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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Universo particular

 

Aos vinte e poucos anos, Miguel suicidou-se. Ninguém percebeu porquê. Dias depois da morte, o som do tiro que o matou é o último de uma série de gravações pessoais que seis dos seus amigos ouvem quando regressam à sua terra natal, uma povoação no interior da Argentina. O retiro, onde se cruzam memórias e a procura de pistas para o suicídio, é documentado por Leonardo Brzezicki em "Noche", a primeira longa-metragem do realizador argentino que se notabilizou através de algumas curtas ou na montagem de "Glue", filme de culto de Alexis Dos Santos exibido há anos no Queer Lisboa (festival que apresenta agora "Noche" na secção Queer Art).

 

Mas mais do que com a obra de Dos Santos, o filme de Brzezicki tem sido associado aos universos de Carlos Reygadas, Apichatpong Weerasethakul ou até Tarkovski pela dimensão experimental e sobretudo sensorial de uma longa-metragem de estreia invulgarmente desafiante.

Contemplativo, de ritmo pausado, dividido entre longos planos fixos e travellings meticulosos, "Noche" ameaça tornar-se, nos primeiros minutos, num exercício de estilo opulento que intimida e distancia mais do que intriga e envolve. Aos poucos, contudo, e mesmo que nunca se livre de vez de uma certa auto-indulgência (tão arty como algumas das suas personagens), este ensaio sobre o crescimento, a amizade, a diferença e a perda vai delineando uma atmosfera cuja intensidade está à altura da mestria formal da maioria das sequências (vincada por contrastes impressionantes entre o que vemos e ouvimos, num encontro entre o passado e o presente ancorado no design sonoro, ou por um efeito não menos admirável nascido da justaposição de imagens).

 

Entre os muitos planos de cenários campestres (a milhas de clichês bucólicos e dominados por uma omnipresente carga etérea), as ligações entre os amigos de Miguel vão sendo reveladas e, apesar de o desenvolvimento das personagens ser mínimo, nenhum destes jovens adultos fica reduzido a uma caricatura. Num filme em que o som surge quase sempre de relatos gravados, os olhares e a linguagem corporal comandam as interacções e Brzezicki mostra-se um esteta confiável nessa opção. E se "Noche" poderia ter, quase de certeza, outro impacto caso se mantivesse no molde inicial de curta-metragem, o formato final de quase hora e meia ainda apresenta uma obra com uma força digna de respeito - e pouco amiga de consensos, como qualquer quase experiência-limite que se preze.

 

 


"Noche" é um dos filmes em exibição na 17ª edição do Queer Lisboa, a decorrer até 28 de Setembro no Cinema São Jorge.

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