, o concerto de ontem só veio reforçá-la. Destilando humildade e simpatia, Annie Hart, Erika Forster e Heather D'Angelo não se cansaram de agradecer os frequentes aplausos, elogiaram o público português e a beleza de Lisboa ("Ontem via-se uma Lua Cheia linda, como na capa do nosso álbum") e foram sempre comunicativas entre a sucessão de canções.

 

Mas além dos muitos sorrisos distribuídos, mostraram-se igualmente cativantes na música. Praticantes de uma indie pop agridoce e minimalista, onde os teclados são a ferramenta de eleição, recorreram também a uma caixa de ritmos e, num tema, chegaram a convocar a inesperada presença da guitarra.

 

 

 

É certo que "Still Night, Still Light" não acrescenta muito aos registos anteriores, "Verses of Comfort, Assurance & Salvation" (2006) e "The Bird of Music" (2007), embora isso esteja longe de ser um problema quando continua a oferecer várias pérolas em forma de melodias etéreas e encantatórias.

 

E felizmente parte das canções não se limitou a ser uma reprodução fiel do que se ouve no disco. Se no álbum são tendencialmente contemplativas, em palco ganharam uma evidente pulsão rítmica. Foi o caso da envolvente brisa dançável que revestiu "Another Likely Story", que quando acompanhada por um simples mas sedutor trabalho de iluminação sugeriu atmosferas de uma discoteca com tanto de onírico como de intrigante.

 

 

Essa sensação acentou-se na recta final do concerto, que Erika descreveu como "a secção psicadélica" e serviu a inebriante "Only You Can Make You Happy" (experiência dream pop de recorte superior), a acelerada e irresistível "Knight of Wands" e a também dinâmica "Tell Me", na origem de um desenlace à beira da explosão.

 

Melhor ainda, e a fazer esquecer um ou outro episódio mais morno, foi o final do obrigatório encore. Antes de "Dark Halls", uma das revisitações de "The Bird of Music", a banda convidou o público a subir a palco para as despedidas - e não foi preciso insistir muito.

Em poucos segundos, o trio ficou rodeado por dezenas de espectadores saltitantes e eufóricos e aí, mais do que em qualquer outro momento, a actuação gerou uma boa disposição contagiante, com quase todos os presentes de pé e a dançar. Uma bela cena de antologia que serviu de ponto final a uma noite reluzente, apesar da chuva.