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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Entre a tradição portuguesa e o transe electrónico

Da Beira Baixa para o mundo, ou pelo menos para o palco do Lux. Na passada quinta-feira, 20 de Abril, os BANDUA revisitaram o álbum de estreia na discoteca lisboeta e apresentaram novidades num concerto que também não dispensou "Bandeiras", tema que parece marcar um virar de página nesta história entre a tradição e a modernidade.

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Ana Viotti

"Quem canta, seus males espanta", entoou Edgar Valente perto do final da (muito concorrida) actuação dos BANDUA numa sala onde o vocalista confessou já ter sido muito feliz com a música de terceiros.

Mas desta vez, foi o seu projecto com Bernardo D’Addario (programações, adufe, baixo) o responsável por uma catarse musical que arrancou em modo hipnótico e contemplativo, à medida dos temas do disco homónimo (uma das boas surpresas nacionais do ano passado), e que terminou já perto da euforia raver, cortesia das novas canções guardadas para os últimos minutos desta cerca de hora e meia.

Com um ritmo bem desenhado, foi um concerto quase sempre em crescendo, partindo das sugestões downtempo de "Cinco Sentidos", um dos cartões de visita da dupla, envolvendo desde aí um público atento num transe que deu lugar a um ambiente mais efusivo com "Bandeiras", o tema que os BANDUA apresentaram na mais recente edição do Festival da Canção. Apesar de ter sido mas propostas mais fortes (para não dizer mesmo a melhor deste ano), não chegou a passar à final, mas nem por isso deixou de marcar o percurso da banda como nenhuma outra.

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Ana Viotti

No Lux, o duo sublinhou a abertura de portas desse episódio - com a maior visibilidade garantida pela sua primeira actuação televisiva -, assinalando que também levou ao reforço do seu ímpeto de continuar a fazer música. Boas notícias para quem reconhece aqui um dos nomes a seguir da música que se faz por cá, em especial daquela que une a tradição e a modernidade, juntando folclore e electrónica - como o fez em tempos João Aguardela na experiência Megafone (algo esquecida, mas uma influência assumida), Vasco Ribeiro Casais no projecto Omiri ou Pedro Lucas com O Experimentar Na M'Incomoda.

No caso dos BANDUA, a matéria-prima tem tido raízes na Beira Baixa, mas um eventual segundo álbum será seguramente diferente da estreia. Foi essa a impressão deixada pelas canções inéditas num concerto que abraçou outros recantos da música de dança, com destaque para a escola mais agitada dos anos 90 - do techno à house, do breakbeat ao drum n' bass ou a acessos pontuais mais recentes, via dubstep, numa fusão que a dupla descreve como tugastep.

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Na primeira canção estreada, Edgar Valente cantou sobre barquinhos e passarinhos mas a arquitectura rítmica desse e de outros momentos, apesar da contribuição do adufe, foi abandonando o imaginário rural para se aproximar da faceta mais psicadélica de uns Orbital e Chemical Brothers ou da vertente mais sintetizada de uns Depeche Mode. Curiosamente, os novos temas até foram acolhidos de forma mais entusiasta do que muitos dos já conhecidos, sugerindo que "Bandeiras" pode ser apenas o pico do início desta viagem - e que o melhor dos BANDUA, afinal, talvez ainda esteja para vir...

Se organizar direito, todo o mundo cabe (e quase tudo é permitido)

"A gente já esteve aqui", cantou LETRUX esta quarta-feira, 19 de Abril, numa noite no Musicbox Lisboa esgotada há meses. E poucas vezes essa constatação de "Déjà Vu Frenesi" terá feito tanto sentido: a brasileira actuou duas vezes no mesmo dia na sala do Cais do Sodré, onde também já se tinha apresentado na terça, noutro concerto com casa cheia. No final, só lhe faltou dizer "A gente vai voltar aqui"... mas essa certeza ficou mais do que implícita.

