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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O imenso adeus

Them Are Us Too

 

Um ano depois de os THEM ARE US TOO terem editado o álbum de estreia, "Us Now" (2015), um dos elementos da dupla californiana contou-se entre as vítimas mortais de um incêndio num armazém em Oakland, durante uma festa de música electrónica.

 

Cash Askew tinha apenas 22 anos e encontrava-se a preparar um novo disco com Kennedy Wenning, que ficou assim inacabado mas que pode agora ser ouvido, pelo menos parcialmente, em "Amends". Resultado da colaboração da vocalista com alguns familiares e amigos do multi-instrumentista, o registo junta algumas canções já gravadas pelo duo a temas novos num alinhamento que, como não poderia deixar de ser, tem a morte e a despedida como ponto de partida.

 

Produzido por Joshua Eustis (dos Telefon Tel  Aviv), o disco segue os passos do antecessor ao retomar influências de alguma dream pop (os Cocteau Twins continuam a ser uma das inspirações evidentes), aqui com um tom mais denso e solene a atravessar o alinhamento. Há apenas uma excepção entre faixas de um ritmo tendencialmente lento e etéreo: "FLOOR", acesso propulsivo que atira a música dos THEM ARE US TOO para cenários industriais e góticos, eventuais pistas a seguir num futuro entretanto interrompido (até porque Wenning já avançou para o projecto a solo SRSQ). É uma das melhores canções da dupla e um requiem efervescente, servido num videoclip apropriadamente vestido de negro:

 

 

Depois da tristeza infinita da adolescência, a noite escura da idade adulta

adore

 

O fim do início? O início do fim? 20 anos depois, "ADORE" mantém-se entre os maiores momentos de viragem da história dos SMASHING PUMPKINS. E é certamente o mais subestimado.

 

Pouco depois de chegar aos escaparates, no Verão de 1998, foi geralmente acolhido, no seu melhor, como uma curiosa nota de rodapé depois do opus "Mellon Collie and the Infinite Sadness" E no seu pior, enquanto disco que mostrou uma banda quase irreconhecível num álbum inesperadamente contido e sombrio. As reacções a quente até concediam uma vantagem considerável à segunda hipótese.

 

Foi um papel ingrato, esse, o de suceder aos discos que são apontados, de forma quase unânime, como obras-primas de uma das bandas mais vitais do rock dos anos 90: o famigerado e ambicioso álbum duplo de 1995 e o antecessor, "Siamese Dream", de 1993, ambos alianças inabaláveis entre banda, público e crítica.

 

Depois desses gritos da adolescência, os SMASHING PUMPKINS entraram sem aviso prévio na idade adulta num disco que, mais do que nascido de um Billy Corgan a olhar para o umbigo, o encontrava a lidar com o final do casamento e, de forma ainda mais angustiada, com a morte da mãe. Junte-se a isso o facto de "ADORE" ter sido gravado sem o baterista, Jimmy Chamberlin, e torna-se evidente que este é o álbum mais dominado pelos fantasmas do vocalista até então. 

 

Smashing Pumpkins 1998

 

Não por acaso, a primeira (e até aqui) única aventura de Corgan a solo ("The Future Embrace", 2005) deve alguma coisa a estes ambientes menos efervescentes nos quais os sintetizadores vão ganhando espaço às guitarras - e quando estas se ouvem tendem para o formato acústico. A revolta de "Bullet With Butterfly Wings" não tem lugar aqui, apesar do acesso agreste de "Tear", e o deslumbramento maior do que a vida na linha de "Tonight Tonight" também fica por repetir, mesmo que haja espaço para os encantos (sóbrios) de "Once Upon a Time" ou "The Tale of Dusty and Pistol Pete".

 

"Perfect" surge como sequela (muito bem-vinda) da perfeição agridoce de "1979", é verdade, mas boa parte de "ADORE" faz-se da mágoa das belíssimas "Crestfallen", "Shame" ou "Blank Page", baladas nocturnas ao piano que convivem com a rispidez irrepetível de "Ava Adore" (um cartão de visita algo enganador), a vertigem melódica de "Daphne Descends" ou o mergulho na synthpop sonhadora de "Appels + Oranjes". Outro caso de excelência electrónica, "Pug" parece prosseguir onde "Eye" (gravada para a banda sonora de "Estrada Perdida", de David Lynch) tinha ficado, terminando com um dos melhores remates de sempre da discografia do quarteto de Chicago (aqui reduzido a trio, mantendo James Iha na guitarra e D'arcy no baixo, ao lado do mentor do grupo).

