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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O regresso do navegante da lua

THE SOFT MOON já não é uma novidade em palcos nacionais, mas o regresso mais recente de Luis Vasquez trouxe as novas canções de "Criminal" ao RCA Club, em Lisboa, na passada sexta-feira. E comprovou que está aqui uma força (sempre negra) a ter em conta - sobretudo ao vivo.

 

The Soft Moon RCA Club

 

Com quatro álbuns e um EP no currículo, THE SOFT MOON tem-se mostrado, desde inícios da década, como um dos nomes mais consistentes na exploração de cruzamentos entre territórios pós-punk, industriais e góticos, com passagens pela EBM ou coldwave. Não será uma combinação inédita, nem a mais original, mas Luiz Vasquez, o mentor do projecto, parece ter um conhecimento enciclopédico dos domínios que percorre e consegue desbravar recantos inesperados, apesar das muitas influências óbvias e assumidas - dos Joy Division aos NEU!, passando pelos The Cure, Nitzer Ebb ou Nine Inch Nails, a lista é longa e sempre de tons turvos.

 

Se o norte-americano ainda não terá editado um registo ao nível dos mais marcantes das suas referências, nem por isso tem deixado de ser um cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista a gerar culto e entusiasmo. E embora os discos não tenham proposto grandes viragens sonoras, há uma aproximação ao formato canção - em especial nos mais recentes, "Deeper" (2015) e "Criminal" (2018) - que contrasta com a penumbra atmosférica dos primeiros dias ao encontrar refrães fortes no meio do desespero.

 

The Soft Moon RCA Club 2

 

O regresso mais recente a Lisboa permitiu atestar isso mesmo, entre momentos tendencialmente instrumentais e outros onde a voz se insurgiu e tentou controlar os acontecimentos. Apresentando-se no formato banda, ao lado de dois músicos que, tal como ele, foram alternando instrumentos - guitarra, baixo, teclas, programações, vários tipos de percussão - , Vasquez não gastou muitas mais palavras além das que deixou nas canções, ficando-se por uma breve saudação, despedida e agradecimentos. Mas também ninguém terá sentido grande falta delas ao longo de um concerto que, apesar de ter durado pouco mais de uma hora, conseguiu agregar quase duas dezenas de temas a um ritmo imparável - e nem deixou a sensação de ter sabido a pouco, tirando talvez no encore de apenas duas canções.

 

Com o alinhamento que revisitou todos os discos, "Criminal" acabou por ser o mais predominante e tão bem acolhido como os anteriores por uma sala repleta. Da revolta à la Trent Reznor de "Burn" à igualmente inquieta "The Pain" ou à mais contida "Give Something", com a voz a aventurar-se por tons agudos, as canções soaram ainda mais urgentes do que no álbum - e o mesmo poderá dizer-se dos temas dos registos mais antigos.

 

"Far", hino propulsivo tão enérgico como angustiado, é bem capaz de ter sido o grande momento da noite, ainda que o patamar se tenha mantido quase sempre elevado. "Deeper", "Wrong" e "Want" - no arranque, a meio e no final, respectivamente - viram Vasquez trocar a guitarra pelos bongos, em acessos tribais que tornaram o cenário mais apocalíptico. Já "Insides" ou "Parallels" mergulharam numa faceta hipnótica que não comprometeu a intensidade.

 

The Soft Moon - Criminal

 

O trabalho de iluminação foi acompanhando as temperaturas das canções, entre tons negros, azulados ou escarlate, sem que se sentisse a falta de mais elementos cénicos: bastou a névoa que sublinhou o efeito dramático e a entrega evidente da banda. Vasquez, especialmente irrequieto, manteve um entusiasmo comparável ao dos fãs das primeiras filas, dançando, saltando e contorcendo-se, com a linguagem corporal a falar mais do que a verbal. Regresso garantido? Depois de uma actuação tão incisiva e ocasionalmente esmagadora, não há grandes dúvidas.