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Filipa Aurélio/Musicbox Lisboa

Num muito bem-sucedido regresso a Portugal (onde tinha deixado óptimas memórias no ano passado), que também inclui espectáculos no Porto e em Coimbra, a autora de "Letrux em Noite de Climão" (2017) e "Letrux aos Prantos" (2020) não regressou com um novo disco, mas antes com um documentário, "Letrux: Viver é um Frenesi", que motivou uma sessão no Cinema Ideal, em Lisboa, esta quinta-feira, e também pode ser visto gratuitamente no site do Sesc Digital (e só peca por ser tão curto, com pouco mais de 30 minutos de duração).

Uma das cenas mais reveladoras do filme de Marcio Debellian, que percorre a infância e adolescência de Letícia Novaes mas também a fase da pandemia, é quando a cantora, compositora, actriz e escritora carioca explica a origem do seu nome artístico, associando-a ao verbo "to let", em inglês. "Eu me permito", confidencia, e essa liberdade já evidente nos discos de horizontes bem abertos também percorreu um concerto que, tal como o documentário, cruzou tempos e referências, paixões e recordações.

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Apostando num formato intimista, acompanhada de apenas dois músicos (Arthur Braganti nos teclados, guitarra e segunda voz boa parte do concerto, Pedro Colombo em participações pontuais na guitarra), LETRUX conjugou originais e versões, homenageando figuras marcantes do seu percurso numa viagem de quase hora e meia que foi da MPB à synth-pop, do rock de contornos indie a acessos flamenco.

Pelo caminho, entre recortes de fases da sua vida, permitiu-se até abraçar clichés de peito aberto, caso da interpretação do clássico/património brasileiro "Águas de Março", episódio inicialmente traído por problemas técnicos quando uma guitarra insistiu em não colaborar.

Também se deu ao luxo de incluir uma espécie de intervalo publicitário, com o humor como trunfo, para promover a venda de sungas inspiradas no imaginário dos álbuns, ou de dispensar o encore, oferecendo as últimas canções depois de pedir ao público que imaginasse a sua saída e regresso a palco.

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Filipa Aurélio/Musicbox Lisboa

Partindo das palavras de gente tão diferente como William Shakespeare (num breve e eloquente monólogo inaugural) ou Clarice Lispector e revisitando canções de luminárias conterrâneas como Marina Lima, Rita Lee, Barão Vermelho ou Caetano Veloso, ofereceu ainda uma das versões mais inesperadas ao recordar "Take My Breath Away", dos norte-americanos Berlin, dando uma cama de teclados e um tom mais espacial ao tema-chave de "Top Gun" (a sua escolha musical para o seu eventual casamento, ficámos a saber) e levando um céu estreado ao Musicbox, numa das opões cénicas mais conseguidas, provando que a limitação de recursos não tem de comprometer a criatividade.

O seu cabelo, por exemplo, foi todo um programa e valeu por um par de adereços ou trocas de guarda-roupa. Praticamente mutante de canção para canção, esvoaçante ou apanhado de várias formas, foi igualmente expressão de uma liberdade que também passou pela forma solta, e ao mesmo tempo teatral, com que a carioca se atirou a canções de terceiros. Fica-se com a ideia de que poderia cantar qualquer coisa, não só pelos méritos vocais mas tanto ou mais pela capacidade performativa total, onde cada gesto ou olhar conta - como contam as intervenções e apartes tendencialmente espirituosos a meio das canções ou entre elas.

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Filipa Aurélio/Musicbox Lisboa

"Essa canção é dedicada à tradicional família brasileira sapatã", disse antes de "Que Estrago", um dos temas mais fulminantes do disco de estreia. "Ou à tradicional família portuguesa fufa", acrescentou. Do seu catálogo, brilharam ainda a confissão bilingue "I'm Trying to Quit", as sempre tocantes "Dorme com Essa" (a alusão a Lisboa não passou despercebida e foi dos momentos mais celebrados) e "Cuidado Paixão" ou as festivas "Flerte Revival" e "Me Espera", potentes disparos de adrenalina no final.

Tivemos frenesim, climão e alguns prantos, temos decididamente um novo fenómeno por cá.

Nota: as fotos deste post são do concerto de 18 de Abril