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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Fundo de catálogo (93): Kelli Ali

Kelli Ali deu nas vistas, há quase 20 anos, como vocalista e face mais reconhecível dos Sneaker Pimps antes de ser convidada a sair logo depois do primeiro álbum dos ingleses, "Becoming X" (1996). De pouco lhe valeu ter continuado um percurso em nome próprio, com uma colecção de colaborações pelo meio, porque para boa parte dos que ainda se lembram dela continuará a ser a voz agradável de "6 Underground", "Spin Spin Sugar" e... não muito mais. Por isso, "Band of Angels", o seu quinto disco a solo, editado em Fevereiro, está praticamente condenado a ter o mesmo destino - e (pouco) público - dos anteriores.

Se IAMX, o projecto a solo de Chris Corner (o segundo vocalista dos Sneaker Pimps), ainda vai despertando algumas atenções, a música de Kelli Ali chegará a um nicho desse nicho, o que é pena, porque até tem sido melhor e, sobretudo, menos repetitiva. Em vez de se limitar à enésima variação electro, a obra da cantora e compositora começou com a simpática pop radiofriendly (mas ignorada pelas rádios) de "Tigermouth" (2003), saltou para o caldeirão trip-hop/industrial/rock do bem mais estimulante "Psychic Cat" (2004), acalmou na inesperada viragem folk de "Rocking Horse" (2008) e tornou-se ainda mais minimalista e acústica em "Butterfly" (2009).

"A Paradise Inhabited By Devils" (2010), gravado com o pianista suíço Ozymandias, levou a ambição mais longe ao ir buscar inspiração à escrita de Mary Shelley no álbum mais negro de Ali, juntando sussurros góticos a um canto quase operático - vale bem a pena dedicar-lhe algum tempo (de madrugada, já agora), até porque ainda podemos ouvi-lo gratuitamente no Bandcamp. É a este disco, aliás, que o novo "Band of Angels" pede emprestado parte do seu ambiente, embora a sua autora saliente que a maior inspiração foi a redescoberta dos Sisters of Mercy, referência nada estranha para quem já deu a voz à house de Satoshi Tomiie, ao funk digital de Bootsy Collins, a uma remistura dos Linkin Park ou que até escreveu uma canção para Paul Oakenfold e Brittany Murphy.

Entre tanta dispersão nem tudo foi brilhante, mas "Band of Angels" é um disco coeso e brilha alto em momentos como "Kiss Me Cleopatra" ou "In the House of Love", que repescam e actualizam a melhor electrónica de "Psychic Cat" e ficam como banda sonora ideal de uma pista de dança imaginária. A despedida densa e encantatória de "Eternity" é outro achado de um álbum que, bem mais do que os Sisters of Mercy, lembra uma improvável - e estranhamente feliz - parceria entre Kylie Minogue (dos dias de "Impossible Princess"), Kate Bush e as esquecidas Bunny Rabbit.

Como do novo disco ainda há pouco disponível para partilha e um videoclip não deverá ver a luz do dia tão cedo, fica a sugestão de viagem até à electrónica de "Psychic Cat" e "Home Honey I'm High", passando pela fase pastoral de "Wings in Motion" ou pela pop de câmara de "Almost Diamonds", participação de Kelli Ali em "Open All Night" (1999), de Marc Almond, um dos melhores discos do vocalista dos Soft Cell: