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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Conta-me como foi

 

Por esta altura, Ben Affleck já começa a confirmar que a sua surpreendente estreia na realização, com "Vista Pela Última Vez..." (2007), não foi um caso de sorte de principiante. Desde aí, aquele que é um dos actores menos consensuais de Hollywood (para o dizer de forma simpática) tem-se mostrado bem mais à vontade atrás das câmaras, como "Argo", a sua terceira longa-metragem (sucessora de "A Cidade", de 2010), vem mais uma vez sugerir.

 

Não é que a aprovação do Affleck-realizador seja propriamente unânime, mas até os mais desconfiados terão dificuldade em contrariar, pelo menos, a competência que os seus filmes têm revelado até aqui. "Argo" não é diferente e tudo parece bater certo: este misto de thriller político (variante liberal dos anos 70) com sátira a Hollywood (e, simultaneamente, ode aos encantos da ficção científica mais duvidosa) assenta numa situação verídica com potencial, documenta-a bem e adapta-a com desenvoltura (sem recear alterar alguns dos seus contornos), tem um elenco seguro a defendê-la e a trocar diálogos inspirados (com direito a uma expressão de antologia repetida várias vezes), conta com uma realização eficaz (às vezes brilhante, como no arranque tenso, quase sufocante) e uma reconstituição de época sem mácula (cuja atmosfera é reforçada pela fotografia do sempre confiável Rodrigo Prieto).

 

Além dos bons condimentos técnicos, este retrato de um agente da CIA que tenta resgatar seis norte-americanos do Irão, em 1979, convencendo-os a vestir a pele de uma equipa de cinema canadiana (para filmar "Argo", adoptado para título da obra de Affleck), é inteligente e sóbrio o suficiente para nunca cair em maniqueísmos ideológicos ou tiques de thrillers chapa cinco (mesmo que ameace ceder no obrigatório clímax).

 

Mas se não falta aqui rigor e sensibilidade, este ainda não é o grande filme que o actor tornado realizador anda a ameaçar fazer. A narrativa, algo formulaica, envolve-nos sem nunca se atirar a grandes rasgos, e as personagens, sobretudo as dos seis elementos a resgatar, convencem mais pela entrega dos actores do que pela (pouca) atenção que o argumento lhes dá. Infelizmente, a que tem mais tempo de antena - a do protagonista, interpretada por Affleck em modo underacting (nada de novo aqui) - também não é daquelas capazes de carregar um filme às costas (ao contrário da de "Vista Pela Última Vez...", desempenhada pelo irmão do actor/realizador, Casey, que continua a fazer-lhe sombra no plano interpretativo).

Claro que, num ano em que as surpresas cinematográficas têm sido tão poucas, "Argo" destaca-se, sem grandes hesitações, como um filme a espreitar (encontrá-lo num multiplex, então, é quase um luxo), e nem era preciso o demérito da concorrência para perceber que Affleck (versão realizador) continua no bom caminho...