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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Homens de ferro

 

Quem acredita que a realidade é mais estranha do que a ficção tem em "Rush - Duelo de Rivais" um bom argumento. O biopic centrado na rivalidade entre o austríaco Niki Lauda e o britânico James Hunt quase nem aposta em liberdades criativas face ao que se conhece do Campeonato do Mundo de Fórmula 1 de 1976, evento decisivo da acção do filme, e prefere seguir prego a fundo pelos factos verídicos que fizeram desta uma das duplas mais celebradas e contrastantes da modalidade.

 

A profusão de peripécias, com destaque inevitável para o mítico "renascimento" de Lauda, é mais do que suficiente para garantir um filme mirabolante, mas (felizmente) não tão excessivo como algumas corridas hollywoodescas. Mérito do britânico Peter Morgan, argumentista habitualmente confiável ("A Rainha", "Frost/Nixon", "A Toupeira") a testar aqui outros caminhos ao lado de Ron Howard, realizador nem sempre (ou quase nunca?) tão credível. A combinação funciona e "Rush - Duelo de Rivais" não só mostra a esperada competência industrial do norte-americano como nunca coloca as máquinas à frente das personagens. Mais do que os carros, são os homens que interessam e o filme sabe torná-los interessantes mesmo para quem só conhece a Fórmula 1 de enfastiadas tardes domingueiras de zapping.

 

 

O estudo de personagens, aprofundado q.b. embora com alguns esquematismos, não compromete que este biopic tenha nas pistas alguns dos seus momentos altos - e a câmara de Howard é ágil na construção de sequências simultaneamente vertiginosas e realistas, com um inesperado lado artesanal quase imune a CGI. Mas essas cenas não seriam tão certeiras caso não tivessem actores à altura dos pilotos, limitação da qual "Rush - Duelo de Rivais" não sofre já que a dupla protagonista convence individualmente e (sobretudo) em conjunto.

 

Chris "Thor" Hemsworth sugere ser capaz de ir mais longe do que alguns papéis que tem aceitado e mesmo que o seu aspecto físico seja determinante, joga a favor de um James Hunt espirituoso, desregrado e carismático - e bem além da caricatura. Daniel Brühl não surpreenderá tanto, mas só porque já tinha dado provas de ser um actor a seguir em "Adeus, Lenine!" ou "Os Edukadores". O seu Niki Lauda, inacreditavelmente parecido com o real antes e depois do quase trágico acidente (tanto que o próprio ficou boquiaberto), é perfeito no equilíbrio de obstinação, calculismo, frieza e vulnerabilidade encapotada. Não desfazendo da energia de Hemsworth (ou do rigor de Morgan e Howard), e apesar da voz off intrusiva, acaba por ser ele o motor de um olhar emplogante sobre a disputa entre a paixão, a competição e a obsessão.

 

 3/5