 

A abrir a noite, os WHISPERING SONS foram uma aposta mais do que competente. Também influenciados pelo pós-punk, os belgas destacaram-se não tanto pelas canções mas pela construção de ambientes, com mais espaço para surpresas do que a voz de Fenne Kuppens, ainda um pouco encostada a alguns ícones sombrios q.b. dos anos 80. O grupo define a sua música como nervosa e desesperada, características  dominantes do álbum de estreia, "Image", apresentado numa actuação envolvente e atmosférica, com pontes para algum shoegaze de boa linhagem, até mesmo na atitude dos elementos da banda - todos metidos consigo mesmos. A excepção foi o vocalista, que se dirigiu frequentemente ao público e terá conquistado grande parte dele enquanto deixou aqui um cartão de visita apelativo.

 

4/5

 

 

Ainda crua como sushi (mas com um álbum quente a caminho)

De volta aos discos e aos palcos, NENEH CHERRY tem actuado em algumas (escassas) salas europeias, com concertos que revelam já grande parte do que esperar do próximo álbum. Um dos mais recentes decorreu no Café de la Danse, em Paris, e o André Gonçalves conta como foi - num texto que é o primeiro de um autor convidado deste blog.

 

Neneh Cherry Paris

 

"Querem '7 Seconds' ou 'Buffalo Stance'?"

O relógio marca já uma hora de concerto. Ela tinha já avisado entre canções que a duração iria ser essa, mas pelos vistos lá descobre uma folga, uma surpresa.


Ela é Neneh Cherry, possivelmente a artista pop/punk mais subestimada da contemporaneidade. Não é por falta de currículo ou até de boas companhias: a sueca radicada no Reino Unido é afinal uma das artistas pioneiras do trip-hop; é também enteada do artista de jazz Don Cherry, e teve o privilégio de contar na sua infância com a presença de outros grandes, como Miles Davis, de quem se sentou ao colo, muito antes de a vermos aqui, cinquentona, no Café de la Danse, em Paris, por onde passou a 26 de Setembro.
 
E que visão. Esta "cereja" não aparenta gostar de remoer muito tempo no passado, ou nas suas ligações privilegiadas, aproveitando assim um encore para despejar dois "clássicos" ("I've Got You Under My Skin" e "Manchild") e pedir então ao público que optar por mais um. "7 Seconds ou Buffalo Stance?", lança.

O grosso da actuação é então usado para promover o seu novo álbum, "Broken Politics" (com data de lançamento já para o próximo dia 19 de Outubro) - o sucessor de "Blank Project" de há cinco anos. Não há fraude: a artista cumprimenta o público e diz ao que vem. Aproveita para acrescentar a diferença face ao "projecto em branco" anterior; uma maior introspecção, que se verificou também no tempo que este último álbum levou a cozer face ao anterior, feito praticamente numa sessão, acredite-se ou não.

 

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A sua indumentária é logo uma declaração de intenções: um casaco/sweat meio tigresse a fazer pendant com as calças (totalmente anti-modas), que depois se vai despindo ("Está muito calor") para revelar uma t-shirt com frase feminista provocadora: "What do Women Want" (sem ponto de interrogação à vista, mesmo assim).

"Fallen Leaves" abre o mote. Facilmente entendemos que estamos perante a equipa que ajudou a trabalhar naquele que permanece um dos grandes regressos do novo século: as batidas minimalistas de Four Tet são por esta altura indistinguíveis de qualquer outro produtor. Mas não se deixe o leitor enganar: por detrás de tanto minimalismo e introspecção, há uma banda completa, há todo um conjunto de instrumentos - começando logo pela harpa, que aqui e ali rouba atenções, estando fora do que esperávamos de nova aventura entre esta sueca "terrible" e o britânico igualmente "inconformado" com tendências atuais, fiel à sua sonoridade.

"Shot Gun Shack" surge logo de seguida, numa versão ainda mais solta do que a disponibilizada há umas semanas - ficamos a esperar que esta versão esteja mais próxima de uma versão final de álbum; não que a versão single, por assim dizer, seja má; mas estamos oficialmente encantados com o rumo que este projecto está a tomar...

"Faster than the Truth" e "Natural Skin Deep" continuam a cumprir a melhor das expectativas, sendo das faixas mais uptempo aqui apresentadas. "Synchronized Devotion" abranda um pouco o ritmo, num diálogo com o espectador, uma canção em tom de confissão. "São as minhas políticas a viver num jam lento" fala a letra, enquanto Neneh revela o seu signo astrológico e data de nascimento, como se estivesse num "tête a tête" informal com o público, até porque pouco depois começa a apresentar um dos membros da sua banda... Está criada a ligação emocional.

 

Neneh Cherry - Broken Politics

 

A meio do alinhamento junta-se "Kong", tema também com assinatura de Robert "Massive Attack" Del Naja, um regresso ao passado, sim (pode fazer-se aqui ponte com o mais antigo "Manchild", que virá mais adiante), mas simultaneamente uma faixa que não poderia soar diferente de tudo o que está a ser produzido neste momento - nem mesmo o que tenta soar à década de 90. Uma das grandes candidatas a canção de 2018 permanece igualmente forte ao vivo, sobretudo quando parte da letra menciona o país onde estamos ("todas as nações procuram os seus amigos em França e Itália"), retratando aqui a crise de refugiados e a incerteza em relação ao futuro, perante as ilusões desfeitas - mas uma melancolia que revela uma mensagem positiva. "Arranca a minha cabeça, ainda assim o meu mundo será sempre um pequeno risco digno de tomar". Letra mais em ligação com os eventos políticos recentes seria praticamente impossível.

Mais três canções de "Broken Politics" nos aguardam, sendo que a de encerramento deste pré-encore faz também correspondência com o encerramento do álbum em questão: "Soldier" promete ser das faixas que mais vão agarrar à primeira o ouvinte, aquela em que a instrumentação, ainda minimalista, parece atingir apropriadamente um êxtase.

E eis que chegamos então aos "greatest hits" condensados em três canções, 15 minutos. São poucas as artistas mundiais dignas de fazerem tamanha "desfeita". Mas serão também poucas as artistas cuja obra tenha demonstrado, mesmo nos seus momentos mais "acessíveis" (pensamos obviamente em "Man" de 1996, e nos seus singles "Woman" e "7 Seconds"), uma consistência qualitativa ímpar com os seus contemporâneos, rivalizando sim com os tão mais legitimados Massive Attack de Del Naja.

Para choque dos leitores - ou não, dependendo da relação com a cantora -, o público escolheu praticamente em uníssono "Buffalo Stance" para fechar este concerto. E foi um concerto tão conciso que o único ponto por onde pegar pelos mais picuinhas será, precisamente, não oferecer margem para trazer mais do que esta hora mágica.  

4/5

 

Neneh Cherry alinhamento

Nota: o alinhamento contou ainda, no final do encore, com "Buffalo Stance"

 

 

 

 

Preto no branco

Embora declaradamente político, "BLACKKKLANSMAN: O INFILTRADO" é dos filmes mais arejados de Spike Lee, uma sátira atravessada pelo racismo e baseada num caso real mais mirabolante do que muita ficção. Pelo meio, ainda revela um actor a fixar.

 

BlacKkKlansman

 

Ron Stallworth, o primeiro agente afroa-americano a integrar a polícia de Colorado Springs, nos anos 70, já tinha contado a sua experiência num livro e volta agora a ser retratado no grande ecrã. Até porque se há vida (ou episódios delas) que dava um filme, é esta. Ou pelo menos o facto de Stallworth, sendo negro, se ter inflitrado no Ku Klux Klan, depois de falar com os responsáveis da organização ao telefone e fazendo-se depois representar por um colega judeu nas reuniões onde se promovia o ideal de supremacia branca.

 

De uma premissa tão absurda e anedótica, Spike Lee chegou a uma das suas obras mais celebradas e consensuais em anos, e também das poucas que tiveram direito a estreia nas salas portugueses em muito tempo (um problema que, no caso da sua filmografia, já vem de trás). E chega em boa hora, porque a brincar, a brincar, "BLACKKKLANSMAN: O INFLILTRADO" não só é das melhores comédias norte-americanas recentes como das que mais tem a dizer, ou não viesse de um realizador que nunca se esquivou a comentar o estado das coisas (quase sempre com o racismo entre os maiores focos de atenção).

 

BlacKkKlansman

 

Mais contido do que alguns gritos de revolta do cineasta de "Não Dês Bronca" ou "A Última Hora", o resultado é ainda assim assertivo ao apontar como a comunidade afro-americana tem sido encarada nos EUA, com a acção a decorrer há quatro décadas mas claramente a revelar semelhanças com situações do dias de hoje. Donald Trump sobressai como óbvio saco de pancada, embora indirectamente, através da figura de David Duke, então líder do Ku Klux Klan e autor de algumas tiradas perigosamente próximas daquelas a que o presidente norte-americano nos tem habituado.

 

Sem ser um tratado de subtileza, e propondo até paralelismos bastante óbvios, "BLACKKKLANSMAN: O INFILTRADO" tem a seu favor o facto de optar quase sempre pela descontracção e ironia em vez do panfleto alarmista, uma postura reforçada por um elenco encabeçado por John David Washington (filho de Denzel). Na pele de um jovem agente que defende as suas cores à sua maneira, de forma orgulhosamente desalinhada, o actor-revelação dá logo ao filme um capital de simpatia e carisma consideráveis, numa conjugação de integridade e coolness que parece surgir sem esforço. Adam Driver, no papel de colega e cúmplice de missão, é outro exemplo de um casting inspirado, determinante para o tom lúdico, mas não oco, que esta aventura improvável vai mantendo.

 

Lee até é mais ambíguo do que o que talvez se esperaria a dar conta de mais de uma forma de extremismo e fundamentalismo. A do KKK, claro, desde logo, mas também o dos Black Panthers, ao olhar com algum sentido crítico para a luta pelos direitos civis dos afro-americanos enquanto atira o protagonista para um centro ideológico à procura do seu próprio rumo. Ainda assim, o seu retrato não é propriamente comedido: a denúncia do racismo de clássicos do cinema como "E Tudo o Vento Levou", de Victor Fleming, ou de "O Nascimento de uma Nação", de D. W. Griffith, aponta para uma história de subjugação dos negros em várias frentes - e promete causar irritação em alguns cinéfilos mais susceptíveis.

 

BlacKkKlansman 2

 

Se as mais de duas horas de duração levam a que algumas ideias e gags comecem a tornar-se recorrentes, "BLACKKKLANSMAN: O INFILTRADO" consegue manter uma energia contagiante até ao fim, mérito de um cineasta que sabe como moldar esta farsa activista com desenvoltura e força visual (aqui a revelar inspiração directa do cinema blaxploitation, cujo auge se deu nos anos em que a acção decorre). E essa costela subversiva até torna desculpável o lado demasiado caricatural de algumas personagens, sobretudo as que não são olhadas com grande simpatia pelo argumento pelas associações à extrema-direita.

 

Lee só se leva demasiado a sério mesmo no final, quando salta dos anos 70 para o presente e da ficção para a realidade, no segmento mais cru e angustiante mas também aquele que mais parece desenhado a traço grosso. A urgência do apelo é indiscutível, embora seja feita através de uma viragem de tom (desnecessariamente?) abrupta num filme já vincado por ligações ao presente e que conseguia, até aí, falar a sério sem ser pesadão. Por outro lado, admita-se que é cada vez mais difícil continuar a rir quando alguns piores momentos da História se repetem de forma tão evidente, o que faz desta uma comédia particularmente negra e assustadora. E sem promessas de finais felizes quando o seu conflito central parece estar só a recomeçar fora do ecrã...

 

3,5/5

 

 

A estranha em mim

Entre o drama adolescente, o thriller psicológico e o mistério sobrenatural, "THELMA" nasce do cruzamento de territórios sem nunca optar por um, mas também nem precisa: o novo filme de Joachim Trier revela-se mais intrigante quanto mais vai diluindo géneros e fronteiras.

