Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Isto (não) é um filme de gangsters

 

"Em Bruges", a estreia de Martin McDonagh na realização depois de um considerável (e aplaudido) percurso de dramaturgo, conseguia, nos melhores momentos, pensar fora da caixa e trocar as voltas aos modelos dos filmes de gangsters. Quatro anos depois, "Sete Psicopatas" devolve o irlandês à sétima arte numa segunda obra igualmente lúdica, pessoal, tagarela (a atenção aos diálogos mantém-se entre os trunfos) e talvez ainda mais engenhosa.

 

McDonagh repesca Colin Farrell, agora na pele de um escritor que tenta iniciar o livro que dá título ao filme, e repesca também o gosto pela liberdade narrativa ao optar por uma lógica meta-referencial, saltitando entre realidade e ficção de forma cada vez mais auto-consciente (há quem compare as brincadeiras formais aos argumentos de Charlie Kaufman, mas a recente "Odisseia" de Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington também não anda muito longe desta mistura de subversão, humor negro e melancolia).

 

Além de Farrell, o protagonista em crise de inspiração que vai unindo as pontas de histórias entrecruzadas, "Sete Psicopatas" sabe tirar partido de actores como Sam Rockwell, em modo expansivo e a roubar todas as cenas em que entra (e tem tido tão poucas oportunidades de mostrar o que vale), ou Christopher Walken, que no extremo oposto impõe respeito num estimável exemplo de contenção. Já Woody Harrelson tem rédea solta para compor um vilão tão caricatural como os dos filmes que McDonagh tenta desconstruir: às vezes o realizador ameaça dar um passo maior do que a perna, mas momentos como a delirante sequência de tiroteio mostram que "Sete Psicopatas" vale bem mais do que o pastiche Tarantino que pode parecer à partida (e até é bastante certeiro na sátira à irrisão exagerada e saturante de títulos como... "Django Libertado").