 

20 anos volvidos, e sabendo da história dos SMASHING PUMPKINS entretanto, "ADORE" é mais do que um momento de viragem. Fica mesmo como o último momento de inspiração assinalável da banda, e com várias canções que até envelheceram melhor do que algumas das que estão para trás (até porque não foram sujeitas ao desgaste dos "clássicos"). O título não é nada descabido, a capa (belíssima) também não engana: continua a estar aqui um dos grandes álbuns da década de 90.

 

 

 

A banda não regressa, mas a vocalista está perdoada

Juanita Stein

 

Desde "Heartstrings", de 2014, que não há novidades dos Howling Bells, mas em compensação o percurso a solo de JUANITA STEIN parece cada vez mais imparável. Depois do álbum de estreia em nome próprio, "America", editado no ano passado, a australiana já gravou o sucessor e está prestes a lançá-lo.

 

"Until The Lights Fade" chega a 31 de Agosto e tem em "FORGIVER" o single de apresentação, tema composto a meias com Brandon Flowers, dos The Killers (banda para a qual Stein assegurou algumas primeiras partes na digressão mais recente antes de se juntar à de Bryan Ferry).

 

O vocalista também foi o produtor de uma canção que arranca em modo trepidante, a lembrar a faceta mais eléctrica dos Howling Bells, antes de ir alternando o ritmo através de um refrão desacelerado e envolvente, com Stein a moldar-se a ambientes quase dream pop que também fazem parte da sua escola - e nos quais o seu timbre assenta especialmente bem.

 

O videoclip é tão despojado como outros da cantora a solo - caso de "Stargazer" ou "Dark Horse" - e acompanha-a nas ruas de Shepard’s Bush, zona na qual viveu há uns anos quando se mudou para Londres:

 

 

Reino animal

Drama contemplativo e ocasionalmente espirituoso, olhar intrigante de uma realizadora sobre o universo masculino, "WESTERN" vai revelando aos poucos porque é que Valeska Grisebach é das cineastas mais aplaudidas do novo cinema alemão.

 

Western

 

Apesar de só agora chegar ao circuito comercial português, "WESTERN" foi dos filmes mais celebrados de vários festivais no ano passado (chegou a passar por cá no Lisbon & Sintra Film Festival) e tem sido, para muitos, a confirmação do talento de Valeska Grisebach, que há cerca de dez anos se destacou entre os realizadores-chave da Nova Escola de Berlim.

 

Felizmente, o terceiro filme da cineasta alemã confirma-se uma experiência bem mais aliciante do que o anterior, o já distante "Sehnsuch" (de 2006, exibido em Portugal no IndieLisboa e na KINO), que não levava o seu realismo quase documental a territórios muito férteis. O novo drama partilha de alguma dessa atmosfera, mas se ainda aposta num tom cerebral esquiva-se à auto-indulgência ao aliar rigor, tensão e um humor em lume brando numa variação inspirada e personalizada da premissa "estranho numa terra estranha".

 

Centrando-se num núcleo de personagens dominado por homens, Grisebach acompanha um grupo de trabalhadores alemães que chegam ao interior da Bulgária para a construção de uma central hidroeléctrica. E vai acompanhando também o misto de estranheza e desconfiança que molda a relação dos forasteiros com a comunidade, revelando aí a razão de ser do título do filme. Neste "WESTERN" não há índios nem cowboys, mas como alguém diz a certa altura, a lógica do "matar ou ser morto" tende a instalar-se quando a animosidade se torna mais conturbada devido a uma limitação do abastecimento de água.

 

Western 2

 

Entre a fronteira desse conflito está Meinhard, o operário mais circunspecto e observador, que vai criando laços com elementos da população e faz também a ponte entre o espectador e os residentes. O protagonista pede emprestado o nome ao actor (não profissional) Meinhard Neumann e fica por saber até que ponto o primeiro é uma extensão do segundo, mas Grisebach sabe como tirar partido do seu underacting para ir subvertendo expectativas - tanto sobre os códigos comportamentais masculinos (especialmente em tempos onde se discute a masculinidade tóxica) como sobre as crónicas de aproximação cultural que parecem rumar ao caos civilizacional.

 

Olhar sobre o outro atravessado por uma sensação de paz armada, "WESTERN" é um drama implosivo que por vezes ameaça esgotar-se no exercício de estilo, embora Grisebach se esquive a simplificações enquanto aborda um jogo de poder movido por alguma sobranceria inicial (de parte das personagens alemãs) e, no limite, pelo instinto de sobrevivência. E se o desfecho pode ser acusado de ser anti-climático (ainda que deliberadamente), o que está para trás - das sequências com um cavalo a algumas cumplicidades inesperadas - impede que este seja filme a esquecer facilmente à saída da sala.

 

3,5/5