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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A noviça rebelde

Cherry Glazerr 2019

 

Longe vão os dias em que os CHERRY GLAZERR se contentavam com um rock de garagem pachorrento através do qual Clementine Creevy, a mentora e vocalista do grupo, fazia a crónica do quotidiano (geralmente entediante) da sua adolescência, entre pequenas odes gastronómicas ("Grilled Cheese") ou despedidas a animais de estimação ("Glenn the Dwag ").

 

Das vinhetas despretensiosas de "Haxel Princess" (2014),os californianos saltaram para "Apocalipstick" (2017), disco no qual se levaram mais a sério enquanto fizeram sobressair preocupações feministas cruzadas com experiências sobre a entrada na idade adulta, mudança que se fez acompanhar por uma moldura sonora mais musculada e outra atenção à produção.

 

Os singles mais recentes do trio, "Juicy Socks" e "Daddi", já tinham insinuado que esse seria o caminho a seguir no próximo álbum e a nova canção não vem trair a suspeita. Com uma sonoridade mais saturada do que nunca, "WASTED NUN" retoma a escola de algum rock alternativo de meados dos anos 90, através de guitarras efervescentes e refrão orelhudo, e será uma amostra fiel do que esperar em "Stuffed & Ready". De acordo com a vocalista, o álbum agendado para 1 de Fevereiro será o mais portentoso da banda ao partir da pressão sobre as mulheres e de crónicas de frustração, auto-destruição e revolta.

 

Fica o alerta, juntamente com um videoclip cuja mistura garrida do sagrado e do profano parece ter qualquer coisa do universo neo-noir de Nicolas Winding Refn, o realizador de "Drive - Risco Duplo", "Só Deus Perdoa" ou "O Demónio de Néon":

 

 

Esta prenda já tem 20 anos

The Gift_-_Vinyl

 

Caso de sucesso a partir de uma postura do it yourself, "VINYL" marcou a estreia dos THE GIFT e um capítulo importante da pop nacional de finais da década de 90. 20 anos depois da edição, continua a acolher algumas das melhores canções da banda de Alcobaça.

 

Empreendedores acérrimos antes de essa prática se tornar um modelo-chave depois da viragem do milénio, os THE GIFT têm a história do seu primeiro álbum inevitavelmente associada à recusa de todas as editoras antes de avançarem com a edição própria.

 

A atitude obstinada acabou por alimentar um fenómeno de culto quando "VINYL" surgiu finalmente nos escaparates, em Dezembro de 1998, e resultou num triunfo invulgar quando o grupo de Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, John Gonçalves e Miguel Ribeiro foi ganhando espaço nas playlists e tabela de vendas ao longo do ano seguinte - acolhimento com direito a concertos por todo o país, incluindo nos coliseus e Aula Magna, que confirmaram a desenvoltura do quarteto nos palcos.

 

 

Este abraço do grande público à banda formada em 1994 e até então praticamente desconhecida, aproximação que rompeu com a lógica dominante na indústria musical, tornou o álbum de estreia dos THE GIFT em material para um estudo de caso (em alguns aspectos comparável ao dos Silence 4, também em 1998 e também a apostarem no inglês, embora a Polygram tenha aberto as portas ao grupo de Leiria). 

 

A ascensão foi tão imprevisível que às vezes parece ofuscar o que "VINYL" ainda tem para oferecer, além da narrativa inspiradora: as canções, algumas das mais conseguidas do quarteto de Alcobaça. Exemplo da banda certa no momento certo, o disco condensou linguagens da pop mais intrigante do final do milénio, com contaminações trip-hop a acessos breakbeat, e definiu logo o ADN de um grupo entusiasmado com a ponte entre o electrónico e o acústico.

 

Entre sintetizadores e samples, cordas e metais, a voz imponente de Sónia Tavares ajudou a demarcar a personalidade de um álbum então comparado aos caminhos que Björk, Portishead ou Lamb tinham percorrido poucos anos antes. Mas duas décadas depois, "VINYL" continua a soar a uma estreia consistente e às vezes muito inspirada, mais do que a um esforço derivativo ou apenas promissor. A promessa tinha ficado, aliás, no EP "Digital Atmosphere"(1997), e o salto qualitativo para a estreia num longa-duração foi notório.

 

The Gift Vinyl 2

 

A viagem entre o tom épico e intimista fez-se logo nos primeiros temas, da urgência de "Nowadays" à contenção ao piano de "My Lovely Mirror". E ambas sugeriram que havia mais (e melhor ou diferente) a descobrir por aqui além de "OK! Do You Want Something Simple?", cartão de visita que acabaria por acusar algum desgaste.

