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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Dias de um futuro tremido

Ladytron 2018

 

Inicialmente agendado para o final deste ano, o próximo álbum dos LADYTRON - e o primeiro desde o já distante "Gravity the Seducer", de 2011 - não vai chegar, afinal, antes do primeiro trimestre de 2019. Mas 2018 conta pelo menos com dois singles dos britânicos: "The Animals", revelado em Fevereiro, e o mais recente "THE ISLAND", cujo videoclip estreou esta semana.

 

Assinado por Bryan M. Ferguson, o vídeo torna Glasgow no cenário de uma história de ficção científica que não será das mais originais, mas que pode funcionar como reflexo distópico de algumas tensões dos dias de hoje - sobretudo na forma como as diferenças são encaradas. E nesse sentido, o novo single até está na linha do anterior (e do respectivo videoclip), que já se debruçava sobre os instintos mais primários sem se afastar muito da pop electrónica turva do grupo.

 

"THE ISLAND" será também um dos temas que não deverá faltar nos próximos concertos do quarteto, todos no Reino Unido no início de Novembro, ocasiões para recordar uma das melhores discografias dos últimos anos - e talvez para saber mais do que aí vem, mas que tem demorado a chegar.

 

 

E viveram infelizes para sempre...

Michael Haneke mantém-se igual a si próprio em "HAPPY END". Talvez demasiado, com uma nova crónica cínica e amargurada sobre as relações humanas - as familiares em particular - que se revela mais intrigante pela forma do que pelo conteúdo.

 

Happy End

 

Desde a estreia no Festival de Cannes de 2017, o mais recente filme de Michael Haneke tem sido muitas vezes apontado como uma mera revisitação dos temas e abordagens habituais do realizador austríaco, sem grandes viragens. E ao ver "HAPPY END", torna-se difícil não partilhar dessa sensação de reconhecimento, com pouco espaço para mudanças de foco.


Não é necessariamente um problema quando este drama sobre uma família burguesa é servido por um elenco confiável e apresentado com as doses de distanciamento e provocação habituais no cineasta. Mas se a teia de segredos e mentiras é moldada com algum engenho, o resultado final não é tão contundente nem corrosivo como insinua - nem como talvez fosse legítimo esperar.

 

Happy End 3

 

Tendo Calais como cenário, "HAPPY END" não deixa de evocar a crise dos refugiados que tornam a cidade francesa especialmente destacada em noticiários, embora mergulhe mais a fundo na dinâmica da classe alta, concentrando-se no jogo de máscaras do clã Laurent - cuja estabilidade financeira contrasta com a aridez do plano afectivo.


"HAPPY END" também poderia chamar-se "Beleza Francesa", pela fachada de felicidade familiar de cartão postal que marca a imagem pública da família protagonista. Mas não só este conceito está longe de ser uma novidade como Haneke raramente traz grandes variações à fórmula.


O realizador mostra-se mais hábil a conduzir as várias rotinas do patriarca, filhos ou netos do que propriamente a dar espessura às suas personagens. Nem actores como Isabelle Huppert ou Mathieu Kassovitz chegam a afastar a ideia de que há aqui mais caricaturas do que figuras de corpo inteiro, até porque às vezes, e como em grande parte da sua obra, Haneke parece mais interessado em explorar a dimensão formal do que a emocional (com a sua câmara a entrecruzar-se com conversas no Facebook, vídeos do Youtube ou filmagens amadoras da protagonista mais jovem, numa montra mais eficaz do que surpreendente da fusão do real com o virtual).

 

Happy End 2

 

A conjugação de formatos tecnológicos como motor narrativo também dá conta do quotidiano insistentemente alienado e solitário das personagens, que Haneke segue de forma clínica e com acessos de humor negro. E ao apontar o individualismo exacerbado, a hipocrisia ou a falta de comunicação, deixa mais um retrato pessimista das relações humanas.

 

Só que é pena que figuras como a do filho da personagem de Huppert sejam apenas meios para atingir esse fim, limitações que até se tornam mais evidentes nos casos em que o argumento acerta. E aí brilham o veterano Jean-Louis Trintignant (depois de protagonizar "Amor") na pele do patriarca que já não espera um final feliz (só mesmo um final, a qualquer custo) e a revelação Fantine Harduin, a pequena neta obrigada a crescer à força e sem alicerces morais. A jovem actriz revela uma maturidade pouco habitual no embate com o veterano e as sequências que acompanham as conversas entre os dois, na segunda metade do filme, dão pistas do patamar superior para o qual "HAPPY END" ameaça saltar. Fica a meio caminho, mas o resultado, não sendo dos mais memoráveis de Haneke, também está longe de ser infeliz...

 

 3/5

 

 

Canção para Marielle e Matheusa

Teto Preto

 

Pouco a pouco, os TETO PRETO têm-se imposto como uma das maiores forças da nova música brasileira ao vivo, somando cada vez mais convites para festivais, e sem sequer contarem com muitos discos na bagagem desde a sua formação, em 2014. Aliás, contam apenas com o EP "Gasolina" (2016), cuja faixa-título era uma amostra explosiva da sua colagem de MPB, ritmos africanos, música de dança (techno em particular) ou ambiências industriais.

 

Dessa vontade de juntar o electrónico e o orgânico, com um convite à pulsão do corpo sem deixar de provocar a mente, nasceu também "BATE MAIS". O single mais recente, primeiro tema de um álbum a editar até ao final do ano, é outra canção longa (com mais de oito minutos) e propulsiva, mais uma vez assente nas palavras de ordem da vocalista Angela Carneosso, em modo spoken word, e numa mistura desregrada de sonoridades - com um frenesim tribal que se torna mais sintético e acelerado na segunda metade do tema.

 

Teto Preto - Bate Mais

 

Se "Gasolina" já deixava um manifesto, aprofundado num vídeo que olhava de frente para as tensões políticas e sociais brasileiras, este novo passo reforça a postura do colectivo de São Paulo enquanto voz de protesto pelos direitos das minorias: sejam mulheres, negros ou LGBTQ+. E por isso "BATE MAIS" é especialmente dedicada à vereadora do PSOL Marielle Franco e à estudante e modelo Matheusa Passarelli, ambas activistas assassinadas este ano no Rio de Janeiro sem que as investigações das mortes tenham dado grandes respostas.

 

"É um dub sobre o agora: repressão, liberdade, sexo e torpor. "BATE MAIS" é sobre não aceitar a condição de vítima. É sobre ser mulher. É um grito de (com)paixão pela luta das mulheres, é uma maneira de não esquecermos de nós, de quem somos. É sobre Marielle e Matheusa. É também sobre o nosso útero", descreve a banda. Essa urgência também passa pelo videoclip, realizado por Martina Piazza, que capta uma actuação num edifício abandonado de São Paulo e ajuda a explicar porque é que os concertos dos TETO PRETO têm sido cada vez mais disputados: