À noite é que se trabalha bem

Os singles de "Night Work" podem induzir em erro. O primeiro, "Fire With Fire", é talvez a canção menos interessante do álbum, com um tom épico que soa a uma resposta à também cansativa "Human", dos Killers. O segundo, "Any Which Way", mantém o tom boémio que os Scissor Sisters sedimentaram nos dois álbuns anteriores, mas é dos poucos momentos que se esgota num simpático pastiche dos Bee Gees.
As referências desta vez são outras, com um eclectismo que tanto sugere os Talking Heads (na acelerada "Running Out") como os Fischerspooner (nos rodopios viciantes de "Something Like This"), os Soft Cell (no negrume vertiginoso de "Sex and Violence") ou os Goldfrapp (nos sussurros aveludados de "Skin This Cat").
O resultado final, no entanto, soa inequivocamente a Scissor Sisters, naquele que é o seu álbum mais consistente. E também o mais denso, já que, mesmo não sendo assumidamente conceptual, centra-se quase sempre em relatos de aventuras nocturnas e urbanas - nem sempre tão optimistas como a música por vezes sugere, ainda que a banda não abdique do sentido de humor.
A produção de Stuart Price amarra um alinhamento que poderia cair na dispersão e sir Ian McKellen é a cereja em cima do bolo, cujo spoken work dá brilho ao já de si glorioso final com "Invisible Light". Posto isto, fica a dúvida: disco pop do ano?