 

thelma

 

Revelado internacionalmente ao segundo filme, "Oslo, 31 de Agosto" (2011), ao qual se seguiu o menos consensual, mas ainda assim bem interessante "Ensurdecedor" (2015), Joachim Trier tem-se mantido um cineasta confiável enquanto vai deixando olhares íntimos e personalizados sobre a solidão, a entrada na idade adulta ou a falta de comunicação, temáticas habituais nos seus estudos de personagem meditativos e claustrofóbicos q.b..

 

"THELMA" não é excepção, embora marque uma viragem no percurso do realizador norueguês ao se desviar para o cinema de género, mesmo que à partida mantenha a base realista associada aos seus filmes. Há até quem descreva esta quarta longa-metragem como uma incursão "nórdica" pelas aventuras de super-heróis, ainda que Trier não chegue a ir tão longe. Sim, há por aqui semelhanças ocasionais com "O Protegido", de M. Night Shyalaman, que também já tentava contornar lugares comuns desse filão, mas as capacidades especiais da protagonista nunca chegam a dominar tanto a acção como noutras abordagens a esse universo.

 

thelma 2

 

O resultado não destoará ao lado do recente "A Lua de Júpiter", de Kornél Mundruczó, outra conjugação de superpoderes num contexto realista, apesar de uma das heranças óbvias de "THELMA" ser "Carrie", de Brian De Palma, já que ambos acompanham o terror quotidiano de uma adolescente oriunda de uma família religiosa e conservadora (neste caso, com o controlo atento de pais protestantes) cuja conduta impoluta é repentinamente atormentada pelo despontar da sexualidade.

 

Para a jovem (anti-)heroína de Trier, estudante da universidade de Oslo que cresceu no interior, a entrada na idade adulta é especialmente tensa quando surge associada a uma relação demasiado próxima com uma colega. E o descontrolo sentimental, vincado por um braço de ferro entre a repressão e a entrega, tem reflexos nas capacidades sobrenaturais que entretanto começam a tornar-se mais evidentes.

 

Além deste caos emocional, que toma de assalto um dia-a-dia até então equilibrado, ainda que fechado em si mesmo, Thelma tem de lidar com as perguntas que se vão acumulando sobre o seu passado e as suas origens familiares, obrigando-a a questionar a relação respeitosa com os pais. E aqui o filme arranja forma de juntar uma investigação quase detectivesca ao que era uma tapeçaria formal já de si ecléctica.

 

Thelma 3

 

Felizmente, Trier consegue garantir que "THELMA" não resulte num agregado de pontas soltas e faz com que a jornada de auto-descoberta da protagonista seja uma aventura envolvente e até comovente, apesar de um olhar tão distanciado (mas não frio) como nos seus filmes anteriores. Mais uma vez, mostra-se também um director de actores sem falhas, com destaque para uma Eili Harboe convincentemente desamparada e desnorteada no papel principal. E continua a fazer da contenção o seu maior trunfo: veja-se como menos pode ser mais nas cenas em que as capacidades especiais de Thelma conduzem os acontecimentos, com a elegância e minimalismo a imporem-se à pirotecnia (a sequência durante uma ópera, por exemplo, é uma masterclass de atmosfera e suspense).

 

A banda sonora do conterrâneo (e cúmplice habitual) Ola Fløttum, serena e nunca intrusiva, ajuda a moldar este universo particular que só se torna menos fascinante no terceiro acto, quando o filme começa a acusar a duração (talvez não precisasse de quase duas horas) e deixa algumas sequências arrastarem-se (sobretudo as que insistem em levar o espectador questionar, demasiadas vezes, se são oníricas ou não). Mas se alguma modorra narrativa e redundância do argumento comprometem parte do entusiasmo, "THELMA" continua a ter lugar cativo entre as boas surpresas da rentrée - e Joachim Trier entre os novos realizadores europeus a manter debaixo de olho.

 

3,5/5