 

O tempero latino de "Real (get me for...)", a incursão pelo português de "Ouvir" (que só viria a ser o idioma dominante das letras do grupo em "Primavera", de 2012), o frenesim rítmico de "Changes" (com ecos do drum n' bass), a viragem instrumental da marcha de "La Folie" (talvez o momento mais contagiante e luminoso) ou a melancolia da belíssima "Dream with Someone Else's Dream" (a grande canção do disco?) deram sinais de uma banda com horizontes largos e capaz de estar à altura do desafio.

 

O último terço do alinhamento é menos surpreendente (15 faixas talvez sejam demasiadas), mas "VINYL" não deixa de merecer ser (re)descoberto do princípio ao fim, mesmo em tempos e plataformas menos condizentes com o formato álbum. "E é tão difícil ouvir sem sentir", pelo menos para quem continua a encontrar aqui uma das estreias mais memoráveis da pop nacional das últimas décadas...

 

Era uma vez na Islândia

Kælan Mikla

 

Dos Sugarcubes a Björk, dos Sigur Rós aos Múm, não têm faltado surpresas musicais vindas da Islândia nas últimas décadas. E se no ano passado outros veteranos, os GusGus, editaram um dos seus discos mais consistentes, essa esteve longe de ser a única novidade a reter surgida na ilha do norte do Atlântico.

 

"Nótt eftir nótt", o terceiro álbum das KAELAN MIKLA, editado em Novembro, veio dar razão a quem apostava no trio de Reiquiavique como uma das revelações locais a não deixar passar. Formada em 2013, a banda de Laufey Soffía, Margrét Rósa e Sólveig Matthildur nasceu da participação de um espectáculo de poetry slam e nunca perdeu a vertente poética, que consegue emanar das suas canções mesmo para quem não perceba uma palavra de islandês (o idioma no qual se expressa desde os primeiros tempos).

 

Nótt eftir nótt

 

Inspirado em lendas e folclore da Islândia e tendo a noite como cenário predominante, o novo disco volta a aliar uma voz intensa ao baixo, teclados ou sintetizadores, num caminho que partiu do pós-punk e que se tem tem aproximado da darkwave.

 

Robert Smith conta-se entre os fãs desta combinação e o grupo já assegurou as primeiras partes de concertos dos Cure e dos Placebo. Mas também tem perfil para agradar a admiradores de outros nomes, dos Joy Division aos Crystal Castles, de Grimes aos Austra. E diz quem viu que em palco as canções reforçam ainda mais a aura gótica, encantatória e teatral, até porque a banda diz não repetir o formato de espectáculo mesmo dentro da mesma digressão.

 

"Næturblóm", um dos temas mais recentes, é um belo e esclarecedor cartão de visita desta música que, felizmente, tem encontrado cada vez mais abrigos fora de portas. Um festival português bem poderia juntar-se à lista, tendo em conta que o trio está a percorrer palcos europeus...

 

 

Das discotecas para a Discotexas

Super Drama

 

Jerome Slesinski e Jon Arnold animam clubes londrinos pela noite dentro há mais de dez anos, enquanto SUPER DRAMA, mas o projecto que começou com DJ sets underground tem-se expandido para outros territórios.

 

Além de se especializar em remisturas (de nomes contemporâneos como In Flagranti a faixas nada óbvias dos Soft Cell ou Yazoo), a dupla foi das boas revelações de 2018 ao editar o EP de estreia "Affected Elegance", com três originais, continuou com o single "Pressure" e voltou a fazer-se notar há poucos dias através de "ULTRA".

 

A nova canção tem a particularidade de marcar a estreia dos britânicos na portuguesa Discotexas e destaca-se como a aposta mais recente da editora de Bruno Cardoso (Xinobi) e Luís Clara Gomes (Moullinex). E é uma aposta confiável, que durante quase oito minutos se move entre o techno e o disco, depois de temas anteriores também terem passado pela house e pelo electro, sempre com um apelo físico assinalável - e muitas vezes infeccioso.

 

A comandar os ritmos está o também DJ e produtor Josh Caffé, a primeira voz convidada do duo e protagonista de um videoclip que recupera a estética do VHS enquanto dá conta dos ambientes que a música dos SUPER DRAMA costuma temperar: os da pista de dança, frequentemente de noites LGBT+.

 

A combinação de nostalgia, hedonismo e exuberância tanto lembra o último desafio de Róisín Murphy como as cenas mais emblemáticas de "120 Batimentos por Minuto", companhias espirituais recomendáveis e eventuais portas de entrada para um universo a conhecer (e do qual se esperam mais desenvolvimentos em 2019):