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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Música para as massas festivaleiras

 

Podiam ter entrado logo a matar. Não lhes faltam, como já se sabe e o concerto comprovaria mais à frente, munições pop prontas a acertar no coração de milhares de devotos. Mas não começaram por aí. No seu regresso a palcos nacionais este sábado, no Optimus Alive, os Depeche Mode arrancaram com duas canções do álbum novo, "Delta Machine", e tanto "Welcome to My World", mais atmosférica, como "Angel", mais eléctrica, souberam ir dando as boas vindas, pacientemente, de forma mais intrigante do que explosiva (e até soaram melhor do que em disco, do qual são também as duas faixas iniciais).

 

Aos primeiros acordes de "Walking in My Shoes", pouco depois, deu-se o primeiro grande acesso de euforia generalizada (ou segundo, se contarmos com o da entrada em palco), no tema mais reconhecido por grande parte do público até aí. Esta alternância entre novidades/temas obscuros q.b. e clássicos incontornáveis seria, depois, o padrão de um concerto capaz de manter um compromisso justo entre risco e segurança, com uma mão cheia de hits prontos a satisfazer os adeptos das rádios das "grandes músicas" (parte expressiva das massas que quase lotaram o recinto) mas sem precisar de os usar como recurso habitual ou tábua de salvação.

 

 

Veteranos, embora pouco dados a meras demonstrações de nostalgia, ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, os Depeche Mode que nos visitaram mostraram-se bem vivos e não mais uns esforçados sobreviventes, com exemplo maior na garra de Dave Gahan, vocalista confiante, gingão e bamboleante como poucos. Quem o vê assim fica praticamente convencido (ou, pelo menos, com vontade de acreditar) que os episódios mais negros da sua vida pessoal, ameaças à continuidade da banda há uns anos, terão ficado mesmo para trás.

 

Foi muito por culpa de Gahan que uma canção recente como "Should Be Higher" passou da quase indiferença inicial a um dos finais mais faíscantes e envolventes, resultado das provocações de um vocalista com a escola toda quando o assunto é atiçar o público (o compasso tenso e hipnótico da canção, mais robusto ao vivo, e as imagens de pirotecnia também ajudaram). No extremo oposto, a timidez de Martin Gore foi acolhida com o respeito merecido durante as interpretações minimalistas (só voz e piano) de "Shake the Disease" e "Home", baladas oferecidas com uma intensidade à prova de qualquer cinismo.

 

 

Dos temas mais populares, "Precious" confirmou-se, passe a redundância, como um singles recentes mais preciosos dos Depeche Mode, com direito a versão simultaneamente intimista e espacial. A operação de cosmética também passou por clássicos como a já algo cansativa, sim, mas ainda suficientemente vibrante "Personal Jesus", "A Question of Time", mais musculada, ou o clássico dos clássicos "Enjoy the Silence", com frenesim instrumental dançável no final (e de longe o melhor momento para a fotografia da química entre público e banda, embora o mar de braços ondulantes já no encore, em "Never Let Me Down", tenha chegado lá perto). Mais extrema, a nova cobertura de "A Pain That I’m Used To", com o electro a eclipsar o industrial, tornou o tema quase irreconhecível, numa das variações mais inesperadas.

 

Ao longo de duas horas muito bem conduzidas, o concerto não chegou a superar o de 2009 no Pavilhão Atlântico (a ligação entre música e imagem, demasiado arbitrária, nem sempre funcionou e temas como "Black Celebration" ou "Heaven" refrearam os ânimos), mas deixou claro que a fé e devoção nos Depeche Mode é imune a quaisquer beliscões, pelo menos quando a banda sobe ao palco. As massas agradecem, aplaudem e ficam à espera de mais...

 

 

Foto @Filipa Oliveira/SAPO On The Hop Vídeos @apis38